Crítica | Amadeus

Wolfgang Amadeus Mozart é um dos nomes mais possantes do universo da música erudita. O compositor austríaco, nascido em Salzburgo em 27 de janeiro de 1756, é um dos grandes expoentes do período clássico da música, que se inicia em 1750 com a morte de Johann Sebastian Bach. É frequente se apontar que a única biografia cinematográfica bem realizada sobre um compositor erudito foi dedicada a ele. De fato, praticamente todos os outros grandes baluartes desse universo ganharam biografias canhestras e algumas beirando o ridículo. Chopin foi interpretado por um ator de porte atlético em uma história eivada de invencionices em À Noite Sonhamos. Beethoven, representado no mínimo duas vezes (em Minha Amada Imortal e O Segredo de Beethoven), também esteve longe de ganhar uma obra à altura de sua importância. Apesar de suas qualidades, Coco Chanel & Igor Stravinsky, de 2009, mais uma vez usa e abusa de grandes delírios sobre a vida e a obra do compositor russo. É necessário dizer que é possível sim realizar um ótimo longa-metragem sobre a vida de um compositor sem necessariamente se ater à máxima precisão historiográfica. Mas o grande problema de todas essas obras é permitir que essa liberdade descambe para distorções completas sobre a própria personalidade e o gênio de seus protagonistas.

E talvez Amadeus, do diretor tcheco Milos Forman, baseado na peça teatral homônima de Peter Schaffer, seja o caso em que isso aconteça dentro da mais bela realização cinematográfica sobre a vida e a obra de compositores clássicos. Enquanto cinema, o filme de 1984 realmente não encontra par em seu gênero. A adaptação de Forman obviamente toma como matéria-prima o enredo criado por Schaffer e não dados históricos sobre a vida e a obra de Mozart, que poderiam ser acessados em fontes mais seguras. Sendo esse o ponto de partida do filme, não há como negar que tudo funciona muito bem. A direção do tcheco é caprichosa e explora a enorme qualidade do elenco que tem nas mãos. Tom Hulce, vivendo o notável músico, é ousado em sua composição do personagem. Dá vida às descrições (algo apoiadas em dados históricos) da personalidade expansiva, infantil e também mimada e dada a arroubos de fúria e insubordinação do compositor austríaco. Hulce é tão efusivo em sua interpretação que chega a esbarrar na caricatura em alguns momentos. Nada, contudo, que incomode realmente (na segunda metade do filme, ele desenvolve uma caracterização bem mais complexa de Mozart como homem em decadência, doente e já assolado pelo vício e pela depressão).

A grande atuação de Amadeus é de F. Murray Abraham, vivendo o rival invejoso de Mozart – o italiano Antonio Salieri. Abraham é magnífico e extrai de seu personagem tudo o que ele pode dar. Se é difícil sentir afeto e compaixão por outros grandes personagens dominados pela inveja ao longo da história das artes (não imagino tais sentimentos por figuras da mais profunda vilania, como o mouro Otelo, de Shakespeare), o Salieri de Amadeus é capaz de nos comover por sua dor e por sua desgraça. Uma de suas melhores cenas é aquela em que o personagem de Abraham concede absolvição a todos os medíocres que encontra no corredor do hospício onde passa seus últimos dias. É possível sim odiá-lo por seus atos pérfidos e traiçoeiros. Mas também é possível ser compassivo diante de sua indagação a Deus: “Por que me deste o desejo de ser Tua voz e depois me negaste o talento?“.

Não menos brilhante é a direção de arte do longa-metragem, com seu trabalho impecável de figurino, cenografia e fotografia, que privilegia as luzes e os tons naturais do dia, nos transportando muito bem para as tipicidades da Europa da segunda metade do século XVIII. Mais um ponto em que o filme é realmente glorioso é em sua montagem sonora. As cenas são pontuadas e, mais que isso, tem seu caráter reverberado pela música de Wolfgang Amadeus Mozart, de tal modo que se torna impossível imaginar a obra sem sua propulsão musical. O começo do filme, que apresenta Salieri enlouquecido e tentando se matar, é impulsionado pelo primeiro movimento da Sinfonia Nº 25, a primeira das sinfonias mais importantes do compositor. O movimento, ao mesmo tempo em que traduz a loucura de um homem, também pode ser interpretado como a descrição de muito do que é a personalidade abundante e intensa de seu rival. A trilha sonora foca curiosamente na música operística do austríaco, explorando a feitura e as estreias de suas três óperas mais vultosas – As Bodas de Fígaro, Don Giovanni e A Flauta Mágica. A música sacra também tem importância no roteiro por meio de seu exemplar mais monumental e cercado de mistérios – o Réquiem, missa dedicada aos mortos, que Mozart compunha no fim da vida e que acabou deixando inacabada devido à sua morte prematura. A obra foi completada por um pupilo de Mozart e Salieri, ao contrário do que aparece no longa-metragem, não teve qualquer participação em seu processo de composição.

Mas é preciso que falemos, então, dos problemas da peça de Schaffer e de sua transposição à sétima arte, por consequência. O primeiro que eu traria à baila é a tentativa aborrecida e já surrada de construir um personagem do quilate de Mozart como um gênio incompreendido em seu tempo. Aceito a ponderação de que isso acontece em Amadeus sem a dependência discursiva que ocorre em outras cine-biografias musicais. Mas em seu desenvolvimento, o filme de Milos Forman parece recorrer à velha fórmula ao modificar completamente a história das estreias de As Bodas de Fígaro e de Don Giovanni. A estreia da primeira, em 1 de maio de 1786, foi um sucesso estrondoso em Viena, de modo que Mozart sentiu-se plenamente encorajado a compor e a levar aos palcos do mesmo teatro, em 29 de outubro de 1787, a história trágica do sedutor italiano. O principal jornal vienense, em 3 de novembro de 1787, destacou o êxito do compositor de Salzburgo alguns dias antes: “A ópera dirigida pelo Sr. Mozart é extraordinária e a plateia ficou impressionada com a excelente interpretação. O número elevado de expectadores assegurou a aclamação de Don Giovanni, fazendo com que esta ópera possa ser considerada uma das maiores composições líricas já escritas”.

