Crítica | Alphaville (1965)

estrelas 3

Antes da produção, uma confissão. Há três anos fui questionado, na posição de crítico de cinema, sobre como ficaria o estatuto da minha profissão diante da pouca proximidade com as produções do francês Jean-Luc Godard. Ao confessar o meu “amor” por François Truffaut e o meu pouco interesse (quase uma antipatia) pelo transgressor e provocativo Godard, adentrei numa celeuma pedagógica: como dar aulas sobre a evolução história da linguagem cinematográfica sem “gostar” dos filmes do cineasta, um importante nome da cinematografia mundial do século XX?
As respostas foram surgindo homeopaticamente: primeiro, de fato, era preciso conferir os filmes do diretor para melhor compreensão histórica do cinema enquanto linguagem e arte. Segundo, foi nesse período que reforcei na prática, um discurso: é preciso ver para conhecer, mesmo que aquele tipo de produto não faça parte do seu cânone. Posturas como “não vi e não gostei” não cabem no discurso de um crítico de cinema. Foi nesse embalo que conferi as demais produções do cineasta, aguçando ainda mais o meu olhar e definitivamente declarando Godard como um dos diretores menos interessantes para o meu gosto pessoal, mesmo que a sua produção seja de suma importância para a história do cinema.

Em Alphaville (1965), somos inseridos na trajetória do agente secreto Lenny Caution (Eddie Constantine, em ótima performance). Ao chegar em Alphaville, uma cidade alocada num futuro não muito distante, controlada por um computador intitulado Alpha 60, o agente precisa cumprir uma complexa missão: acabar com os planos do Dr. Von Braun, criador do Alpha 60, a fim de evitar uma guerra intergaláctica.

Nessa sociedade planejada, as palavras em circulação são controladas pela máquina. O horizonte existencial dos habitantes de Alphaville se encontra artificialmente limitado. No local, o agente Caution presencia toda a descrença das pessoas, bem como a falta de liberdade de expressão. E é nesse mesmo contexto que vai conhecer Natasha (Anna Karina), mulher por quem irá se apaixonar, mesmo diante de tanta turbulência.

Com estrutura semelhante às narrativas literárias Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell, Alphaville é um filme que aborda sociologicamente o temor que o período posterior à Segunda Guerra Mundial trouxe, pois as novas tecnologias haviam reconfigurado o mundo que passava por constantes e frenéticas transformações. A preocupação com a vida moderna, com o estado das coisas, com as relações interpessoais e com as marcas cada vez mais profundas do capitalismo, além do autoritarismo das ditaduras, está presente, mesmo que iconograficamente, no filme. O que não é dito na narrativa é representado por elementos do espaço cênico.

No que tange aos aspectos estruturais, o roteiro é um dos pontos mais fortes. “O ideal em Alphaville é a tecnocracia como as de formigas e cupins”. Exposta por um dos personagens, o trecho nos remete a uma clara noção de exaltação do coletivo e o sentimento de repulsa aos sentimentos individuais oriundos de pessoas portadoras de emoções e opiniões próprias, algo que não condiz com a realidade local, um espaço controlado milimetricamente. Quando, em outro momento, um personagem diz que “o presente é a forma de toda a vida (…) antes de nós nada existiu aqui”, o filme adentra na seara teórica dos estudos sobre a memória. Numa alusão à anulação da memória, os habitantes do local são pessoas que negaram as suas existências, pois agem como peças de uma espécie de situação experimental.

Dentre outras passagens marcantes, temos o momento em que um dos personagens afirma que “a poesia transforma a noite em luz”. Diante da obscuridade das posturas de quem dita o local, a fala nos remete, salvas as devidas proporções, ao que Platão prega sobre a presença da “poesia” na vida dos soldados em A República. Poesia para quê, se os habitantes precisam estar preparados para coisas mais práticas na vida? Esse é um dos numerosos momentos do filme em que Alphaville aproxima-se de Fahrenheit 451, do cineasta François Truffaut, adaptado do romance homônimo de Ray Bradbury: a literatura como mal, produto nocivo para a racionalização do pensamento.

