Crítica | Amaldiçoada

Amaldiçoada, tradução de Brimstone – que remete, em tradução livre, a algo como enxofre ou, literariamente, ao sofrimento do inferno – é um introvertido e denso western do diretor holandês Martin Koolhoven, que diz logo ao que veio ao colocar seu nome antes do título do filme logo na abertura do longa. Retratando, pode-se dizer, sua própria concepção do que seria o inferno, o diretor expõe um filme de linda fotografia, belas atuações e narrativa interessante, ainda que peque um pouco na pretensão metafórica que seu roteiro tenta contar.

Acompanhando a vida da parteira muda Liz (interpretada pela notável e delicada Dakota Fanning) e sua família nos Estados Unidos do século XIX, o longa conta como a protagonista é abalada pela chegada do novo reverendo na pequena cidade onde vive, interpretado pelo excelente Guy Pearce em papel incomum. Fundamentando seu suspense na descoberta paciente do passado das personagens, o filme de Koolhoven repousa, essencialmente, na estrutura narrativa criada por seu diretor/roteirista que desvela, com paciência e indo do presente ao passado, o verdadeiro enredo da película e os temas a serem trabalhados.

Aqui já vale uma observação: seria a jornada de Liz tão interessante e peculiar se fosse contada dentro de uma narrativa ordinária? Acredito que não. O final do primeiro capítulo – sim, o filme é dividido em três capítulos ao estilo Tarantino, batizados com nomes bíblicos que expõem, até excessivamente, a temática a ser trabalhada – serve praticamente como cliffhanger a ser finalizado no último arco, quando já temos todas as informações e nos afeiçoamos com as personagens em si. Optando por um desenvolvimento convencional, creio que Amaldiçoada perigaria cair na vala comum dos banais contos de sofrimento, coragem e sacrifício ainda na metade de sua duração, daqueles com flashbacks apelativos.

Felizmente, a escolha de Koolhoven foi acertada por manter no espectador um nível alto de interesse praticamente durante todo o filme, ainda que a duração se arraste um pouco ao final. Tal estrutura também de nada serviria se o diretor não mantivesse cada capítulo – que possuem temas, atores, objetivos e cenários totalmente distintos – em uma unidade forte e explícita. Equilibrando bem a peculiaridade de cada parte da vida de Liz contada dessa forma, o diretor consegue expor um todo destacando a particularidade de cada pedaço do filme.

Para tal admirável trabalho, o uso de diferentes fotografias, ora acinzentadas, ora avermelhadas, só se equipara à paciência no desenvolvimento das personagens. Seja no bordel, seja com os porcos, o roteirista consegue criar uma unidade poética sólida, com rimas e repetições capazes de mesclar cada pedaço da vida de sua protagonista gerando uma evolução constante na nossa percepção do que já foi visto. Uma expansão prudente que descansa, certamente, nos ombros do excelente elenco coadjuvante, que perpassa cada arco ditando o tom do filme.

O trabalho de roteiro, porém, não passa incólume. Ainda que Guy Pearce dê ao reverendo uma gravidade instantânea, facilitada pelo figurino escuro e pela câmera de Koolhoven que o transforma em uma espécie de mal encarnado e misterioso, o personagem em si sofre por um estereótipo de fanatismo que o tira, constantemente, de qualquer tridimensionalidade capaz de sustenta-lo como figura icônica. É verdade que o reverendo é atroz, desprezível e amedrontador, mas também é verdade que sua convicção psicopata e hipócrita não vai muito além disso, o que o transforma, em determinados momentos da película, em uma espécie de exterminador imparável.

Tal problema se estende, em certo sentido, à própria temática geral do filme. Sim, o filme trata do fanatismo religioso, da misoginia e da superação humana de forma cuidadosa, ainda que visceral – daquele tipo de virar o estômago, quase que literalmente. Decisão acertada, nesse sentido, foi a de contar a história da perspectiva da frágil Liz, algo visto poucas vezes em um western tão brutal como este. Mas o que parece ser uma grande metáfora bíblica no seu início recai, por excesso de pretensão, em uma belíssima jornada de heroísmo e coragem em face ao mal e ao sofrimento que permeiam a vida, seja no século XIX seja no XXI.

Não me entenda mal: as aporias que o filme coloca, a desesperança e a superação local – nunca redentora nem salvadora em sua totalidade – são pontos inflexivelmente admiráveis. O problema é que, ao pretender-se mais meditativo do que realmente é, o filme parece causar, ao seu final, uma impressão forte que dá ares de permanência pela densidade das situações e pela linda fotografia, mas acaba, ao passar dos dias, mostrando um roteiro mais nu e ordinário do que se poderia imaginar lá pela metade da obra.

Como um violento conto sobre coragem, Amaldiçoada merece ser visto e apreciado. É fato que as vísceras que o filme expõe não acabam simbolizando tanto quanto poderiam, tal como o flerte com a temática bíblica, que acaba deixando a desejar – penso em A Bruxa como algo semelhante e melhor executado, ainda que de um gênero totalmente distinto. De qualquer forma, para além das críticas que amam reduzir filmes ao contexto cultural, afirmo com um sorriso no rosto que Amaldiçoada escancara, como poucos, o suor, as lágrimas e o sangue que uma vida infernal – desculpe o pleonasmo – requer para durar, seja na época ou no lugar que for. O rosto de Dakota Fanning, atingindo uma espécie de paz trágica ao se resignar com a aspereza da jornada de Liz, certamente é um ponto inesquecível deste cruel e corajoso western.

Amaldiçoada (Brimstone— Holanda, 2017)
Direção: 
Martin Koolhoven
Roteiro: Martin Koolhoven
Elenco: Dakota Fanning, Guy Pearce, Kit Harignton, Carice van Hauten, Emilia Jones, Jack Roth, Jack Hollington, Paul Anderson, Carla Juri, Vera Vital, William Houston, Bill Tangradi.
Duração: 148 min.

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.