Crítica | American Horror Story – 7X04: 11/9

– Contém spoilers do episódio. Leiam, aqui, as nossas outras críticas da série.

Em minha crítica do episódio anterior de American Horror Story, terminei o texto com a seguinte frase: “Claro que ainda estamos no início desse sétimo ano, mas alguma revelação já seria bem-vinda a esse ponto.” Mal imaginava que, no capítulo desta semana, teríamos apenas revelações, com grande parte do mistério dessa temporada indo embora a favor da construção desse culto/ gangue formada por Kai Anderson (Evan Peters). Como da água para o vinho, saímos da completa ignorância para quase um profundo conhecimento acerca do que está acontecendo naquela vizinhança, transição essa que acaba nos deixando com a pulga atrás da orelha.

Enquanto que nos três primeiros episódios dessa sétima temporada acompanhamos, quase que exclusivamente, o casal formado por Ally (Sarah Paulson) e Ivy (Alison Pill), aqui o foco é alterado completamente, pulando de personagem a personagem, sequencialmente, a fim de nos revelar quem segue os ideais de Kai. Vemos Harrison (Billy Eichner), Meadow (Leslie Grossman), Beverly (Adina Porter) e, por fim, Gary (Chaz Bono), sendo convencidos pelo sujeito e, no fim, somos deixados em dúvida sobre a própria Ivy, que já conhecia Winter ( Billie Lourd) antes dessa ser entrevistada para ser a babá de seu filho, informação não compartilhada com sua esposa, Ally.

Certa dose de revelações sempre é bem-vinda em obras de terror e suspense. Elas não apenas nos tiram do lugar comum, como permitem que a narrativa siga adiante, alterando o status quo da trama, que, em geral, acaba estagnando se ficar muito tempo sem desfazer parte de seu mistério. O problema de 11/9 é que tudo é feito de uma vez só, transformando esse em um capítulo praticamente didático, que quebra a estrutura narrativa construída até então, interrompendo a história de Ally a fim de nos mostrar o que está acontecendo. Para piorar, tudo é feito de maneira anticlimática, ao passo que somente nós, espectadores entendemos o que há por trás da gangue de palhaços, enquanto que as vítimas em si, mais notavelmente a própria protagonista, é deixada de lado.

Essa ruptura na narrativa geral da temporada também se estende para a estrutura interna do episódio, que pula de personagem em personagem de maneira burocrática, não sabendo intercalar os fatos, mostrando-os um a um, estabelecendo uma não-linearidade que nos faz percebermos a duração de cinquenta e um minutos como sendo muito maior do que efetivamente é – foram inúmeras as vezes que me peguei olhando para o relógio enquanto assistia o episódio, verificando se esse não era, de fato, um capítulo duplo. Por mais que seja gratificante enxergar como tudo nessa temporada para estar se encaixando, não há como desculpar as totais quebras de imersão ocorridas ao longo de 11/9.

O que salva o episódio é a construção do personagem de Evan Peters, que quase chega a nos fazer relevar o quão artificial foi a persuasão de seus seguidores. Embora tenha sido apresentado como um eleitor fanático de Donald Trump, aos poucos descobrimos que Kai apenas utilizou o estado de instabilidade deixado pelas eleições para criar sua própria revolução, servindo seus próprios propósitos, que, até agora, parecem se resumir a semear o caos naquela vizinhança. Peters consegue muito bem transitar entre o retrato da psicopatia e a figura do amigo atento para as necessidades do outro, pintando a perfeita imagem do manipulador, que mostra sua verdadeira cor quando já confiam nele.

Esses esforços do ator, no entanto, são incapazes de nos fazer esquecer dos evidentes problemas desse episódio, que nos trouxe as esperadas revelações a custo da orgânica progressão narrativa, tanto interna quanto da temporada como um todo. Burocrático e nada imersivo, 11/9 vem como um grande deslize dentro dessa sétima temporada de American Horror Story. Esperamos que, nas semanas seguintes, os showrunners, Ryan Murphy e Brad Falchuk, consigam levantar a série, utilizando essas revelações para desenvolver, no ritmo adequado, os seus episódios.

American Horror Story – 7X04: 11/9 — EUA, 26 de setembro de 2017
Showrunner: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Gwyneth Horder-Payton
Roteiro: John J. Gray
Elenco: Sarah Paulson, Evan Peters, Cheyenne Jackson, Billie Lourd,  Alison Pill,  John Carroll Lynch, Billy Eichner, Leslie Grossman, Cooper Dodson, Jorge-Luis Pallo, Zack Ward,  Adina Porter
Duração: 51 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.