Crítica | All You Need is Kill

estrelas 5,0

Baseado no light novel de mesmo nome escrito por Hiroshi Sakurazaka, All You Need is Kill ganhou sua adaptação cinematográfica, em 2014, sob o título de No Limite do Amanhã. Roteirizado por Ryōsuke Takeuchi, com a arte de  Takeshi Obata (responsável pelo traço de Death Note), o mangá nos traz uma fascinante ficção científica que mistura as histórias de invasão alienígena com viagem no tempo nos moldes de Feitiço do Tempo, filme cuja premissa, inclusive, serviu como base desses quadrinhos japoneses. A obra fora nomeada para o prêmio Eisner de Melhor Edição Norte Americana de Material Internacional em 2015.

A trama gira em torno de Keiji Kiriya, um novato do exército. Nesse futuro alternativo, o mundo fora invadido por criaturas conhecidas como mímicos. Em sua primeira batalha, o protagonista acaba morrendo, apenas para acordar novamente no dia anterior do incidente. Logo ele descobre que está preso em um loop e, sem qualquer alternativa, ele decide apenas sobreviver e, para isso, aprende a cada morte, a fim de se tornar um soldado invencível. Nesse cenário, ele acaba conhecendo Rita Vrataski e se espelhando nas habilidades dessa lendária combatente. Keiji, contudo, não previa todas as possibilidades que sua volta no tempo geraria.

Com apenas dezessete capítulos, Takeuchi nos entrega uma história que se destaca pela sua agilidade e fluidez. Em todos os capítulos temos novos acontecimentos de grande relevância e o autor emprega algumas elipses bem posicionadas, adiantando a trama através de uma narração em off do personagem principal. Chega a ser angustiante enxergar o impacto dessas repetições no protagonista e o roteiro faz um bom uso disso a fim de criar uma tensão a mais no espectador, algo que já é garantido pela dinâmica desse dia que é igual somente na teoria, já que as ações de Keiji profundamente alteram o resultado final.

Desde o início temos a completa percepção de que a vitória é possível, mas ela soa sempre distante, ao passo que o cansaço do protagonista se estende para nós, mas não de uma maneira ruim – nos identificamos com o personagem e acada momento torcemos para que ele saia vitorioso, nos divertindo com sua constante adaptação aos eventos que já vivenciara. All You Need is Kill evidentemente se apoia na estrutura de video-games, no qual precisamos contornar os obstáculos aprendendo na base da tentativa e erro. De certa forma temos uma espécie de Dark Souls aqui, especialmente no que tange a dificuldade enfrentada pelo “jogador”.

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A arte de Obata desemepnha um papel crucial e traduz no olhar de Kiriya toda a sua evolução. Similarmente ao que vemos em Death Note, o traço reflete a disposição interna do personagem, ao ponto que não vemos mais a mesma pessoa no final da história. O artista consegue fazer até os capítulos mais focados no diálogo soarem dinâmicos através da expressividade de cada um dos indivíduos presentes no mangá e cada um deles conta com traços muito distintos, garantindo a identidade de cada um. Seus quadros são bastante limpos e apenas mergulham no caos quando a situação o pede, como é o caso no campo de batalha – Obata procura emular a opressão desses cenários através de um uso maior do preto, o que faz o leitor se sentir no meio de toda aquela confusão.

Apesar de lidar com um loop, o roteiro faz um ótimo trabalho ao não se deixar cair no lugar comum. Novas descobertas são acrescentadas a cada capítulo, alterando totalmente nossa visão da obra como um todo. De fato, chega a ser quase impossível prever o desfecho do mangá, por mais que os sinais estivessem presentes desde o primeiro capítulo. Estamos falando de uma coesão extremamente gratificante ao leitor, que rapidamente une os pontos estabelecidos lá no começo. Com isso, potentes plot-twists são colocados ao longo dos dezessete capítulos, revitalizando a narrativa por completo a cada ocorrência deles.

All You Need is Kill certamente mereceu sua indicação ao prêmio Eisner. Temos aqui uma história curta, dinâmica, que consegue nos fazer rir tanto pelo nervosismo, como pela satisfação de ver o protagonista atingindo seus objetivos. Com um final que chega a dar calafrios no leitor (não irei revelar o porquê), essa é uma obra que simplesmente precisa ser lida não somente pelos fãs de ficção científica, mas por qualquer um que aprecie uma boa história e digo isso mesmo para aqueles que já assistiram o filme, falando por experiência própria de ter conferido No Limite do Amanhã antes da obra original.

All You Need is Kill — Japão, 2014
Roteiro: Ryōsuke Takeuchi
Arte: Takeshi Obata
Editora (no Japão): Shueisha
Editora (no Brasil): JBC Mangás
Páginas: 210

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.