Crítica | Almas Mortas

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estrelas 3,5

Nos anos 1960, Hollywood incorporou em sua grade de produção um bom número de atrizes clássicas para interpretar papéis de mulheres loucas, violentas e desequilibradas. Praticamente uma caraterística dos filmes de terror B da época, essa escalação denotava o novo fascínio do público por um tipo muito específico de terror e suspense, filão que tem nome e data de origem nos cinemas dos Estados Unidos: o muitíssimo bem-sucedido O Que Aconteceu Com Baby Jane?, de Robert Aldrich, lançado em 1962.

Para uma indústria que nunca lidou bem com a velhice — e o Studio System forçava em suas atrizes e atores a ideia de que a velhice os afastaria completamente dos holofotes, um fator percebido ainda hoje em dia, mas em proporções muitíssimo menores –, o cinema via agora um meio de lucro nessa leva de filmes, que custava pouco para produzir e que podia gerar bastante dinheiro para os produtores. Claro que boa parte das grandes casas de cinema na América não queriam arriscar todo e qualquer projeto de “violência pelas mãos de matronas dos anos 30”, ou os terrores do subgênero psycho-biddy, mas eventualmente distribuíam a obra, como aconteceu com Almas Mortas (1964), que teve produção pela própria empresa do diretor William Castle e foi distribuído pela Columbia Pictures. Ao final do filme, a cabeça da mulher que está no logo do estúdio é mostrada aos seus pés, como se tivesse sido decepada, exatamente como a cabeça das vítimas que vemos no longa.

William Castle começou a dirigir filmes em 1939 e fez de tudo um pouco. Os dois gêneros que mais se destacam em sua filmografia são o Noir e o Western, pelo menos até meados dos ano 1950, quando o diretor teve dificuldades para conseguir projetos. Depois praticamente dois anos fazendo trabalhos na TV, o cineasta mergulhou no horror e fez nesse gênero praticamente todo o restante da sua carreira. De 1959 para frente, Castle construiu para si uma personalidade que fazia mímicas assumidas de Alfred Hitchcock, inclusive brincando com a figura do famoso diretor britânico, além de adotar, em ocasiões especiais, o título de “Mestre do Suspense”. Afirmando ter assistido O Que Aconteceu Com Baby Jane? mais de 17 vezes, Castle cultivou um sonho que realizaria em 1964: trabalhar com Joan Crawford e com Robert Bloch, o autor de Psicose.

Sem ofertas para papéis dignos de sua grandeza, Crawford acabou aceitando os primeiros roteiros interessantes que lhe caíram nas mãos em 1963: Almas nas Trevas, de Hall Bartlett, e Almas Mortas. O convite para este segundo longa foi realizado pelo próprio William Castle, em uma festa, que garantia a Joan Crawford pré-aprovação de roteiro e elenco se ela aceitasse atuar em seu Strait-Jacket (Camisa de Força, em português, um título muito melhor que Almas Mortas, que mais parece um drama nietzschiano do que um filme de terror).

O roteirista da obra, Robert Bloch, vinha de dois anos de muito trabalho na televisão. Após seu famoso romance Psicose ter sido adaptado para o cinema, ele foi convidado para escrever histórias de terror e suspense para as séries Alfred Hitchcock Presents e Thriller, tendo também assinado dois roteiros, Demência e A Mansão do Dr. Caligari, ambos de 1962. Em Almas Mortas, o escritor disfarça o impulso assassino que marcou o seu Norman Bates e o dá a Lucy Harbin (Joan Crawford), uma espécie de femme fatale anacrônica que em um surto de ciúmes, ao ver o marido traindo-a em sua própria cama, mata a ele e à sua amante a machadadas, inicialmente cortando-lhes a cabeça e seguindo com o abate até completar 41 golpes. A cena, assistida pela filha de Lucy, dá a chave para muita coisa do mistério que se desenrolará a partir de então.

SPOILERS!

Não há dúvidas de que a melhor coisa do filme seja Joan Crawford. A atriz domina todas as cenas em que aparece, até mesmo quando não deveria, na famosa cena final. O filme iria terminar na revelação do grande mistério, colocando Carol Harbin (Diane Baker) como a verdadeira assassina, realizando todas aquelas atrocidades para incriminar a mãe, uma já conhecida psicopata, para conseguir se casar com o noivo Michael (John Anthony Hayes), casamento que os pais do jovem não aprovaria. Se estivessem mortos, porém, isso não seria um problema. O plano é bem escondido pelo roteiro e a cena final, com Carol agindo como louca, seria perfeita para o término da película, não o sacrifício materno (também enlouquecido) que Crawford mandou adicionar às pressas, pois não queria que Diane Baker fosse a última pessoa a ser vista no filme, muito menos em uma cena tão forte como aquela.

O poder de Crawford na produção também se estendeu por outras áreas, como a inserção de propaganda da Pepsi (da qual era uma das diretoras — título obtido “por tabela”, após a morte do esposo, que ocupava o cargo) e a escalação do próprio vice-diretor da empresa, Mitchell Cox, no elenco do filme. Embora não fosse ator — e tenha dado muitos problemas nas filmagens, pois não conseguia se lembrar de suas falas — ele até que não está mal em cena e consegue passar tranquilamente a imagem de um psiquiatra em férias, apenas “visitando” pela fazenda de uma antiga paciente.

Embora não existam atuações ruins no longa, Diane Baker (com exceção da ótima cena final) e John Anthony Hayes são os elos fracos. A culpa disso é parcialmente do roteiro, que lhes deu diálogos incrivelmente estúpidos na primeira parte do filme, além de insistir em um humor negro que perde a graça quando reprisado sob bases diferentes, vide a fala de Carol sobre “engordar os porcos para matá-los“; “esperar o momento certo para abater as galinhas” e outras deixas que trazem à tona o elemento assassino da fita. Visualmente falando, essas alusões se saem muito melhor, mesmo com os sustos forçados e a criação de uma atmosfera de silêncio para um posterior ataque da trilha sonora. Os cômodos escuros e as sombras de alguém com um machado cortando cabeças em uma fazenda são bem capturadas pela câmera, mesmo que hoje tenha efeitos que não envelheceram bem, mas isso é algo perdoável, já que estamos falando de um filme B.

Almas Mortas prova que a indústria do cinema, mesmo cruel com as atrizes que “passavam da idade”, ainda tinha o privilégio de tê-las lutando para trabalhar e fazendo o melhor de si até em filmes menores. O fato é que Almas Mortas além de possuir Joan Crawford, tem outras notáveis qualidades, especialmente na surpresa dada pelo roteiro e por uma boa parte da fotografia, direção de arte (as cabeças cortadas são ótimas!) e direção. Vale a pena não só pelas machadadas, mas pelo sabor fresco de um psycho-biddy estrelado por uma das atrizes que um dia fora o topo da lista de Hollywood.

Almas Mortas (Strait-Jacket) — EUA, 1964
Direção: William Castle
Roteiro: Robert Bloch
Elenco: Joan Crawford, Diane Baker, Leif Erickson, Howard St. John, John Anthony Hayes, Rochelle Hudson, George Kennedy, Edith Atwater, Mitchell Cox
Duração: 93 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.