Crítica | American Gods – 1X04: Git Gone

estrelas 4
Contém spoilers do episódio. Por favor, evite entregar detalhes do livro nos comentários.

Quando, enfim, passamos a entender a estrutura narrativa de American Gods, Bryan Fuller e Michael Green brincam com o espectador, nos trazendo uma história paralela, a qual, de início, soa como um grande filler, mas que oferece algumas importantes revelações sobre o passado e presente da série, mantendo o ar fantasioso de maneira tão forte como nunca. Git Gone se distancia da roadtrip de Shadow e Mr. Wednesday a fim de nos contar a história de Laura (Emily Browning) a falecida, não-tão-morta-assim ex/atual esposa do protagonista.

A brincadeira de Fuller e Green já começa nos segundos iniciais. Vemos Laura no cassino onde ela trabalhava, com ambientação egípcia, como se estivéssemos diante de um dos trechos que, nos episódios anteriores, nos apresentaram a deuses diferentes. Algo, porém, já parece diferente: a paleta de cores vibrante de tais sequências não se faz presente e logo descobrimos que o suposto curto trecho inicial, à parte da história central, irá ocupar todo o episódio. Vemos a mulher, portanto, desde pouco antes de conhecer seu marido até o momento no qual a encontramos em Head Full of Snow, terminando exatamente onde fomos deixados na semana anterior.

De início os roteiristas já trabalham com a questão da vida e morte, com uma mosca praticamente perseguindo Laura o tempo todo, funcionando como um anúncio do que está por vir. Claro que nós sabemos que ela irá, invariavelmente, morrer em um acidente de carro: a grande dúvida é o que fez ela voltar e se ela fora apenas vítima de um acidente. Descobrimos, então, que sua vontade de deixar essa vida já estava presente e que ela própria, propositalmente, causou a batida. Nesse ponto uma importante informação sobre a mitologia da série nos é passada: independente do que você acredita, algum deus será responsável por essa transição entre a vida e a morte.

Claro que a escolha por Anubis, que já fora apresentado anteriormente, não foi por acaso, dialogando com a ambientação do cassino no qual Laura trabalhava. Suas convicções, contudo, eram verdadeiras, já que o seu destino final é a escuridão. Git Gone tem como informação mais importante, porém, a confirmação de que há algo a mais em Shadow, algo que, aparentemente, somente os não-humanos conseguem ver. O que exatamente é não sabemos, mas é possível que ele próprio seja um deus, ou algo assim, mesmo sem ter conhecimento disso. O que sabemos é que ele não tem sorte alguma, o que nos faz lembrar do primeiro jogo de damas entre ele e Czernobog.

Existe, por trás disso tudo, uma temática de segundas chances. Laura tem a oportunidade de se reconectar com seu marido e, claro, reviver, enquanto ele próprio saíra da prisão, ganhando uma nova perspectiva da vida. Evidente que Wedsnesday ter escolhido justamente ele não é por acaso e, em um trecho específico, vemos um corvo parado sobre um dos postes da rua do casal, podendo revelar que ele já estava observando ambos há tempos. A “segunda chance” aparece, também, quando Shadow está prestes a morrer enforcado e sua esposa zumbi o salva. A questão que fica é: como será a interação dos dois daqui em diante e como Wednesday irá enxergar esse retorno de Laura? Resta, a nós, somente esperar.

O episódio, contudo, também dá algumas tropeçadas, não deixando clara a necessidade de mostrar toda a relação entre a personagem e o esposo de sua melhor amiga. Esses, junto de outros trechos, nos passam a ideia de que parte do capítulo foi preenchida com sequências não tão relevantes a fim de completar o tempo de duração necessário. Claro que essa percepção pode acabar mudando nos capítulos posteriores, mas, por enquanto, é com isso que fomos deixados.

Git Gone é, portanto, uma sidetrip em relação ao restante da série, nos trazendo algumas respostas e nos contando o que aconteceu, de fato, com Laura Moon. Agora somos deixados com a questão de como ela irá se encaixar na dinâmica existente entre Shadow e Wedsnesday. Como uma brincadeira de Bryan Fuller e Michael Green o episódio ainda traz a clara identidade de American Gods, ainda que soe irrelevantes em determinados pedaços, ao menos por enquanto.

American Gods – 1X04: Git Gone — EUA, 21 de maio de 2017
Showrunner:
Bryan Fuller, Michael Green
Direção:
Craig Zobel
Roteiro: 
Bryan Fuller, Michael Green
Elenco:
Ricky Whittle, Emily Browning, Ian McShane, Yetide Badaki, Gillian Anderson, Cloris Leachman, Orlando Jones, Peter Stormare, Mousa Kraish, Martha Kelly, Pablo Schreiber, Erika Kaar, Chris Obi,  Omid Abtahi,  Mousa Kraish
Duração:
60 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.