Crítica | American Gods – 1X02: The Secret of Spoon

estrelas 4,5
Contém spoilers do episódio. Por favor, evite entregar detalhes do livro nos comentários.

O primeiro episódio de American GodsThe Bone Orchard, serviu para nos colar à beira desse universo no qual a realidade e diferentes mitologias e religiões se misturam e, nele, pudemos apenas contemplar um pouco da profundidade das águas nas quais Shadow Moon mergulharia. Desde já, porém, Bryan Fuller e Michael Green despejaram toda sua arte visual, que, através de sequências oníricas, pintam sobre a tela cores vibrantes, que, por sua vez, contrastam com a decadência de alguns personagens trabalhados pelo roteiro. The Secret of Spoon nos tira das margens desse profundo lago e nos joga de cabeça nele, a tal ponto que a introdução se transforma em desenvolvimento.

Assim como no capítulo anterior, esse segundo tem início com uma sequência à parte dos eventos centrais da temporada. Vemos um navio negreiro sob o ponto de vista dos escravos sendo levados para a América. Ali encontramos um indivíduo específico, que reza para Anansi, uma divindade da cultura africana, conhecida por tomar a forma de uma aranha. O escravo, desesperançoso, pede por ajuda e a recebe, com o próprio Anansi aparecendo um terno claramente a frente de seu tempo, que revela o futuro dos negros nesse “novo mundo”. Trata-se de um trecho com evidente crítica social, mas que, também, nos entrega alguns importantes detalhes sobre a mitologia da série.

Descobrimos que, ao menos esse deus, não está preso a um tempo em específico, podendo transitar entre futuro e presente ou enxergar os eventos futuros. Claro que dizer que todos podem fazer isso seria mera indução, mas é uma distinta possibilidade, o que aumenta a necessidade dessas figuras divinas de serem contempladas em todas as épocas, não apenas em seu estado atual. Do ponto de vista técnico, isso se faz uma realidade ainda maior, já que essas introduções, embora divididas do restante da série, se encaixam quase que naturalmente à trajetória de Shadow.

Dito isso, partimos imediatamente para o protagonista e é dada a largada do roadtrip de Mr. Wednesday e Shadow, após este se despedir de sua falecida esposa e casa. O texto de Fuller e Green, desde já, demonstra que ambos não estão aqui para perderem tempo, com o primeiro destino dessa jornada sendo atingido já nesse capítulo. A sequência de Bilquis, novamente colocada no meio do episódio, é melhor encaixada aqui, visto que funciona como elipse, para adiantar a viagem dos dois personagens. Há ainda uma sensação de estranheza em relação a essa figura feminina e o fato de sua subtrama andar muito pouco apenas aumenta isso, mantendo-a como o elemento “extra” da temporada, por mais que suspeitemos de sua maior importância posteriormente.

Os showrunners ainda brincam constantemente ao longo de The Secret of Spoon com as expectativas do espectador, principalmente através da figura de Czernobog (Peter Stormare), o deus negro da mitologia eslava. Wednesday, em determinado ponto do capítulo, diz que ele precisa ir a Chicago para pegar o seu martelo. Considerando que o personagem interpretado por Ian McShane muito provavelmente é o próprio Odin, esperaríamos que ele fora buscar Thor, mas esse não é o caso, a menos que ele e Czernobog sejam a mesma pessoa. As brincadeiras continuam com essa divindade comentando sobre Shadow ser negro, dialogando com sua própria origem mitológica, como ele era considerado dessa forma na sua terra de origem, em virtude de seus cabelos escuros. Fica bastante claro o domínio do texto sobre essas diferentes religiões e culturas, garantindo um nítido pluralismo ao seriado.

A caracterização desse personagem é outra de fazer os olhos brilharem. Velho, fumante, com covas no cabelo grisalho, roupas mal-cuidadas e os braços, outrora musculosos e agora flácidos. Tais características pintam perfeitamente a decadência desse ser. Quando ele pega seu gigantesco martelo, porém, tudo isso muda, ele assume uma postura mais ameaçadora, criando a tensão em tela, com Shadow claramente demonstrando o temor de que esse homem irá matá-lo. O passado ganha, novamente, sua força e Czernobog praticamente se transforma de uma hora para a outra. Graças a isso, a sequência do jogo de damas funciona perfeitamente, deixando claro qual é o preço a ser pago caso o protagonista perca.

Mas não é só o passado que dá as caras no episódio. Mais uma divindade da atualidade dá as caras nas televisões de um mercado. Interpretada por Gillian Anderson, a eterna Scully de Arquivo X, a personagem se apresenta de forma muito diferente daquele que conhecemos no desfecho do capítulo anterior, ela tenta ganhar a confiança de Shadow, como o televisor discretamente rouba a atenção de seu espectador. Lentamente ela atrai aquele que a observa, mas sem êxito. O protagonista sabe que está mergulhando em algo mais profundo do que imaginara e já começa a aceitar isso, embora, claro, reclame ao longo do episódio de que não está entendendo nada, sendo a voz do espectador da série, que lentamente é introduzido nesse universo.

The Secret of Spoon é um capítulo que nos oferece dezenas de informações sem se preocupar em ser excessivamente didático. Bryan Fuller e Michael Green brincam com o espectador, o fazem teorizar e, em momento algum, deixam claro o que está acontecendo. Enquanto isso facilmente poderia nos afastar da série, acaba tendo o efeito contrário: ficamos instigados, somos absorvidos por essa narrativa, tentando descobrir quem é quem e se há, de fato, um lado bom nessa história toda, ou se é apenas a velha história do homem sendo pego no meio do conflito de deuses.

American Gods 1×02: The Secret of Spoon — EUA, 07 de maio de 2017
Showrunner:
Bryan Fuller, Michael Green
Direção: David Slade
Roteiro: Bryan Fuller, Michael Green
Elenco: Ricky Whittle, Emily Browning, Ian McShane, Yetide Badaki, Gillian Anderson, Cloris Leachman, Orlando Jones, Peter Stormare, Mousa Kraish, Martha Kelly
Duração: 60 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.