Crítica | Amanhecer – Parte I

Bill Condon parece ter sido chamado para comandar Amanhecer – Parte I (penúltima parte da chamada Saga Crepúsculo) apenas para contradizer aquilo que o diretor havia exibido no inicio de sua carreira. Sim, pois entregar-se ao conservadorismo das obras de Stephenie Meyer significa contradizer toda a discussão/quebra de tabus proposta pelo polêmico Kinsey – Vamos Falar de Sexo, uma vez que tanto os livros quando os filmes da saga são de um puritanismo que beira o insuportável.

Entretanto, houve uma surpresa em relação a este fator. Ou talvez não exatamente uma surpresa, já que o livro Amanhecer representa uma quebra no ritmo que a narrativa de Meyer havia sido construída até então: finalmente há sexo e sangue. Some isto ao fato de que Amanhecer é, sem sombra de dúvidas, uma obra absolutamente nonsense mesmo dentro do contexto da saga. Parece que a escritora parou e decidiu: “Agora sim eu vou fazer algo acontecer”. E fez, mas sem deixar de lado aquilo que vinha pregando desde então, a inferioridade da figura feminina perante o macho. E quem viu os filmes sabe que não estou mentindo.

Mesmo com todas estas limitações, algo mais razoável poderia ter saído da adaptação de Amanhecer se não fosse a mal fadada opção do estúdio em dividir a obra literária em duas partes, numa clara tentativa de arrancar o máximo de lucro antes do desfecho da saga. Funcionou com Harry Potter pelo fato de que a obra de J.K. Rowling possuía muito mais riqueza em seu material e muito mais detalhes para serem explorados, algo que o livro de Meyer não possui. E se a direção de Condon ousa e faz o possível para distanciar-se da “limpeza” dos anteriores, é o roteiro de Melissa Rosenberg que (mais uma vez) dificulta a extração de algo decente da trama, já que sua proximidade com o espírito do livro chega a ser absurda de tão covarde.

Amanhecer – Parte I centra-se em dois acontecimentos que há muito eram esperados pelos fãs: o casamento de Bella (Kristen Stewart) e Edward (Robert Pattinson) e a consequente gravidez da garota pelo vampiro. Inaceitável? Talvez não aqui, já que a saga sempre se estabeleceu como uma contradição à conhecida mitologia vampiresca, criando um universo próprio onde os sanguessugas brilha no sol, bebem sangue de animais e se apaixonam. E agora, também podem gerar a fecundação.

Fora isso, o filme não possui absolutamente mais nada para contar, restado para a roteirista Rosenberg esticar e inflar a trama de tal forma que as duas horas de projeção pareçam ser três. Todo o primeiro ato, onde os dois jovens se casam e (finalmente!) transam é absolutamente piegas e involuntariamente cômica (e quando quer ser engraçada, não dá certo), com o casal fazendo novas juras de amor que, no fim das contas, estão ali apenas para arrancar suspiros das fãs, já que em nada contribuem para o andamento da história. Condon até tenta imprimir alguma sensibilidade na sequência que exibe a “desvirginização” do casal, porém mais uma vez é sabotado pelo das situações construídas por Meyer, exagero esse que os produtores parecem decididos em manter.

Depois que o casal descobre sobre a súbita gravidez da garota (e a “expressão” de surpresa de Pattinson neste momento é impagável), a narrativa ganha fôlego e consegue gerar algum interesse, mas que logo se esvai quando percebemos que, novamente, tudo parece estar conspirando para subestimar a paciência do espectador. Obviamente que as fãs pouco se importam, mas como aceitar que os personagens busquem respostas para o inesperado acontecido através de buscas no Google? E isso até nos faz lembrar de que Bella descobriu a verdade sobre seu amado através de uma rápida pesquisa na web lá no primeiro filme, mostrando que as coisas não mudaram tanto quanto pensávamos.

Apesar da falta de consistência do material, Amanhecer – Parte I possui seus acertos, especialmente no que se refere ao acabamento técnico da produção. Não que seja algo exemplar, mas é a primeira vez que a série consegue convencer com seus efeitos especiais que, tardiamente, assume uma qualidade, no mínimo, engolível. O processo para o emagrecimento de Bella é algo para se destacar, uma vez que abraça a pegada mais trash, auxiliado ainda por um trabalho de maquiagem eficiente. A fotografia de Guillermo Navarro acerta ao apostar em um jogo de iluminações mais leve, mas que ainda mantém o tom sombrio que marcou o antecessor Eclipse. E a trilha de Carter Burwell pouco remete as tenebrosas composições do primeiro filme, trabalhando em cima de melodias agradáveis aos ouvidos e que se avolumam nos momentos certos.

Kristen Stewart segue bem como a menina humana dotada de severas tendências suicidas, transmitindo com eficácia a vulnerabilidade de Bella diante da situação. Já Pattinson ainda segue o mesmo estilo: expressões frias e dicção pausada, e se pensarmos bem, a composição do ator se assemelha bastante a descrição do personagem nos livros. Ou talvez ele seja mau ator mesmo. Nem o carismático Taylor Lautner consegue chamar alguma atenção para si desta vez, já que o roteiro pouco lhe oferece com o que trabalhar (e ele só tira a camisa uma vez durante o filme todo!). Assim sendo, resta para Billy Burke a tarefa de conseguir arrancar alguma emoção do espectador diante do fato de que não terá mais sua filha ao seu lado. E o discurso do personagem durante a recepção do casamento é hilária, prova de que o ator soube como equilibrar sua veia cômica com a dramática.

Com um desfecho previsível, mas que até certo ponto consegue empolgar, Amanhecer – Parte I finalmente é o primeiro da saga a apresentar sexo e sangue de verdade, por mais que não seja de nenhum vampiro cravando suas mandíbulas no pescoço de alguma presa. Porém, fica a sensação de mais uma adaptação vazia e oca, sem muito objetivo e que não justifica o sucesso em torno de si. O capítulo final da saga chega aos cinemas neste final desta semana, e não custa dizer desde então: já vai tarde.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.