Crítica | Amante Por Um Dia

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Em uma medida puramente temática, nos termos de relacionamentos e as constantes consequências aí envolvidas, cada um utilizando recursos e gêneros mais propícios à sua própria cinematografia e estilo, há uma enorme similaridade do cinema de Philippe Garrel com o cinema de dois diretores em países bem distantes da França e que também se especializaram em mostrar as dores e os círculos tortuosos e viciosos do amor, em crônicas de relacionamentos que parecem “não dar em nada”: Woody Allen, nos Estados Unidos e Hong Sang-Soo na Coreia do Sul. Donos de um cinema todo particular quando se trata de abandono, amor, vida e questões morais, éticas, políticas e filosóficas do que é estar vivo, esses três diretores criaram um Universo de personagens perturbados pelos seus sentimentos, com quem o espectador compartilha dores, ódios e paixões enquanto vê “um período na vida” desses indivíduos se desenrolar na tela.

Em Amante Por Um Dia, Garrel dirige a filha Esther (vinda de Me Chame Pelo Seu Nome) em um drama simples, à primeira vista, mas que se complica à medida que as ações e os desejos dos personagens vão mudando. Após ser convidada a sair de casa, depois do fim do noivado com Matéo (Paul Toucang), Jeanne (Esther Garrel) procura abrigo na casa do pai Gilles (Éric Caravaca), que namora uma garota da mesma idade que Jeanne, a bela Ariane (Louise Chevillotte). É em torno de dois tipos de amores envolvendo esses indivíduos (o amor paternal e o amor propriamente dito) que as intrigas vão se erguer em Amante Por Um Dia. Como quase tudo que Garrel dirigiu e como na aproximação que fiz no início da crítica com diretores que possuem um trabalho muito similar ao dele, o filme tem um elemento conceitual já esperado, diante do qual o espectador sabe quase tudo o que vai encontrar, a começar pela fotografia em preto e branco, aqui, a cargo de Renato Berta.

Mesmo já tendo dirigido alguns filmes em cores em sua carreira (o último em 2011, o vergonhoso Um Verão Escaldante), o preto e branco se fixou como marca visual de Garrel, assim como a sua constante investigação de personagens no limite de suas emoções ou capacidades. O curioso é que em obras como Amante Por Um Dia, tudo parece normal demais para poder gerar algum tipo de grande conflito. Pessoas se conhecem, fazem sexo casual, entram em um relacionamento breve e se separam, não há absolutamente nada de extraordinário nisso. Mas para Garrel, há sim. Seu interesse não é apenas pelos comportamentos mais extremados — de pessoas que não aceitam o fim de um relacionamento de jeito nenhum –, mas também pelo que as pessoas guardam para si, pelos acordos entre quatro paredes, pelas confissões, pelos segredos. Neste filme, observamos o quanto os personagens entram e saem dessas caixas emocionais e o quanto demonstram ou seguram esses sentimentos, todos eles deixando escapar algo em algum lugar da fita.

A narração utilizada aqui é que foge à proposta. Bastante apegado ao cinema dos anos 60, Garrel não se furta em trabalhar com recursos visuais e narrativos da já distante Nova Onda do cinema de seu país. Às vezes, a escolha se enquadra bem à obra, mas às vezes, como é o presente caso, parece um encaixe completamente aleatório, acabando por trazer consequências ainda mais graves para a montagem, influenciando negativamente o ritmo do filme, cujas passagens indicando a mudança de dia nem sempre são aceitáveis. Mesmo que o público compre a ideia central do enredo (o que não é difícil, dada a essência do que se vê na tela), acompanhar o andamento da fita é um exercício constantemente quebrado por alguma escolha do diretor que nos parece alheia ao seu espaço ou momento, e aqui podemos destacar os pontos máximos onde isso acontece: a cena da tentativa de suicídio, as passagens em fade out e a narração à la Nouvelle Vague.

Amante Por Um Dia é um filme íntimo, com um erotismo não tão envolvente e um cotidiano claustrofóbico. Vemos uma boa direção nos espaços internos e uma boa presença do elenco inteiro, especialmente de Esther Garrel, que passa por uma interessante transformação de comportamento ao longo da obra. O texto fala de superação de um amor perdido e do encontro do amor-próprio, o mais difícil dos amores. Mesmo com problemas de ritmo e organização narrativa, trata-se de um genuíno e interessante Garrel, como sempre, mostrando que há muito mais por trás dos sentimentos ou ideais de amor e relacionamento do que as pessoas normalmente costumam admitir.

Amante por um Dia (L’amant d’un jour) — França, 2017
Direção: Philippe Garrel
Roteiro: Jean-Claude Carrière, Caroline Deruas-Garrel, Philippe Garrel, Arlette Langmann
Elenco: Éric Caravaca, Esther Garrel, Louise Chevillotte, Paul Toucang, Félix Kysyl, Michel Charrel, Nicolas Bridet, Marie Sergeant, Raphaël Naasz, Justine Bachelet
Duração: 76 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.