Crítica | American Horror Story 5X04 e 5: Devil’s Night/ Room Service

estrelas 3

Atenção: contém spoilers

American Horror Story: Hotel, que até então somente nos apresentara problemáticas e subtramas atrás de subtramas decide, enfim, fazer uma pequena pausa para abordar os personagens já introduzidos. Os dois episódios – Devil’s NightRoom Service – que compõem o costumeiro Halloweeen da série fazem exatamente isso ao focarem, cada um, em determinados indivíduos específicos. Ainda estamos longe de qualquer resolução ou respostas para certas perguntas e muitos dos problemas já apresentados nas críticas anteriores se mantém, mas não podemos deixar de sentir um bom aproveitamento em alguns dos aspectos vistos nessas duas últimas semanas.

Comecemos, é claro, do início. O primeiro dos capítulos aqui abordados nos traz duas principais ênfases: John Lowe, no Jantar do excêntrico Sr. March e a busca de Alex por estar junto de seu filho, o que a acaba levando para o vampirismo (eu avisei que teriam spoilers). O jantar na suíte do construtor do hotel, que reúne notórios serial killers da história americana (incluindo uma menção honrosa a Charles Manson, que somente não aparecera por ainda estar vivo), é, sob todo e qualquer aspecto inútil para a narrativa da temporada como um todo e não traz absolutamente nada de novo em termos de construção da trama. Por se tratar de uma noite específica do ano, que garante o título do capítulo, é seguro afirmar que não veremos mais desses personagens, ao menos não até o finale, o que faz de todo esse encontro um simples capricho do roteiro que deseja entreter e não oferecer algo de real substância.

De fato esse entretenimento ocorre, toda a construção no quarto de hotel é divertida especialmente com uma pesquisa paralela do espectador sobre cada um dos indivíduos – se ele não os conhecer de antemão, naturalmente. Pela primeira vez March não soa fora de época aqui, contando com uma justificativa por ser tão, digamos, antiquado. O fato de James ter convidado John ainda nos traz uma dica sobre o assassino que o policial tanto busca – e este é o único ponto que toda essa subtrama acrescenta . O construtor do Cortez apenas trouxe assassinos para sua Devil’s Night, seria, portanto, Lowe, o culpado de todos os crimes que investiga de forma tão veemente? A narrativa da série parece nos levar por esse caminho e se Ryan Murphy gostaria de deixar essa revelação para o clímax, ele terá de trazer um bocado de simples e pura enrolação. O que de fato ele vem fazendo e o episódio em questão é um bom exemplo disso, já que essa é a única informação importante que daqui tiramos. No fim, Devil’s Night soa como um one-shot, um telefilme de curta duração.

Room Service, por sua vez, decide, finalmente, explorar dois dos personagens mais subutilizados nesta temporada, Iris e Liz Taylor – até então um evidente desperdício tanto dos talentos de Kathy Bates como de Denis O’Hare. O roteiro de Ned Martel nos traz a história por trás do travesti e aborda de forma certeira o conceito do transgênero, utilizando a personagem de Lady gaga com exatidão para sentir o verdadeiro gênero por trás daquele que nascera homem. O’Hare consegue roubar toda e qualquer atenção em um texto que ainda critica a família tradicional ao trazer a infelicidade de uma pessoa mesmo estando ela inserida no “sonho americano”.  A utilização de sua história pessoal para alavancar a libertação de Iris é certeira e o resultado é um episódio que consegue nos cativar nesta sua segunda metade.

E por que falo segunda metade? Pois a primeira é preenchida por um surto de vampirismo em uma escola e o término dessa parcela do capítulo soa como uma nítida interrupção, uma péssima escolha do roteiro que fragmenta a narrativa fazendo parecer como se assistíssemos dois episódios distintos, sem qualquer vínculo um com o outro. Mesmo a aparição do ocorrido no colégio na televisão do Hotel soa como uma referência distante, ao ponto que, nesse momento, já quase esquecemos desse trecho inicial. O mesmo vale para a personagem de Angela Basset, enfim trazida de volta aqui apenas para fazer uma ponta cujas repercussões serão deixadas para depois. Um exemplo do típico problema de se inserir personagens demais em uma narrativa.

Com esses erros e acertos Devil’s NightRoom Service nos deixam com um saldo ligeiramente positivo, em geral, devido à abordagem de Iris e Liz Taylor no segundo capítulo em análise. Ryan Murphy precisa correr se deseja conseguir explorar com folga todas essas portas abertas, caso contrário seremos deixados com muitos não-ditos, restando no ar apenas uma infinidade de perguntas que jamais serão respondidas e, por fim, esquecidas. O simples fato de não inserirem mais subtramas, pelo menos, já é um começo.

American Horror Story [Hotel] 5X04 e 05: Devil’s Night/ Room Service (Estados Unidos, 2015)
Direção: Loni Peristere, Michael Goi
Roteiro: Jennifer Salt, Ned Martel
Elenco: Kathy Bates, Sarah Paulson, Evan Peters, Wes Bentley, Matt Bomer, Chloë Sevigny, Denis O’Hare, Cheyenne Jackson, Lady Gaga, Finn Wittrock, Mare Winningham, Naomi Campbell, Max Greenfield, Richard T. Jones
Duração: 50 minutos cada episódio

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.