Crítica | Amadeus

estrelas 5,0A paixão de Peter Shaffer pela música, sua admiração pelo compositor de Salzburgo é dada vida através do cinema de Milos Forman. Em uma retratação romanceada, intimista, uma viagem ao âmago da alma de Antonio Salieri, acompanhamos a jornada de dois músicos – ele próprio e seu nêmesis, Wolfgang Amadeus Mozart. Amadeus é um verdadeiro ode à genialidade de um homem e um grande aviso sobre os efeitos da Inveja sobre nós meros mortais.

Falo aqui do pecado capital, o que, de início, garante o rumo da trilha caminhada por Salieri (F. Murray Abraham), completamente galgada em sua relação de amor e ódio com Deus e seu instrumento na Terra, Mozart. O roteiro de Shaffer, portanto, constrói essa narrativa religiosa, perpassando seu protagonista (ou seria antagonista?) por todas essas tentações que devemos evitar. Da gula, representada pelos constantes doces de Antonio à soberba, ilustrada pela sua posição como músico da corte, vemos um homem que diz se entregar a uma força maior, mas que, no fim, entrega-se às próprias mesquinharias. A escolha do título é, portanto, precisa resumindo perfeitamente os enfoques da obra.

O início deste conto fantástico tem início em um hospital psiquiátrico de Viena – com o, já velho, Salieri, logo após uma tentativa de suicidio, confessando sua história para um padre. Mozart, perdoe seu assassino. Ouvimos puco antes de sua sangrenta empreitada, sua fuga da realidade, da vida. Quando, enfim, o italiano começa a narrar sua história somos jogados de cabeça na admiração por Wolfgang, tão bem trazendo as próprias emoções do roteirista para a tela. Amadeus, então, já deixa claro que estamos diante de uma narrativa ficcionalizada, baseada unicamente nas lembranças e conjecturas de Salieri, tão influencidas pela sua própria amargura e, ao mesmo tempo, amor em relação a Mozart.

É notável como nos é feito desprezar e admirar ambas as figuras, ao ponto que não podemos deixar de sentir pena de qualquer uma delas. Criando tal efeito no espectador, temos o trabalho sem igual tanto de F. Murray Abraham quanto de Tom Hulce, os dois nomeados ao Oscar de melhor ator (e o primeiro levando o prêmio). Seja pela profundidade do personagem Antonio, oscilando entre a paixão e a ira, ou a caricata representação de Wolfgang e suas risadas obscenas, somos completamente presos a essa história, sempre torcendo para um desfecho que os una.

De fato, porém, vemos essa – primeiro sutil e após descarada – união de ambos os compositores através de sua única paixão, a música. E que melhor maneira de dar fim à vida de Mozart, que colocá-la como arma nas mãos de Salieri? Shaffer, insere neste ponto o às de seu roteiro, utilizando o Réquiem para ilustrar o definhamento do grande músico. E é a direção de Forman que consegue transmitir tão bem o crescente tom sombrio necessário, transformando sua caricatura em um verdadeiro retrato da morte que se aproxima. Aliado ao sem igual trabalho de maquiagem, não podemos deixar de esperar, ainda que com grande receio o término da vida de Amadeus.

Mas apenas o visual não conseguiria transmitir tão idealmente a intimidade que o longa-metragem se preza. Para tal, vemos o constante uso da música não só para contribuir, de forma não diegética, para o drama de cada cena, como para representar as emoções de cada personagem. De uma simples leitura de partitura, acompanhada pela melodia nela impressa, até as solenes notas de Lacrimosa, passamos da posição de mero espectador para elementos verdadeiramente inseridos na narrativa, como se fizéssemos parte da psiquê de cada indivíduo que vemos na tela.

As sinfonias, concertos e óperas que ouvimos de Mozart ainda contam com um forte papel na montagem, garantindo a harmonia em cada transição. Vemos as músicas sairem do papel e irem para as diversas montagens de inúmeras peças do músico, elevando às alturas o trabalho da produção, que não só consegue nos transportar de corpo e alma para a Viena do século XVIII, como nos dar um vislumbre e um “gosto de quero mais” de cada obra do famoso compositor.

Através de Amadeus, portanto, Peter Shaffer e Milos Forman conseguem não só colocar em tela essa grande homenagem à música clássica, como inserem em nós a inquietude necessária para buscar um maior conhecimento dela. Nesta íntima retratação religiosa, musical e romanceada, nos tornamos verdadeiros admiradores de Mozart. E para tal, temos o perfeito personagem para nos levar nessa jornada, Salieri.

Amadeus (idem – EUA, 1984)
Direção:
Milos Forman
Roteiro: Peter Shaffer (baseado em sua própria peça)
Elenco: F. Murray Abraham, Tom Hulce, Elizabeth Berridge, Roy Dotrice, Simon Callow, Christine Ebersole, Jeffrey Jones, Charles Kay, Kenny Baker, Lisbeth Bartlett
Duração: 160 min (versão de cinema), 180 min (versão do diretor)

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.