Crítica | Amante a Domicílio

estrelas 5

A tela do cinema se enche de jazz, cenas urbanas do Brooklin tomam conta da abertura com uma fotografia antiga com um tom mais ocre, o que arranca uma sensação de nostalgia. O filme todo tem uma aura cativada nos filmes feitos antes da câmera digital ter tomado a cena, um aspecto que percorre o roteiro. A história de um gigolô fora dos “padrões comerciais” agenciado por um cafetão judeu, ex-dono de uma livraria de livros raros que acaba de ser fechada por conta do contexto econômico.

Dirigido por John Turturro e estrelado por Turturro ao lado de Woody Allen, ambos rodeados por nomes como Vanessa Paradis, Sharon Stone e Liev Schreiber, o filme consegue abarcar diferentes nuances a respeito do envolvimento humano. Assim como traçar uma perspectiva palatável e humorística sobre um assunto que geralmente é abordado em meio a um contexto tenso ou obscuro. A história toda tem uma premissa tão absurda que fica difícil não supor que alguns fatos realmente sejam passíveis de ocorrer, algo que entrega ao roteiro alguma credibilidade.

Nesse sentido, os diálogos de Allen são caracterizados pelo oportunismo e um carisma cafajeste nada estranho ao diretor, que se resume a uma atuação cômica e simpática como Murray Schwartz, o cafetão Bongo. Sobra para Turturro a parte mais emocional do roteiro. A personagem dele, Fioravante, segue um estilo mais discreto, um conquistador maduro e tímido, que fala pouco e entrega o pedido à domicílio. A atuação do também diretor do filme é muito bem balanceada, tanto nos momentos que exigem mais descontração quanto naqueles que pedem uma delicadeza maior no trato.

A profissão mais antiga do mundo é retratada aqui de maneira leve e cômica, ao mesmo tempo que atinge uma profundidade emocional ao se entrelaçar com a história envolvente e emotiva da viúva judia, Avigal, interpretada por Vanessa Paradis, que convive com a solidão reprimida. Basta um contato e o ato de intimidade profunda se consolida. Essa leitura sobre a relação humana é muito bem abordada. Existe poesia em várias cenas entre a personagem da viúva e do gigolô.

Existem alguns alívios cômicos pontuais no roteiro. Isso serve para equilibrar a narrativa em momentos em que atinge uma intensidade mais elevada seja em um sentido sexual ou dramático. Sendo um filme que lida com uma temática social vale o apontamento de que é interessante notar que a fita escolhe não fazer uso de cenas mais picantes, embora seja enunciado um mènage à trois a todo momento do filme.

Em vez disso, o espectador ganha apenas a possibilidade de imaginar o que acontece entre os lençois desse homem que encorpora as qualidades do padrão de verdade, como se diz no filme, um homem que não é bonito demais. E principalmente, que entende quais são as necessidades de cada uma de suas clientes.

A referência à cena icônica de A Primeira Noite de um Homem (1967) pode muito bem remeter a visão de um homem intimidado, uma vítima da situação econômica que o fez optar por ser gigolô, e justamente essa imagem passiva que diretor quer desconstruir. Ele consegue isso a partir do contraste com a cena seguinte quando conduz a mulher na dança, demonstrando assim que está no controle da situação. Ele aproveita cada momento que tem com aquelas mulheres, que são as clientes dele, tanto quanto elas.

Essa é uma comédia feita sob medida para ter um personagem Woodyalinístico, que agrada a diferentes públicos com as sacadas maliciosas. Além disso, os papéis femininos são estruturados de uma maneira capaz de captar muito bem a complexidade das escolhas e obrigações da mulher na sociedade atual, mesmo aquela inserida em um contexto particular da religião judaica. E em momento algum o filme tem pretensão de fazer juízo sobre os atos dos personagens. Um filme para quem gosta de histórias que ganham vida na tela e fora dela alcançam uma dimensão de diálogo social.

Amantes a Domicílio (Fading Gigolo) – EUA, 2013
Diretor: John Turturro
Elenco: John Turturro, Woody Allen, Vanessa Paradis, Sharon Stone Liev Schreiber e Sofia Vergara
Duração: 90 min.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.