Crítica | American Gods – 1X06: A Murder of Gods

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estrelas 5,0

Contém spoilers do episódio. Por favor, evite entregar detalhes do livro nos comentários.

Na semana anterior, em American Gods, os personagens centrais, Shadow e Mr. Wednesday, se viram cara a cara com os jogadores do “outro lado do tabuleiro”. Lemon Scented You, enfim, tornou real para nós, espectadores, a ameaça desses antagonistas, algo que aparecera brevemente apenas no capítulo inicial da série, até então. Seria apenas natural, portanto, que A Murder of Gods trouxesse mudanças após esse enfrentamento e é justamente o que vemos, com Moon não sabendo mais no que acreditar e Wednesday apresentando, à sua própria maneira, doses maiores de preocupação.

roadtrip é retomada nesse episódio, ao passo que Shadow e Wednesday partem para encontrar Vulcan (Corbin Bernsen), deus do fogo e da forja, que conta com sua própria cidadezinha preenchida por fiéis, que carregam com si, cada um, uma arma de fogo. No centro desse lugar existe a grande indústria que produz esse armamento e que é utilizada para tão bem definir a temática de sacrifício, que se estende por todo o capítulo. Enquanto isso, Laura e Sweeney vão em busca de alguém que, supostamente, será capaz de ressuscitar a falecida e, no processo, encontram Salim que já aparecera em Head Full of Snow, na sequência de interlúdio.

A Murder of Gods define muito bem sua temática de sacrifício e ressurreição ao longo da trama, sendo iniciado com Jesus (Ernesto Reyes) ajudando os mexicanos a cruzarem a fronteira, apenas para ser baleado por um de seus fieis, que não dão a minima para o que ele tentou ensinar. À essa altura do campeonato já podemos fisgar qual a intenção dos showrunners, Bryan Fuller e Michael Green, que utilizam tais sequências para introduzir divindades que irão, em um momento ou outro, aparecer depois. Evidente que esse trecho dialoga com a subtrama de Laura, mas, seu subtexto, cria um vínculo direto com a história de Shadow e Wednesday, ao trabalhar com essa mortalidade dos deuses, o assassinato que se faz presente no título do capítulo.

Entramos nessa releitura do deus Vulcan, que tece evidentes críticas ao porte de armas e à própria indústria bélica, que serve apenas aos seus próprios propósitos, não se importando, no fim, quem irá se armar. Ressurreição e renascimento são temáticas abordadas nos diálogos entre esses três personagens, o que pode nos levar a crer que a morte de um deus pode não ser permanente. A transformação do culto no amor pela arma de fogo mostra, também, como tudo pode se subverter, da mesma maneira como Wood (o deus, ou entidade) se adaptara com o passar dos tempos. Entra em pauta, portanto, o que o próprio Odin tenta fazer: combater esses deuses novos ao invés de se transformar em algo de relevância e aí entra a pergunta: até que ponto uma cultura desaparece em tais absorções? A tão presente apropriação cultural é outro ponto trabalhado aqui e Wednesday muito bem representa a tentativa de uma antiga cultura sobreviver, enquanto o mundo globalizado tenta apagá-la, tirar sua importância, a banalizar.

Shadow se faz essencial nesse cenário, não só como aquele que funciona como nossa porta de entrada, mas alguém que certamente definirá o futuro. Seu ceticismo, passo a passo quebrado, abre espaço para uma maior aceitação, alguém disposto a acreditar em qualquer coisa e a maior arma dessa guerra é justamente a fé. Ao mesmo tempo, descobrimos, a cada capítulo, que há algo a mais nele, dons escondidos os quais parecem ser conhecidos por Odin. Seria Moon um novo deus? Ou a nova forma assumida por uma identidade? Somente o tempo nos dirá.

A Murder of Gods deixa bem claro o quão importante é essa missão de Wednesday, algo que o torna capaz de matar um velho amigo. Tecendo contundentes críticas a nossa sociedade, o episódio novamente prova a qualidade narrativa de American Gods, cujas peças parecem, já, montar um quadro geral, no qual todos estão, de alguma forma, conectados.

American Gods – 1X06: A Murder of Gods — EUA, 04 de junho de 2017
Showrunner:
Bryan Fuller, Michael Green
Direção:
Adam Kane
Roteiro:
Seamus Kevin Fahey, Michael Green, Bryan Fuller
Elenco:
Ricky Whittle, Emily Browning, Ian McShane, Yetide Badaki, Gillian Anderson, Cloris Leachman, Orlando Jones, Peter Stormare, Mousa Kraish, Martha Kelly, Pablo Schreiber, Erika Kaar, Chris Obi,  Omid Abtahi,  Mousa Kraish, Crispin Glover
Duração:
60 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.