Como se pode notar, os registros históricos são bastante claros e tornam delírios profundos tanto o bocejo do imperador em uma das árias de As Bodas de Fígaro como a plateia modesta, entediada e de aplausos tímidos ao final de Don Giovanni. Sabe-se que Mozart teve grande sucesso comercial com suas óperas, sendo provavelmente o primeiro grande empreendedor do mundo operístico, compondo e montando seus espetáculos com grande engenhosidade e inovação. A grandiosidade do compositor austríaco não reside, portanto, em ser um compositor para a posteridade, como aposta Amadeus nesses momentos. Ela está justamente no extremo oposto disso, tornando a perversão do filme uma grande tolice argumentativa. Reitero que o problema aqui não é a simples modificação de fatos históricos. O grande tropeço do longa-metragem é sua falha na própria compreensão sobre a grandeza de Mozart, que fez grande sucesso com o público em vida, sem que isso o tornasse um compositor menor após sua morte.

Outro grave problema que vejo é o de reduzir a figura de Antonio Salieri à condição de compositor medíocre e frustrado, pesando sobre ele a ausência de talento como uma espécie de anátema. Em primeiro lugar, é importante pontuar que o compositor italiano foi uma grande figura em seu tempo e sua importância não pode ser ignorada. Ele foi, inclusive, professor de Beethoven e de Schubert e conservou laços bastante amistosos e de admiração profunda com seus contemporâneos. Em 2016, foi estreada em Praga uma peça perdida de Mozart, composta na realidade a seis mãos. Os dois coautores da peça para voz e piano, intitulada Pela Recuperação da Saúde de Ofélia, chamavam-se Cornetti (um compositor até então desconhecido) e Antonio Salieri. Redescoberta após tantos anos, essa composição nos dá uma noção de como a relação entre Mozart e Salieri era também colaborativa. É fato que a posteridade encarregou-se de decantar a importância do legado musical de ambos e Mozart é hoje muito mais executado nas salas de concerto mundo afora que Salieri (eu, pessoalmente, só assisti a um concerto em toda a minha vida em que constasse no programa uma obra do italiano).

Mas a grandeza de Mozart não pode ser reafirmada por meio do menosprezo de seus rivais. Além de Salieri, o prodígio de Salzburgo teve contato profícuo com muitos compositores de seu tempo e alguns deles tem estatura equivalente a de Mozart, como Joseph Haydn e Muzio Clementi. As relações entre eles eram tão estreitas e interessantes que, acima de qualquer rivalidade banal, havia espaço para troca de ideias e para homenagens explícitas. É o que o próprio Mozart faz na Abertura de A Flauta Mágica, uma declarada homenagem ao primeiro movimento, tão cheio de verve, da Sonata para Piano em si bemol maior, de Clementi. Dito tudo isso, resta fazermos uma pergunta retórica: engrandecer o compositor austríaco exige mesmo a redução ou a eliminação biográfica de seus contemporâneos ou Mozart se torna ainda maior pelo fato de ter alcançado lugar tão nobre coexistindo com outros músicos de grande valor?

Portanto, o grande equívoco de Amadeus é mais do que somente alterar a história de Mozart. O mais embaraçoso é alterá-la em função de concepções problemáticas. E a grande invenção continua sendo mesmo a conclusão da obra, isto é, a morte do protagonista, envenenado por Salieri. Não há qualquer apoio histórico nessa ideia e tanto a peça de Schaffer como o filme de Forman levam ao paroxismo a ideia do rival de Mozart como um invejoso capaz de tudo. É incrível notar que as grandes qualidades cinemáticas do longa-metragem acabam sendo a sua fortaleza e, ao mesmo tempo, a sua ruína. Amadeus é tão cativante que acabou eternizando a fala de Salieri que abre o filme: “Mozart. Eu matei Mozart!”. A imagem do compositor como homem que enlouqueceu pela inveja e pela falta de talento tornou-se extremamente forte dentro do imaginário comum. Para muitos, a imagem de Mozart também é aquela que aparece no filme de Milos Forman, com todo seu espalhafato, seus esgares e suas risadas indecorosas (essas também não encontram nenhum eco em descrições de historiadores).

Mas se é com veneno que um dos maiores compositores de todos os tempos é assassinado na ficção, ironicamente o trabalho de Forman acaba provando de suas próprias qualidades como um veneno auto-inoculado. Analisar Amadeus é um trabalho complexo e a reflexão que resta ao final da projeção é mesmo pensar se, no todo, a beleza do longa-metragem fez mais bem ou mais mal à imagem de Wolfgang Amadeus Mozart. Que o púbico decida sobre isso ao longo de uma fita de três horas de duração absolutamente prazerosa e com cinema da mais alta qualidade.

Amadeus – EUA, 1984
Direção:
Milos Forman
Roteiro: Peter Shaffer (baseado em sua própria peça)
Elenco: F. Murray Abraham, Tom Hulce, Elizabeth Berridge, Roy Dotrice, Simon Callow, Christine Ebersole, Jeffrey Jones, Charles Kay, Kenny Baker, Lisbeth Bartlett
Duração: 160 min. (versão de cinema), 180 min. (versão do diretor)

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.