Crítica | All-New X-Men # 3 a 5 – Marvel NOW!

Com a velocidade alucinante que a Marvel vem publicando os títulos de seu semi-reboot-que-não-é-reboot Marve NOW!, o primeiro arco de All-New X-men acabou de acabar. E ele é magnífico. Um refrescante banho de novidade para os mutantes com a cronologia mais impossível do mundo. Muito tem se discutido sobre a nova aparência do Fera, mas, como vocês verão, isso é detalhe (aliás, se tudo que vocês querem é ver como ele ficou, basta clicar na imagem acima – escolhi essa ilustração exatamente para já colocar essa questão de lado).

A premissa do arco nos coloca com um Cíclope ao lado de Magneto e Emma Frost recrutando mutantes novos que a força Fênix criou na Terra. Acontece que Scott Summers é um pária entre seus colegas, pois SPOILER SPOILER SPOILER, quando tomado pela tal força Fênix, assassinou o Professor X. Por outro lado, os mutantes da escola Jean Grey querem impedir as ações de Cíclope, mas não sabem como sem iniciar outra guerra civil mutante, o que contribuiria para abalar ainda mais a confiança da população nos heróis.

Diante desse impasse, entra o Fera, que está morrendo por causa de mais uma mutação que sofre. Ele decide ir ao passado e trazer para o presente os X-Men originais, ainda adolescentes e, claro, completamente inocentes e ignorantes de seus tenebrosos futuros. O objetivo é fazer com que o Cíclope velho veja no novo o que ele deveria ser e que o novo veja no velho o que ele não deve se tornar. O primeiro número é todo dedicado à essa premissa. O segundo mostra o primeiro confronto – apenas verbal – entre os novos e antigos mutantes, deixando claro que o primeiro embate físico entre os dois Cíclopes estava por vir.

Acontece que, no terceiro número, Bendis desvia nossa atenção e passa a tratar, quase que exclusivamente, do Cíclope adulto e sua luta para reconstruir a escola Charles Xavier de mutantes dentro das instalações do antigo Arma X. E o autor usa essa linha narrativa para mostrar, também, o resgate de Emma Frost por Summers e Magneto, o que dá chance de ele relevar que os poderes dos dois está com “defeito” em virtude da Força Fênix. Cíclope mal consegue controlar seus raios oculares e Magneto vê seus poderes magnéticos enfraquecerem em momento chave.

Depois desse desvio, Bendis encara o problema de frente e, no quarto número, foca na descoberta, pelo Scott Summers adolescente, que o Scott Summers adulto realmente parece ter traído os princípios nobres que embasam os ensinamentos do Professor Xavier. Por outro lado, para seu profundo choque, o Summers adulto descobre sobre a viagem no tempo da equipe ainda verde e a pancadaria acaba comendo solta, muito menos pela vontade de lutar do que pela inexperiência de um grupo de um lado e o descontrole do outro.

O roteiro de Brian Michael Bendis consegue equilibrar os diálogos com a ação de forma muito mais eficiente do que no segundo número, ainda que o foco realmente seja na conversa e não em ações descerebradas, o que é algo muito bem-vindo. Afinal de contas, uma luta sem barreiras não faria sentido dentro de sua narrativa, já que, por mais desequilibrado que o Scott Summers adulto possa ser, ele ainda é, no fundo, um herói.

No quinto número, para fechar o círculo, Bendis volta sua atenção para quem começou essa confusão toda: o Fera. Ainda moribundo, o mutante tem que ser ajudado por seu “eu” mais novo que, auxiliado pelos recém-descobertos poderes telepáticos da Garota Marvel, trava uma conversa com sua versão mais velha, mais peluda e mais azul.

A interação é fenomenal. Se todos os demais números fossem uma porcaria – o que não é o caso – ainda sim a série valeria a pena unicamente em razão do fechamento desse arco. O Fera adolescente conversa com a versão idealizada do Fera atual (aquela versão peluda e azul clássica, com sobrancelhas parecidas com os cabelos arrepiados do Wolverine) e a eficácia dos diálogos de Bendis fica clara, se é que isso ainda necessitava de prova. Podemos até nos perguntar como é que o Fera adolescente pode ser tão inteligente assim, mas toda a questão é de enfoque. O Fera atual não só está morrendo como, também, está viciado pelos seus próprios hábitos e não enxerga uma cura fácil, ao passo que sua versão novinha é impulsiva e vê tudo com uma claridade enorme, típico de sua inocência. Mesmo a aplicação dos pronomes “eu” e “nós” quando um se refere ao outro é bem conduzida pelo autor.

Mas não é só entre os Feras que a força do diálogo de Bendis se sobressai. Há momentos entre o Fera adulto e a Jean Grey adolescente, decidida a descobrir tudo que aconteceu com ela e seus colegas, que são verdadeiras pérolas. E isso porque eu não vou nem começar a descrever a entrada de Kitty Pride na narrativa, bem no finalzinho do arco

Coroando tudo isso, há o desenho de Stuart Immonen que, nos números 3 e 4, demonstra seu mais absoluto controle sobre as cenas de ação e a distribuição de quadros. Especificamente no quarto número, ele desenha uma página seccionada verticalmente em sete seções em que ele contrasta, em cada pedaço, os heróis antigos e novos emoldurados, de um lado, pelo Cíclope adolescente e, de outro, pelo Cíclope adulto. Nesse mesmo número, ele desenha cinco páginas duplas que vão desde o combate entre os Cíclopes até o retorno do grupo comandado pelo Summers adulto ao seu covil, que são absolutamente fantásticas, todas elas entrecortadas por diversos quadros dinâmicos, sempre um diferente do outro.

Mas a grande jogada de Immonen é trabalhar o passado versus futuro no quinto número, quando ele apresenta o que provavelmente é a versão idealizada de escola Charles Xavier servindo de cenário para as conversas entre o Fera atual com o Feral adolescente e entre o primeiro com Jean Grey vestida com o uniforme sexy de Garota Marvel (aquele verde e amarelo). Tais momentos, com direto até a detalhes nas laterais como livros antigos (estamos na mente de Hank McCoy, não é mesmo?), nos remetem à saudosa Era de Bronze dos X-Men. Isso sem contar com a página dupla em que, apenas com desenhos, testemunhamos um resumo da história de Jean Grey e, claro, seu rosto de descrédito com o que ainda está por vir.

Se, depois de tudo que escrevi acima, você ainda estiver revoltado com a nova aparência do Fera (sim, ele se torna um gorilão azul, mas e daí?), você é um reclamão de marca maior. Qual é a diferença que isso faz, especialmente no caso de um mutante que historicamente já sofreu várias mutações secundárias? Há tanta coisa para apreciar no trabalho de Bendis e de Immonen que apegar-se a esse aspecto é no mínimo uma infantilidade e, no máximo, uma perda de tempo. O desfecho do primeiro arco estabelece o que pode ser uma das mais empolgantes linhas narrativas dos X-Men em muitos anos e a aparência do Fera em nada poderá influenciar nisso.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.