Crítica | American Horror Story – 8X05: Boy Wonder

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  • Há SPOILERS do episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

O filão narrativo de American Horror Story: Apocalypse tem se mostrado bem diferente do que a maioria de nós, espectadores, esperava. E se isso ainda não ficou claro, sim, eu estou dizendo em um sentido bastante positivo.

É natural que em uma série que se propõe a mostrar um evento que tanto nos encanta (tem algum de vocês que não gostam de obras — em qualquer gênero ou motivação — abordando o tema escatológico?) gere dúvidas básicas do tipo “como isso aconteceu?” e tudo o que se possa imaginar relacionado à ‘origem do fim’. E para quem já é vacinado o bastante em narrativas do gênero (a propósito, leiam Um Cântico Para Leibowitz, que indico por ser o melhor livro sobre holocausto nuclear que eu já li), espera-se que a obra vá se centrar nas explicações imediatas. Que a motivação seja o núcleo de todo o restante. E é aí que as grandes produções do gênero se diferenciam. Porque elas tomam um caminho diferente. O caminho mais difícil. E é isto que AHS 8 está fazendo.

Como a maioria dos espectadores, eu comecei a série animado (gostei bastante do piloto), mas com o pé atrás. Se você é leitor recém-chegado, vá até à sessão de comentários de The End para ver a maior sessão de ressalvas de sua vida. Ocorre que já estamos na metade da temporada e nenhum episódio ruim foi exibido. Nenhum ET apareceu para estragar o plot (estou olhando pra você, Asylum!) e, de quebra, tivemos uma interessante apresentação de personagens e cenário de destruição — que embora não tenha sido livre de tropeços, sempre apresentou saldo final positivo — feitos sob medida para permitir um centro de serial focado em flashbacks. E eu estou impressionando com isso porque não esperava que fosse assim e porque, ao contrário do que se possa pensar, isso não é um recurso de enredo fácil de se pensar para uma série sobre o fim do mundo elencando o Anticristo, bruxas e ligações com outras antologias como Hotel e, agora, Murder House.

E por quê não é um recurso fácil? Porque um flashback bem feito e organicamente estendido, como temos visto desde o excelente Could It Be… Satan?, precisa demonstrar imediatas relações com o que foi plantado antes e dar espaço para que a história consiga ganhar corpo “de maneira reversa“, ou seja, conhecemos apenas um pedaço do futuro e agora teremos um longo processo do passado para então entendermos o que vem a seguir. Mesmo que no terceiro ato da temporada (a resolução do caso) Falchuk e Murphy pisem na bola em termos de plano geral da saga, a gente já pode dizer que ao menos o desenvolvimento pré-Apocalipse foi feito de maneira aplaudível.

Em Boy Wonder temos a sequência lógica do episódio que o antecedeu, mostrando a ascensão de Michael Langdon. A manifestação de seu imenso poder e sua vertente demoníaca estão colocadas lado a lado e vemos um embate de bastidores interessantíssimo entre a atual Suprema (Cordelia — ah, Sarah Paulson, como você é incrível!) e os feiticeiros, que veem em Langdon a oportunidade de fazerem valer a força masculina no mundo da magia, tendo aí o cumprimento de uma antiga e zombada profecia. Após os poucos tropeços com a montagem no começo do episódio, temos uma sequência de eventos que nos mantêm o tempo inteiro presos à tela. Vemos Mead voltar à cena, agora ajudando o filho endiabrado a conseguir ficar um tempo maior sem ser identificado. Vemos um plano muito menos inocente do que parecia à primeira vista sendo posto em prática no coração da escola dos feiticeiros. Mas Cordelia… ah… Cordelia está acima de tudo isso.

Me deixa bastante feliz o fato de o roteiro aqui (escrito por John J. Gray) não zombar da nossa inteligência. O plano-atrás-do-plano é muito bem colocado em cena e todo o drama possui aquilo que um bom episódio precisa ter para se manter em alta: desenvolver uma boa história em si mesmo e avançar com a proposta da temporada. Nas mãos de Gwyneth Horder-Payton, o confinamento versus as cenas externas, todas bem fotografadas, servem para mexer com a percepção do público e, no final de tudo, criam um suspense e uma surpresa ainda maiores. Nós começamos na borda e agora seguimos direto para o núcleo. Para onde tudo começou… Quem diria que essa temporada nos arrancaria tantos elogios, hein?

American Horror Story – 8X05: Boy Wonder (EUA, 10 de outubro de 2018)
Direção: Gwyneth Horder-Payton
Roteiro: John J. Gray
Elenco: Sarah Paulson, Billie Lourd, Leslie Grossman, Cody Fern, Emma Roberts, Cheyenne Jackson, Kathy Bates, Frances Conroy, Lily Rabe, Taissa Farmiga, Gabourey Sidibe, Jon Jon Briones, Billy Porter, BD Wong, John Getz, Wayne Pére, Stevie Nicks
Duração: 44 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.