Crítica | American Gods – 1X03: Head Full of Snow

estrelas 4,5
Contém spoilers do episódio. Por favor, evite entregar detalhes do livro nos comentários.

Estamos chegando na metade da primeira temporada de American Gods, que contará com oito episódios, e começamos a entender um pouco da estrutura construída por Bryan Fuller e Michael Green. Nesse ponto já está bem claro que a intenção é trazer a jornada de Shadow e Mr. Wednesday, com um prólogo introduzindo um diferente deus e um interlúdio, no meio, dividindo os dois atos de cada capítulo. Head Full of Snow, dessa forma, continua a expandir a mitologia do seriado, enquanto que não teme avançar, a grandes passos, a trama principal, estabelecendo, desde já, como a série pode ser aproveitada em diferentes níveis, seja através dos ótimos diálogos entre o protagonista e Wednesday, ou pelos inserts com uma paleta de cores mais vibrantes.

Depois de perder o jogo de damas para Czernobog, Shadow acorda, no meio da noite e conhece a irmã mais nova daquela casa, no telhado do prédio. Zorya Polunochnaya (Erika Kaar), sempre observando o céu, que parece algo tirado de um livro de fantasia (o que realmente foi o caso), fala sobre sua missão e a incerteza do futuro do protagonista. Logo aqui, Fuller e Green mostram como o elemento fantástico se mistura com o ar mais realista da série. Com as nuvens abertas para que a jovem observe as estrelas sentimos realmente como se ela estivesse olhando muito além do céu da Terra, observado algo distante, não apenas um corpo celeste – a irmã mais nova contempla quase que o outro lado de um portal, formado por esse buraco circular nas nuvens. Ela entrega, então, a Lua para Shadow, dialogando, claro, com seu sobrenome e nos fazendo lembrar, claro, da outra moeda, representativa do Sol, que fora deixada no túmulo de sua esposa.

O roteiro opta por resolver toda a situação com Czernobog logo nesse primeiro ato, sabendo ser ágil quando precisa, visto que poderia, facilmente, manter a trama estagnada nesse problema por todo o capítulo. É importante ressaltar como Shadow, logo aqui, demonstra que está com a mente mais aberta, disposto a acreditar em seu sonho e que isso mudaria o seu destino, salvando sua vida. Essa maior aceitação dessa fantasia à seu redor é um dos temas de Head Full of Snow, herdado, naturalmente, dos capítulos anteriores. A capacidade, recém descoberta, do personagem conseguir trazer a neve pode significar que ele é mais que humano, como pode ter sido Wednesday que trouxera a nave, utilizando a manifestação da Vontade de Shadow. Dúvida, claro, que permanecerá até os próximos episódios.

Essa ênfase no frio, que se faz presente nos diálogos e na imagem em si desde os minutos iniciais dialoga com o interlúdio, que traz um Djinn de fogo, possivelmente um Ifrit. A sequência, assim como as de Bilquis, ainda soa desconexa do quadro geral, mas, a partir do momento que ela é utilizada para dividir os dois distintos atos da narrativa principal, a inserção parece menos fora de contexto, especialmente considerando que cada vez mais novas entidades aparecem. O maior problema vem dos episódios anteriores e não desse em específico – se Bilquis tivesse aparecido somente no primeiro, com outro deus ou ser fantástico no segundo, não ficaríamos esperando ver mais dela, mas, já que aparecera em dois capítulos consecutivos, acabamos esperando por uma outra subtrama, o que pode não ser o caso.

Ao colocar um Ifrit em tela, esse interlúdio também cria um vínculo com o trecho inicial, com Anubis e a mulher muçulmana, mostrando como as diferentes culturas dialogam entre si, nenhuma soando mais ou menos importante que a outra, apenas compondo esse quadro maior de homens, deuses e monstros. A visceral, apaixonada sequência de sexo, claro, se encaixa perfeitamente com o caráter do fogo, como se queimasse dentro dos dois personagens, muito bem representando o desejo, da mesma forma que o trecho de Bilquis, ainda que esse tivesse um foco maior no Poder. Essa sequência ainda traz uma maior diversidade à série e coloca essa relação sexual sem grandes floreios, com o diretor, David Slade, não temendo mostrar tudo o que quer, o que, por si só, traz uma enorme força narrativa em um mundo no qual ainda precisamos lutar para que isso seja aceito e visto com os mesmos olhos que uma relação entre homem e mulher.

O interessante é observar como essas diferentes sequências, cada uma, apresenta um diferente estilo. O prólogo se apoia mais no fantástico, tirando-nos do mundo real e levando para o que está além. A trama principal, por sua vez, revela a decadência dos velhos deuses, trazendo tais divindades e seres mitológicos para o nosso mundo. Os interlúdios, por sua vez, são a união desses dois, com a realidade caminhando de mãos dadas com a fantasia, a tal ponto que sabemos identificar cada trecho facilmente pelo o que ele é. Essas diferenças são outro fator que possibilitam que o desconexo se enquadre maior nesse cenário geral, tornando a transição entre um e outro mais fácil de se aceitar.

Head Full of Snow, portanto, demonstra claramente que Bryan Fuller e Michael Green sabem o que estão fazendo. Com uma narrativa muito bem estruturada, nos vemos cada vez mais mergulhados nesse universo que mistura a realidade e a fantasia, tornando essas duas uma coisa só. Assim como Shadow, passamos a aceitar cada vez mais toda essa construção e nos vemos curiosos pelo que vem a seguir. O primeiro passo dessa viagem foi dado e já estamos ansiosos pelos próximos.

American Gods 1×03: Head Full of Snow — EUA, 14 de maio de 2017
Showrunner:
Bryan Fuller, Michael Green
Direção: David Slade
Roteiro: Bryan Fuller, Michael Green
Elenco: Ricky Whittle, Emily Browning, Ian McShane, Yetide Badaki, Gillian Anderson, Cloris Leachman, Orlando Jones, Peter Stormare, Mousa Kraish, Martha Kelly, Pablo Schreiber, Erika Kaar, Chris Obi,  Omid Abtahi,  Mousa Kraish
Duração: 60 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.