Crítica | A Menina que Roubava Livros

estrelas 4Cinema e literatura são, de fato, duas formas extremamente distintas de contar uma história. Mas há muito tempo que estas duas formas de linguagem tem se encontrado com o passar dos anos, uma vez que com a escassez de ideias em Hollywood, diversas obras literárias tem sido levadas para as telas, algumas com grande êxito, outras nem tanto. E este ano, é a vez da adaptação de A Menina Que Roubava Livros, de Markus Zusak.

Antes de tecer mais algum comentário sobre o filme, que fique claro que este que vos escreve ainda não leu a obra de Zusak (embora vontade não falte), o que permite que esta análise seja restringida somente a obra cinematográfica, sem comparações pessoais com o material original.

Porém mesmo a necessidade de comparações (algo sempre inevitável), ao assistir A Menina Que Roubava Livros, fica claro que muita coisa parece ter se perdido na transposição para as telas. Há diversos detalhes abordados superficialmente, e que talvez na obra original tenha recebido um tratamento mais rico (no meu caso, difícil dizer se é verdade), o que deixa a impressão de que faltou ambição na realização comandada pelo estreante nas telonas, Brian Percival (que trabalhou no seriado de época Dowton Abbey). Mas apesar de não ir muito além de seu terreno seguro, A Menina Que Roubava Livros ainda é uma adaptação decente dentro do que lhe cabe ser, correta o suficiente para que a obra alcance seus principais objetivos: emocionar e divertir o público.

Ambientado na época do nazismo, somos apresentados à garota Liesel (Sophie Nélisse, muito bem), que é enviada para o subúrbio de uma cidade alemã, uma vez que sua mãe, uma comunista, é perseguida pelo regime alemão. No meio do caminho, o irmão de Liesel acaba morrendo, e a garota acaba tendo que conviver sozinha com o casal Rosa (Emily Watson, vivaz como não se via há muito tempo), uma mulher carrancuda e autoritária, e Hans (Geoffrey Rush, sempre com boa presença em cena), um senhor gentil e carinhoso para com Liesel.

Ao longo de sua jornada, diversas figuras são apresentadas à Lisa: Rudy (Nico Liersch), um garoto que logo se torna o melhor amigo de Liesel; Max (Ben Schnetzer), um judeu fugitivo que encontra abrigo na casa de Rosa e Hans; e Ilsa (Barbara Auer), a esposa do prefeito, que ajuda Liesel a adentrar ainda mais no universo da leitura.

Narrado de forma inconstante pela própria Morte (um elemento, por si só, chocante), uma presença sempre onipresente na narrativa, A Menina Que Roubava Livros talvez tenha seu principal trunfo em sua construção simplista e direta da jornada de Liesel, sem grandes arroubos por parte do diretor Brian Percival, o que permite que o público se conecte de forma extremamente natural com a história. Não há grande complexidade no roteiro escrito por Michael Petroni, apenas uma abordagem direta sobre o tema em questão e a jornada de Liesel, o que é um ponto a favor, embora isto também traga certa frieza para a narrativa.

Mas o roteiro trabalha bem com muitos de seus elementos, especialmente na interação de Liesel com as figuras que conhece através da projeção, assim como uma bela composição da inocência de Liesel e de sua vontade em descobrir outros universos que a transportem para além daquela realidade difícil.

O filme deixa boa parte de seu impacto emocional para o desfecho, o que já era algo esperado. Mas fica claro de que, mais importante que a conclusão (emocionante para os mais emotivos, diga-se), é o caminho trilhado para chegar até ela. A obra consegue exemplificar bem isso, sem muita artificialidade (embora esta ainda se faça presente, como os soldados alemães falando em inglês com sotaque alemão), mas com uma boa dose de sinceridade. Pelo fato de termos uma criança como protagonista, Percival nos traz uma visão mais limpa e comportada sobre o tema, o que certamente trará desagrado para alguns, mas que funciona muito bem nesta transposição para as telas.

Tecnicamente, a obra é um deleite para os olhos. Cenários, figurinos e fotografia conferem uma beleza invejável para a obra, numa espécie de contraponto ao próprio clima da história, que como já dito, é um tanto mascarado pela precisa visão de Percival. Mesmo a trilha sonora de John Williams, um exímio manipulador de emoções com suas composições, se mostra contida, permitido assim que a emoção flua naturalmente da tela (dependendo do nível de vulnerabilidade emocional do espectador).

A Menina Que Roubava Livros certamente desagradará a muitos espectadores, não apenas pela abordagem um tanto crua e direta de Brian Percival, mas também pela aparente descaracterização que a obra de Zusak sofreu nas telas. Mas é aquela história: nem tudo o que funciona nas páginas dos livros pode funcionar nas telas de cinema. E no caso de A Menina Que Roubava Livros, muitos destes elementos funcionam de forma orgânica para que o filme se torne uma experiência digna de ser vista, jamais marcante, mas certamente à altura do que se propunha.

A Menina que Roubava Livros (The Book Thief, Alemanha/EUA, 2013)
Roteiro: Michael Petroni, baseado em livro de Markus Zusak
Direção: Brian Percival
Elenco: Geoffrey Rush, Emily Watson, Sophie Nélisse, Roger Allam
Duração: 131 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.