Crítica | American Gods – 1X01: The Bone Orchard

estrelas 4,5

Considerações iniciais

Antes de mais nada, gostaria de tirar algo do caminho: eu não li o livro Deuses Americanos e não por falta de vontade, mas é que a intenção, aqui, é fazer uma análise que dispense comparações e que não seja influenciada por futuros acontecimentos já descritos nas páginas originais. Quem originalmente ficaria com a crítica da série seria nosso editor, Ritter Fan, mas ele preferiu passá-la para mim justamente por essa questão. Essa análise, portanto, é sobre o primeiro episódio da série levando apenas ele em consideração (com pinceladas sobre o que conheço do restante do trabalho fantástico, nos dois sentidos, de Gaiman, claro).

Dito isso, se você leu o livro, peço que, por mim e pelos outros espectadores que não leram, não entregue nenhum spoiler nos comentários. O espaço para se discutir possíveis comparações ou detalhes do livro pode ser encontrado em nossa crítica da obra de Neil Gaiman, bem aqui. É importante ressaltar, também, que a crítica contém spoilers do episódio, portanto só prossiga se você não liga para isso ou se já assistiu o capítulo.

The Bone Orchard

Bryan Fuller iniciou sua carreira na televisão com Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine, lá em 1997 e se destacou, pela primeira vez, como showrunner de Pushing Daisies, tendo sido, inclusive, nomeado ao Emmy por esse seu trabalho. Foi somente com Hannibal, contudo, que o realizador encontrou a linguagem que tão perfeitamente o representa em uma mistura de sadismo com elegância, um drama visceral, violento que deu nova vida ao canibal mais famoso da ficção. Quando descobri que American Gods, adaptação televisiva do best-seller de Neil Gaiman, naturalmente, a ansiedade veio a mil e, mesmo tendo Michael Green ao seu lado no comando do seriado, não há como não enxergar o dedo de Fuller na construção de The Bone Orchard.

O capítulo tem início nos mostrando a chegada dos vikings na América, sequência que já define o grau de violência que encontraremos na série. Não estamos falando, porém, de algo cru, que preza o realismo e sim o característico uso do sangue que já presenciáramos em Hannibal. O fluido vermelho, aqui, tem uma razão de estar presente em tela, é como um pintor que pincela o vermelho sobre sua tela, criando o perfeito contraste com as outras cores mais apagadas. A violência não é um mero artifício narrativo, é um personagem, que dança em tela, definindo a resolução desses guerreiros que desembarcaram no Novo Mundo, ainda não “descoberto”.

Narrada essa empreitada, já colocando os deuses antigos na mente do espectador, com Odin sendo claramente mencionado, pulamos para os tempos modernos, uma prisão sob o mesmo céu nublado, que, desde já, anuncia a chegada da tempestade. Conhecemos Shadow Moon (Ricky Whittle), prisioneiro que está prestes a ser solto e que, acima de tudo, almeja se encontrar novamente com sua esposa, Laura (Emily Browning). Ele, contudo, sente que há algo errado, como se a própria morte pairasse sobre ele e, de fato, ele o encontra, mas não da maneira a qual esperava: no dia seguinte ele recebe a notícia de que sua esposa morrera em um acidente de carro e, por isso, é liberado mais cedo do cárcere. No caminho de volta para casa, ele conhece Mr. Wednesday (Ian McShane), uma misteriosa figura que conhece mais dele do que deveria e que, subitamente, o oferece um emprego. Mal sabia Shadow que sua vida entraria em uma espiral de loucura a partir de então.

Shadow claramente funciona como nossa porta de entrada nesse universo, a pessoa que ainda desconhece esses novos elementos a serem apresentados, que precisa entender com o que se trata. É o típico protagonista do mundo de fantasia com um pé na realidade, servindo para que o texto, pouco a pouco, nos mergulhe nessa narrativa fantasiosa, inserindo os elementos “mágicos” gradualmente, de forma que o espectador não fique perdido. Em uma era de narrativas paralelas, de séries com inúmeros personagens com arcos dramáticos próprios, é gratificante e até relaxante assistir uma obra cujo foco permanece em um indivíduo apenas.

