Crítica | American Gods – 1X08: Come to Jesus

Episódio e temporada:

estrelas 4,5
Contém spoilers do episódio. Por favor, evite entregar detalhes do livro nos comentários. Leia, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Depois de um episódio sem muito a acrescentar, que prejudicou o ritmo da série, nos afastando de Shadow e Mr. Wednesday, Come to Jesusfinale dessa primeira temporada, precisaria correr atrás a fim de retomar a sensação de urgência deixado no desfecho de A Murder of Gods. Mas Bryan Fuller e Michael Green já provaram que não seguem pelo caminho mais óbvio e conseguem nos surpreender através do caráter desse final, que não entrega a tão falada guerra, mas sim algo que lida com a própria essência e evolução dos deuses e crenças ao longo dos séculos.

Para trabalhar tal questão, que religião melhor que o cristianismo, cujo maior feriado, a Páscoa (isso mesmo, não é o Natal, o calendário cristão é todo definido à partir dessa celebração da ressurreição de Cristo), é o centro das atenções aqui? Claro que, falando de American Gods, a data ganha um sentido mais corpóreo, especificamente na forma da deusa Ostara (Kristin Chenoweth). Aliás, o próprio nome da divindade, também conhecida como Ēostre, já revela o sincretismo realizado pela Igreja, que transformara o antigo festival na sua data mais importante. Dito isso, o roteiro de Bekah Brunstetter, Michael Green e Bryan Fuller acerta em cheio em escolher esse cenário para compor o capítulo final dessa primeira temporada.

Digo isso pois as crenças se transformam, como é dito no próprio episódio. Alguém pode se dizer ateu, agnóstico, ou algo assim e, no fundo, acreditar em algo, nem que seja o velho culto à celebridade, que coloca ícones no patamar de deuses. Isso, claro, dialoga com a própria posição de Shadow, esse, verdadeiramente sem ter nada a acreditar (no início da série) e que vai, lentamente, expandindo seus horizontes, enxergando todos os aspectos sobrenaturais que o cerceiam. É seguro dizer, portanto, que esse primeiro ano teve como objetivo mostrar essa transformação do protagonista, nos deixando na dúvida de que lado ele ficará no final – já que Laura parece não estar muito contente com o fato de Odin ter orquestrado todas as desgraças de sua vida.

Aliás, a revelação de Wednesday como Odin não vem como nenhuma surpresa, mas a direção de Floria Sigismondi torna o momento verdadeiramente épico, garantindo o peso que carrega o verdadeiro nome do deus nórdico. Com movimentos circulares e planos curtos, sua câmera aumenta a persona criada por Ian McShane, algo que alcança seu ápice com sua imagem aparecendo entre as nuvens. É um exagero por parte da produção? Claro, mas American Gods estabeleceu sua identidade visual nesses exageros, seja através da violência, das cores vibrantes (em geral nos prelúdios e interlúdios), ou da própria computação gráfica, que soa artificial propositalmente.

É preciso levar em conta, também, o excelente trabalho de montagem de Ron Rosen, que sabe muito bem intercalar os diferentes focos ao longo do episódio, utilizando transições criativas as quais nos levam de um tempo para o outro, através de justaposições e fusões, que não quebram o ritmo narrativo. Mesmo partindo para Bilquis ocasionalmente e, no processo, justificando a aparição dela anteriormente na temporada, Rosen não perde o fio da meada, transmitindo segurança, não comprometendo a fluidez da trama de maneira alguma.

American Gods, portanto, nos entrega um finale à altura dessa sua ótima temporada inaugural. Sentimos falta de alguns elementos, como Czernobog, que sequer fora citado, mas nada que comprometa o desenvolvimento da história, afinal, toda a interação na casa de Ostara parece estar longe de acabar, já que Bilquis se aproxima e Laura pretende contar algumas verdades para Shadow. A guerra, enfim, foi declarada e, com uma segunda temporada já confirmada, teremos de controlar nossa ansiedade para o que está por vir.

American Gods – 1X08: Come to Jesus — EUA, 18 de junho de 2017
Showrunner:
Bryan Fuller, Michael Green
Direção:
Floria Sigismondi
Roteiro:
Bekah Brunstetter, Michael Green, Bryan Fuller
Elenco:
Ricky Whittle, Ian McShane, Emily Browning,  Crispin Glover, Bruce Langley, Yetide Badaki, Pablo Schreiber, Gillian Anderson, Orlando Jones, Jeremy Davies, Kristin Chenoweth
Duração:
61 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.