Ainda na seara textual, o desenvolvimento do agente Caution nos remete aos mais variados personagens da mitologia que compõe a história ocidental. O protagonista lembra o mito de Orfeu, pois resgata a sua amada e pede que ela não olhe para trás, assim como nos remete à história de Ló, do Gênesis, livro que inicia a Bíblia Sagrada. Na passagem temos o reforço dessa condição de não olhar para trás ao abandonar o local, pois como aponta Ló, a mulher que não obedeceu transformou-se em estátua de sal ao trilhar o caminho de saída de Sodoma e Gomorra.

E, para complementar o feixe de interpretações temáticas do filme, temos uma alusão ao “eterno retorno”, um dos pensamentos do filósofo Nietzsche, que aponta o passado como representação do futuro, pois ele avança em linha reta, porém acaba chegando ao fim, mas retornando sempre ao começo, como uma serpente que alcança o próprio rabo. Em suma, na distopia de Alphaville, a vida é uma narrativa circular, pois as pessoas não avançam, mas circundam as suas próprias existências.

Repleto de alegorias, a produção possui como alguns dos seus destaques no campo da linguagem a relação visual com os ambientes noturnos e sombrios da estética Noir (o que inclui o uso da voz over). A trilha sonora intrusiva é paródica, pois adentra em situações contrárias ao que esperamos, aliada a uma montagem não-linear, que rompe com a narratividade clássica e causa estranhamento para os desacostumados com perspectivas alternativas de apresentação de uma história.

As referências estão presentes para todos os lados: um personagem desaparecido se chama Dick Tracy, o agente 003 é uma óbvia paródia aos filmes da série 007, em voga na época, além do protagonista ao estilo detetive hard-boiled, ou seja, um homem impermeável, fala rude, durão com as mulheres (o que proporciona alguns dos momentos mais hilariantes do filme) e sempre correndo risco de morte, que ganha excelente projeção com o trabalho de som desenvolvido por Paul Misraki e a direção de fotografia de Raoul Coutard.

Curiosamente, Alphaville, no Brasil, teve o seu nome recuperado por empreendedores preocupados em convencer os seus futuros compradores a adquirir uma moradia num local com ambientes inovadores. Essa afirmação, presente na dissertação de mestrado em Urbanismo, intitulada Sociabilidade e Identidades Confinadas em Condomínios na Barra da Tijuca, do pesquisador Ledilson Lopes, dialoga com o ideal de sacrifício desses moradores, que tem a sua “liberdade” vigiada constantemente, mas são compensados por um futuro seguro e harmonioso, longe da presença de indesejáveis intrusos. Ficção e realidade numa relação simbiótica, porém, cabe ressaltar, o empréstimo dos empreendedores buscou apenas uma correlação, tendo em mira o caráter pessimista da trama.

Alphaville é um filme marco e obrigatório para os cinéfilos e estudiosos, haja vista que está presente (ou é vagamente citado) em quase todos os manuais sobre a evolução do cinema como linguagem, bem como em textos que traçam perspectivas sociológicas para a história do cinema.

Refilmado em 1990 com o título de Megaville, o filme de Jean-Luc Godard é uma referência importante para compreensão de um dos momentos históricos mais conturbados do século XX: a urbanização, a evolução tecnológica e as novas configurações que emergiram na década de 1960. Décimo longa-metragem do diretor, realizado numa época de consolidação da sua carreira como cineasta provocador e polêmico, Alphaville é um filme inovador para o seu respectivo período histórico, com abordagem retomada numerosas vezes ao longo das décadas seguintes, através das distopias hollywoodianas e de outras cinematografias mundiais.

Alphaville (Alphaville, França – 1965)
Direção: Jean-Luc Godard
Roteiro: Jean-Luc Godard
Elenco: Eddie Constantine, Anna Karina, Akim Tamiroff, Valérie Boisgel, Jean-Louis Comolli, Christa Lang, Howard Vernon, Jean-Pierre Léaud.
Duração: 98 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.