O roteiro de Fuller e Green ainda brinca com essa questão, criando uma narrativa quase onírica, nos levando de um ponto a outro sem, necessariamente, nos mostrar o caminho percorrido. Os pesadelos de Moon se misturam com seu dia-a-dia, os aproximando, como se ele próprio agisse enquanto dorme. Não sabemos até que ponto esses interlúdios são visões ou sua forma de lidar com os choques pelos quais passou recentemente com a perda de sua esposa. E se há algo que Fuller sabe fazer é construir essas sequências oníricas, que funcionam como um estudo do psicológico de seu protagonista.

A montagem de Art Jones e Ron Rosen dialoga com esse caráter do texto ao utilizar o constante fade to black, denotando a passagem de tempo e o simples ato de adormecer, como se a própria realidade se dissolvesse na escuridão. Ao mesmo tempo, essa escolha retrata perfeitamente o caminho do personagem principal, que, aos poucos, é engolfado por algo muito maior que ele, visto que Wednesday e o trabalho oferecido por ele, claramente são bem mais que o típico emprego que ele esperaria. Aliás, por ser cego de um olho e saber quase tudo sobre a vida de Shadow e ter mencionado mais de uma vez a questão do culto, não seria um chuto muito grande se afirmássemos que esse é o próprio Odin, que já aparecera nos diálogos da sequência inicial.

O culto também aparece no único trecho que soa deslocado do resto do episódio, no qual Bilquis (Yetide Badaki) “engole”um adorador. Evidente que a presença dessa figura comum ao cristianismo, judaísmo, islamismo e cultura etíope se encaixa na proposta da série, mas, em razão do foco em Shadow, não há como não enxergar esse como um ponto fora da reta. O que ajuda esse encaixe um tanto quanto forçado é justamente a já falada edição, que, através dos fades permite inserções não tão óbvias.

Além disso, temos a fantástica direção de arte de Rory Cheyne, que trabalhara na segunda e terceira temporada de Hannibal, algo que podemos identificar somente de olhar o trabalho em ambas as séries. Cheyne usa o vermelho a fim de denotar a iminência da violência e torna essa um grande choque ao preencher o restante do cenário com tons mais apagados. Como dito antes, o sangue é como um personagem e enxergamos isso com clareza tanto na sequência inicial quanto na final, que funciona quase como um rito de iniciação, marcando, de fato, o mergulho do protagonista nesse universo.

Dito isso, as roupas utilizadas pelos personagens dizem tanto quanto suas personalidades em si. Wednesday, em tons de bege é a figura que se apaga na multidão, representando o esquecimento de sua persona como deus (se estivermos certos na suposição). Contrastando com as aparências, porém, Ian McShane consegue roubas toda a atenção, definindo, desde já, que a intenção de seu personagem é se tornar relevante mais uma vez. Já o protagonista, com o básico terno preto e branco, reflete a sua simplicidade, curiosamente nos lembrando da figura de um pastor, ainda que ele seja ausente de fé naquilo que não pode ver, é a fé cristã que domina o Novo Mundo. Bilquis, em forte vermelho já simboliza o desejo, a paixão ardente. Por fim, a figura misteriosa no fim, já aparece com um visual mais moderno, chamando mais atenção, inclusive, com seu corte de cabelo, bem representando a força de sua entidade no mundo atual.

É seguro dizer, portanto, que The Bone Orchard é uma experiência sensorial, que nos mergulha nesse universo de fantasia com o pé na realidade. Ainda que conte com uma sequência específica que soa deslocada do restante do episódio, não podemos deixar de apreciar esse première da nova série da Starz, que demonstra, desde já, o poder da narrativa de Bryan Fuller e Michael Green, que compõem sua arte através de uma narrativa quase onírica, brincando com as expectativas do espectador, o tirando, de imediato, da zona de conforto. American Gods promete e, pelo jeito, será uma jornada verdadeiramente louca.

American Gods 1×01: The Bone Orchard — EUA, 30 de abril de 2017
Showrunner:
Bryan Fuller, Michael Green
Direção: David Slade
Roteiro: Bryan Fuller, Michael Green
Elenco: Ricky Whittle, Emily Browning, Crispin Glover, Bruce Langley, Yetide Badaki,  Pablo Schreiber, Ian McShane, Jonathan Tucker, Demore Barnes,  Betty Gilpin
Duração: 60 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.