Crítica | American Horror Story – 7X01: Election Night

– Contém spoilers do episódio. Leiam, aqui, as nossas outras críticas da série.

Quando o tema dessa nova temporada de American Horror Story foi anunciado minha primeira reação foi a de preocupação. Considerando toda a repercussão da última eleição americana, temi que esse ano inteiro da série acabasse se tornando um grande “mimimi” sobre a vitória de Trump – não que o fato dele ocupar tal cargo não seja preocupante, mas não seria mais relevante ter feito isso antes do político assumir o cargo? Essa desesperança em relação ao seriado se manteve até meados de seu premièreElection Night – a partir desse ponto pude perceber a intenção de Ryan Murphy e Brad Falchuk, ao menos até agora, que consiste em, através do terror, ironizar os comportamentos exagerados de ambos os lados da eleição.

O exagero apresenta-se desde os minutos iniciais, que nos mostram, como o título já sugere, a noite das eleições e a vitória de Donald Trump. Enquanto Kai Anderson (Evan Peters) comemora, de maneira verdadeiramente assustadora, Ally Mayfair-Richards (Sarah Paulson) grita como se estivesse vendo um ente querido ser esfaqueado. Dessa forma, Murphy e Falchuk brincam com o terror, substituindo a violência de um assassinato, por exemplo, pelas expectativas esfaceladas, as quais geram reações, de seus personagens, tão traumáticas quanto. Após os créditos de abertura (que sentimos falta na temporada anterior – embora sua ausência tenha sido justificada), acompanhamos esses mesmos dois lados da moeda, enquanto a vida de Ally passa a ser dominada por sua paranoia e fobias, essas ampliadas pelas redes sociais – mais uma crítica bem colocada, evidenciando como essas mídias exageram determinadas questões, atingindo proporções preocupantes..

Election Night é um episódio extremamente ácido em seu humor negro, algo que podemos ver, com clareza, a cada aparição de um apoiador de Trump, sempre acompanhado por tons mais graves da trilha, como se representassem o perigo nessa temporada. Dessa forma, o texto do episódio demonstra de forma perfeita como aqueles que não votaram no candidato alaranjado enxergam o lado oposto, vilanizando-os, ao invés de abrir espaço para debates que podem, de alguma forma, criar o meio termo ideal para a nação. Da mesma forma que Kai representa o que há de pior nos pró-Trump, Ally simboliza o pior lado dos anti-Trump, caracterização que não somente se aplica aos americanos, como o próprio embate direita x esquerda que domina o Brasil, com ambos os lados enxergando o outro como monstros, questão que apaga qualquer possibilidade de diálogo saudável.

Isso tudo, porém, não quer dizer que o terror mais literal não apareça nesse episódio. O roteiro de Falchuk e Murphy cria um delicioso paralelo com Uma Noite de Crime, fazendo da vitória de Trump, e tudo o que ele representa, uma espécie de autorização para que grupos radicais ensandecidos matem imigrantes ou ameacem homossexuais, como vemos na morte dos Chang (poderiam ter escolhido um sobrenome menos estereotipado, não?) e a perseguição no supermercado. Mascarados, esse grupo de palhaços nos remete imediatamente à série de filmes citada, com eles, mais uma vez, representando o radicalismo ideológico.

Meu único porém em relação ao capítulo é a presença de Twisty, o palhaço, que retorna de Freak Show (quarta temporada), mais como uma referência do que qualquer outra coisa, funcionando, na narrativa, apenas para gerar a dúvida sobre Oz ter imaginado os palhaços na casa dos Chang. Evidente que essa percepção pode acabar mudando, caso Twisty tenha uma maior participação durante esse ano, mas, por enquanto, a sequência soou um tanto quanto desconexa do resto, sendo apenas a dose necessária de sangue em um première de série de terror.

No mais, American Horror Story nos apresentou mais um forte capítulo de abertura, lidando com a paranoia, fobias e extremismo de forma ácida, utilizando as eleições para evidenciar o comportamento exagerado de ambos os lados da moeda. Resta torcer para que essa sátira continue e não se transforme no tão temido “mimimi” esperado para essa temporada e que Twisty se torne algo mais que puro fan service, desempenhando um papel mais ativo nesse ano da série.

American Horror Story – 7X01: Election Night — EUA, 5 de setembro de 2017
Showrunner:
Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Bradley Buecker
Roteiro: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Elenco: Sarah Paulson, Evan Peters, Cheyenne Jackson, Billie Lourd,  Alison Pill,  John Carroll Lynch, Colton Haynes, Tim Kang, Aimee Carrero, Cooper Dodson, Rafael de la Fuente
Duração: 50 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.