Crítica | Alô, Amigos

“Então, adios Hollywood e saludos amigos.”

O contexto de Alô, Amigos é um grande conhecido dos estudantes brasileiros, pincelado durante aulas de histórias e exames vestibulares. Com o alvorecer da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e seu então presidente Franklin Roosevelt buscavam aliados no Sul da América, enquanto Walt Disney e toda a sua equipe de animadores buscavam por ideias, inspiração. Nada mais perfeito para conciliar ambos projetos do que um longa-metragem feito para homenagear – e explorar – aspectos e riquezas culturais de regiões sul-americanas, com os intuitos de tanto encontrar criatividade em terras não antes desbravadas sob a ótica estadunidense quanto estreitar laços com os companheiros além das fronteiras. Em Alô, Amigos, temos o primeiro fruto dos estúdios Disney após a visita de um grupo de mais de 15 americanos aos seguintes países: Brasil, Chile, Argentina, Peru e Bolívia. Todavia, além destes, a viagem também encontraria espaço para cobrir outros espaços do mapa latino, como poderíamos ver no documentário lançado no mesmo ano South of the Border with Disney, e no próximo fruto em longa-metragem dessa visita às terras do “resto” da América, Você Já Foi à Bahia?

Neste que é o longa-metragem mais curto da Disney, nos deparamos com uma linha narrativa que funciona, primeiramente, quase como um documentário de verdade. O narrador Fred Shields nos apresenta essa viagem de Walt Disney e companhia à América do Sul e encaminha para nós imagens de gravações feitas com os próprios animadores e produtores, além de uma sequência que mapeia as cidades do continente, de uma forma parecida com a feita em Dumbo, tornando-as desproporcionalmente maiores do que são na realidade, o que ocasiona uma sensação de que o mapa da região está vivo. Aliado a isso, o pano de fundo musical de nossa viagem às terras sul-americanas começa com uma espirituosa música chamada Saludos Amigos, homônima ao título original do filme. Aos poucos, a obra dá espaço para que o trabalho oriundo desta viagem seja apresentado: quatro curtas-metragens, cada um com suas particularidades, mas todos mesclando as tradições dos cenários escolhidos para as histórias com alguns aspectos pertinentes da cultura norte-americana.

Em um plano importantíssimo, é notável considerar-se como positiva, em um paralelo com a tentativa dos Estados Unidos de aproximar-nos com eles através de nossas diferenças e similaridades, a questão da dublagem desses desenhos animados. Tanto no áudio original quanto na dublagem brasileira, com exceção do narrador por razões óbvias, os personagens permanecem com suas vozes originais, performadas pelos mesmos atores, de nacionalidades condizentes, em todas as versões. Isso permite que apreciemos ainda mais o trabalho do segmento brasileiro, o qual não precisa que a dupla formada por Zé Carioca (José Oliveira) e Pato Donald (Clarence Nash) fale o mesmo idioma para se entender e criar um vínculo, algo parecido com o que Roosevelt queria fazer nessa “expedição” dos animadores à América do Sul. Ademais, a animação ainda assim não consegue encontrar um fluxo narrativo mais vigoroso. Isso acontece pois a curta duração é uma grande problemática, ainda mais pelo fato de que quando a passagem pelo Brasil, a melhor de todas, acaba, o término do filme não é algo esperado, surgindo, portanto, abruptamente.

