Crítica | American Gods – 1X07: A Prayer for Mad Sweeney

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estrelas 2,5
Contém spoilers do episódio. Por favor, evite entregar detalhes do livro nos comentários. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Às vésperas do último episódio de sua primeira temporada, American Gods, comete seu primeiro deslize, nos entregando um capítulo com algumas significativas repercussões para sua trama principal, mas que se constitui, em grande parte, como um mero filler. Depois dos dois melhores episódios da temporada, era de se esperar que veríamos, aqui em A Prayer for Mad Sweeney, a preparação para o grande encontro de deuses que fora anunciado desde os primórdios da série. O que ocorre, porém, não poderia ser mais distante, já que a maior parcela dessa história é focada na construção de Mad Sweeney, ou melhor, de seu caráter como leprechaum.

A trama tem início no local de trabalho, possivelmente casa, de Anubis e seu parceiro, o qual descobrimos que é aquele que escreve as histórias “coming to America”, que acompanhamos desde o series première. Pequenos detalhes nos são oferecidos desde já, com o deus egípcio sabendo exatamente quando alguém irá morrer e já pressentindo a necessidade de seu companheiro escrever mais uma história. Começa o conto, portanto, e ouvimos e vemos uma garota irlandesa, que acredita de forma veemente em fadas, leprechauns e outros seres da mitologia local. Descobrimos sobre as oferendas necessárias para que esses a beneficiem com a sorte, enquanto vemos sua história se desenrolando. Já no presente, temos Laura e Mad Sweeney continuando a viagem.

American Gods já nos entregou alguns trechos e um episódio inteiro que poderia ser considerado filler, refiro-me, claro, aos prólogos e interlúdios de cada capítulo e a Git Gone. Esses primeiros, contudo, sempre tiveram seu propósito de ser, não interferem muito na narrativa, a diferenciando, garantindo a identidade da série e pintando um melhor retrato desse mundo de deuses. Já Git Gone nos ajudou a conhecer mais Laura e, consequentemente, o passado de Shadow. A Prayer for Mad Sweeney até poderia chegar perto desse caráter do quarto capítulo da temporada, o problema é a sua posição no quadro geral. Como penúltimo episódio, não podemos deixar passar esse banho de água fria, especialmente após os dramáticos eventos de A Murder of Gods.

Não que a história da garota irlandesa não seja interessante e não contribua para a mitologia do seriado, mas ela poderia ser facilmente contada em um prólogo curto, se apropriando de mais elipses. Isso pode ser facilmente observado pela repetitividade dessa subtrama, que basicamente se resume à menina oferecendo algo para as criaturas fantásticas e elas retribuindo o favor de alguma forma – ou a prejudicando, caso ela falhe em oferecer algo. Com isso, sentimos como se Bryan Fuller e Michael Green quisessem dilatar a estrutura narrativa da série, a fim de prolongar sua duração em temporadas. Afinal, o livro no qual fora baseada não é assim tão grande e somente possibilitará um grande seriado (em episódios) se a adaptação extrapolar muito o material base.

É preciso reconhecer, também, o excelente desenho de produção, que retrata de maneira imersiva esse outro período histórico. Seja através dos figurinos, cuidadosamente elaborados, ou do próprio ambiente, que, em momento algum, soa artificial, mesmo considerando que a artificialidade é parte dos recursos narrativos dessa série, que se apoia em uma linguagem mais fantástica do que o realismo com o qual estamos acostumados nas produções televisivas atuais.

Ao menos, os dois focos exibidos nesse sétimo capítulo dialogam entre si. O fato de Emily Browning interpretar ambas as personagens, evidentemente não é por acaso, podendo significar que fazem parte da mesma família, uma sendo ancestral da outra. Caso tal semelhança seja literal e não apenas licença poética, então é claro que Sweeney a reconhece, explicando, portanto, sua escolha de devolver a moeda ao cadáver de Laura. Além disso, é importante observar como a revelação de que ele a matara, a mando de Odin, impactou essa sua decisão, um possível sentimento de culpa que toma conta do leprechaun. Mas repito, tudo isso poderia ter sido feito em um tempo muito menor.

A Prayer for Mad Sweeney, portanto, apresenta um objetivo muito claro: o de enrolar o espectador, transformar a série em algo maior do que ela, originalmente, poderia ser. Existem informações importantes oferecidas aqui, mas nada que não poderia ter sido feito em paralelo com a progressão da trama principal. O que ganhamos foi um grande filler, que nos afasta dos eventos ocorridos anteriormente e que certamente não pavimenta o caminho para o finale na semana que vem. Esperamos que, mesmo assim, o episódio final não seja prejudicado em razão desse devaneio.

American Gods – 1X07: A Prayer for Mad Sweeney — EUA, 11 de junho de 2017
Showrunner:
Bryan Fuller, Michael Green
Direção:
Adam Kane
Roteiro:
Maria Melnik
Elenco:
Ricky Whittle, Emily Browning, Ian McShane, Yetide Badaki, Gillian Anderson, Cloris Leachman, Orlando Jones, Peter Stormare, Mousa Kraish, Martha Kelly, Pablo Schreiber, Erika Kaar, Chris Obi,  Omid Abtahi,  Mousa Kraish, Crispin Glover
Duração:
60 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.