Crítica | Amanhecer – Parte II

Se há algo que não pode ser dito sobre a Saga Crepúsculo é de que é uma produção malsucedida. Se os filmes são ruins? São, mas isso é a menor das preocupações, uma vez que todos os quatro filmes anteriores foram absolutos sucessos de bilheteria, quebrando recorde deixando ainda mais estufado o bolso dos envolvidos. E com esta segunda e última parte de uma história de amor envolvendo humanos, vampiros e lobisomens, nada promete ser diferente.

Assim como J.K. Rowling, autora da série Harry Potter, a escritora Stephenie Meyer merece créditos por conseguir despertar novamente o gosto da leitura para aqueles que ignoravam o poder de uma boa leitura, assim como para quem jamais havia posto os olhos em um livro. Mas fica apenas nisso, já que no fundo, toda a construção de personagens, tramas e narrativas da autora se mostraram meras encheções de linguiça para vender uma história de amor açucarada, exageradamente piegas e pegajosa, além de desvirtuar completamente a longa mitologia vampiresca construída na base de séculos, despertando o ódio dos admiradores das lendas milenares sobre os sugadores de sangue.

Mas a idéia deu certo, e Amanhecer – Parte 2 está aí para mostrar que a série atingiu seus objetivos, ao menos entre as fãs. O trio principal formado por Kristen Stewart, Robert Pattinson e Taylor Lauter sempre foram mostrados como figuras maiores e mais importantes do que os próprios, que impressionavam (e não no bom sentido da palavra) pelo desleixo com que eram realizados, exibindo uma precariedade técnica que seria considerada inadmissível mesmo na época do cinema mudo. Além disso, a condução dos filmes sempre sofreu bastante com a falta de acontecimentos que pudessem fisgar o público mais exigente, que conseguisse despertar a atenção para os conflitos e perigos que aqueles personagens, tão vazios quanto um pires, enfrentavam.

Eclipse até trouxe a promessa de trazer alguma densidade para uma saga inicialmente condenada ao esquecimento, mas daí veio a decisão de dividir o último livro em duas partes, e com isso o pessimismo novamente se instaurou. Apesar da leve ousadia em finalmente introduzir sexo e sangue numa franquia que também incomodava pelo puritanismo, a primeira parte de Amanhecer representou um retrocesso para a franquia, mais uma vez deixando aquela certeza de que a saga se encerraria sem um capítulo que fizesse jus à sua popularidade entre os jovens.

E de certa forma, foi o que aconteceu. Partindo do exato momento em que a primeira parte terminou, Amanhecer – Parte 2 comprova que toda a saga poderia ter sido resumida em apenas um único e bom filme. Afinal, pra quê foi toda aquela lenga-lenga entre Bella, Edward e Jacob quando aqui tudo toma rumos diferentes? Pra quê foi toda aquela relutância do vampiro assexuado em transformar a menina com tendências suicidas quando a mesma parece se sentir muito melhor quando assume suas condições de vampira? Detalhes sobre a história são irrelevantes, uma vez que está também pode ser resumida em duas linhas e meia.

A equipe é a mesma, assim como o resultado já esperado. Por mais da metade da projeção, Amanhecer – Parte 2 é uma sucessão de diálogos intermináveis, coadjuvantes dispensáveis e estereotipados (o que são aquelas Amazonas?!), declarações de amor infinitas e um tremendo exagero na exposição de subtramas e detalhes que em nada enriquecem a narrativa, pelo contrário, apenas a tornam mais problemática.

E mesmo o mais míope dos espectadores pode atestar a pobreza extrema do departamento técnico da produção, novamente retrocedendo em termos de acabamento. Como não se incomodar com aquela faceta digital do bebê de Bella? Como não reclamar da direção de arte brega (fica claro que eles não sabem nem fazer uma neve artificial decente), da fotografia feia ou da trilha sonora de Carter Burwell que abusa da repetição de certas melodias? Até aquele momento, o filme era apenas uma repetição de tudo o que havia sido visto anteriormente, até que chegamos aos minutos derradeiros da película

Atenção: o parágrafo seguinte apresenta spoilers, portanto é recomendado somente para aqueles que já assistiram ao filme.

Como bons cinéfilos, sabemos que pequenos detalhes podem fazer a diferença, mesmo entre as produções mais desprezíveis, e é este o caso de Amanhecer – Parte 2. Desde o péssimo Lua Nova que a saga promete algum conflito entre os Cullen e os Volturi, vampiros da realeza responsáveis por manter em segredo a existência das sanguessugas. E aqui ele finalmente ocorre, tomando proporções surpreendentemente grandiosas. E nem digo isto pela intensidade da ação final (que deve-se dizer, empolga), e sim pela liberdade que a roteirista Melissa Rosenberg toma para si, não alterando o desfecho como foi divulgado, mas amplificando-o para, numa reviravolta interna inesperada, mostrar tudo aqui como uma grande enganação. Se a sequência surpreende pela “morte” de personagens importantes, a roteirista se supera ao revelar que tudo aquilo não passava de uma das visões de Alice compartilhada com o líder dos Volturi, Aro (Michael Sheen). Óbvio que a tática não é das mais originais e já fora vista em outras ocasiões no cinema, mas havia como esperar isto de uma saga como esta, tão presa as suas origens literárias? Apesar da inevitável decepção, impossível não reverenciar a ousadia em brincar com a ousadia e a suposta previsibilidade da trama para, em seguida, subverte-la. Um golpe genial, sem dúvidas.

De fato, o longa parece melhorar consideravelmente em seus minutos finais. Além das sacadas citadas acima, há um belo tom de sensibilidade no retrospecto que Condon faz dos filmes anteriores, despertando um curioso sentimento de nostalgia mesmo naqueles que pouco simpatizam com a saga. Ao mesmo tempo, fica o lamento de que o filme desperte de seu marasmo apenas em seu final, quando tudo já está no fim.

Ao final, o que fica é a indiferença para alguns, o sentimento de tristeza para outros. Pouca coisa mudou neste final, e nem mesmo o desperdiço de atores como Dakota Fanning e Billy Burke foi suavizado (apenas Michael Sheen parece se divertir). As reações são diversas, e o que importa é o quanto a saga significou para os que a acompanharam. E para este que vos escreve, eu novamente repito: já vai tarde.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.