Entretanto, em comparação com a parte estrelada pela cidade do Rio de Janeiro, não é que El Gaucho Goofy, Pedro e Lago Titicaca sejam animações ruins. Elas seguem o padrão de qualidade dos curtas-metragens da Disney na época, o qual era caracterizado pela sua excelência. Por exemplo, é impossível não se divertir com Pateta (Pinto Colvig). Outrossim, a relação que se faz do gaúcho argentino com o caubói estadunidense é muito bem-vinda; uma aproximação da cultura dos “americanos” com a dos latinos. Mas por um outro lado, enquanto Zé Carioca busca exprimir, em um recorte é claro, diversas características presumidamente brasileiras, aliado a uma animação que procura transmitir o mesmo, Pedro, o aviãozinho chileno, é um desserviço desonesto ao Chile. Pedro poderia ter passado despercebido como um personagem divertidinho de um curta americano qualquer, se não tivesse a responsabilidade de ser um representante de sua nação. Não é à toa que o cartunista Pepo fez ele mesmo Condorito, um personagem a rivalizar os conhecidíssimos da Disney, visto seu profundo desapontamento, compartilhado com muitos chilenos, com a tentativa fracassada da Disney de englobar toda uma cultura em um mero aviãozinho atrapalhado. 

Enfim, Aquarela do Brasil é definitivamente o mais grandioso e maravilhoso dos curtas; aquele que mais exalta o seu cenário dentre todos os outros segmentos. A própria qualidade da animação é maior, ainda mais quando comparada com as partes que lhe antecederam, comuns ao extremo. Sendo assim, o desnivelamento acaba afetando o nosso gosto por tudo que veio antes, ao mesmo passo que torna Alô, Amigos um filme muito mais interessante e importante. Afinal, estamos abordando o nascimento do incrível Zé Carioca, um malandro como ninguém, curiosamente, dublado por um paulista. Mesmo assim, tudo funciona nesta animação com cara de Disney e com vigor brasileiro. Não poderia ser deixado de fora uma menção mais que merecida à canção composta por Ary Barroso e cantada por Aloysio de Oliveira, a própria Aquarela do Brasil, também homônima ao título do curta, mas especialmente belíssima devido sua própria natureza. O que os animadores fazem nesse segmento é espetacular, transformando a paisagem brasileira em uma incrível aquarela, inesquecível. Ao passo que o estúdio de animação já havia realizado a obra-prima Fantasia, sua próxima abordagem em um formato de antologia deveria correr muito chão para se igualar aos pés do espetáculo que lhe precedeu. Walt Disney nunca conseguiu fazer isso em seus futuros filmes antológicos, mas Aquarela do Brasil chega perto do deslumbramento de Fantasia.

Por fim, quando se tem esse tipo de encerramento para um filme é difícil não se apaixonar por ele. Contudo, quando pensamos sobre os diversos demais aspectos da obra, como seus três outros curtas-metragens, muito menos mágicos, além de uma questionável narração de eventos que não precisariam ter uma voz ao fundo, soando, consequentemente, deveras expositivo (percebam que o único momento que o narrador se cala é na deliciosa Aquarela do Brasil), as coisas não ficam tão magníficas. A história poderia falar por si só nesses outros casos, não precisando de uma voz para descrever os sentimentos e os acontecimentos. Todavia, no caso do nosso Brasil lindo e trigueiro, Walt Disney e Roosevelt tiveram tamanho sucesso com esse projeto que o filme Alô, Amigos foi até mesmo lançado antes no Rio de Janeiro do que nos Estados Unidos, com quase um ano de diferença de uma estreia para outra. No final das contas, é bom demais vermos, mesmo que de uma forma consideravelmente estereotipada (mas passível de ser relevada pelo já comentado recorte), o nosso país, no caso a cidade do Rio, sendo retratado desta forma tão bonita, que nos faz, por um segundo, esquecer dos inúmeros problemas que afetam o cotidiano dessa terra de samba e pandeiro.

Alô, Amigos (Saludos Amigos) – EUA, 1942
Direção: Norman Ferguson, Wilfred Jackson, Jack Kinney, Hamilton Luske, Bill Roberts
Roteiro: Homer Brightman, William Cottrell, Richard Huemer, Joe Grant, Harold Reeves, Ted Sears, Webb Smith, Roy Williams, Ralph Wright
Elenco: Frank Graham, Frank Thomas, Clarence Nash, Pinto Colvig, José Oliveira, Walt Disney, Norman Ferguson, Lee Blair, Mary Blair, Fred Shields, Stuart Buchanan
Duração: 42 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.