Crítica | American Horror Story: Coven

estrelas 4De Nip/Tuck, passando por Glee e chegando até a American Horror Story, Ryan Murphy sempre se firmou como um dos showrunners mais ecléticos e paradoxais da história da televisão. Seus projetos, de alguma forma, sempre conseguiam trazer consigo uma nova roupagem para diversos temas abordados, e se em Glee tivemos uma desconstrução curiosa de personagens adolescentes estereotipados em meio a um cenário de colegial cercado por música em todo lugar, com American Horror Story, Ryan Murphy conseguiu reinventar o conceito do gênero horror.

Murder House (subtítulo da primeira temporada) chamou a atenção da crítica com a história de uma família problemática sendo assombrada pelos fantasmas de pessoas que perderam suas vidas naquela casa e, por consequência, permanecem presas a ela. Mas foi Asylum, a segunda temporada, que arrebatou os olhos e a imaginação dos espectadores, onde Ryan Murphy nos apresentou um cenário ainda mais intimista e claustrofóbico, transformando aquele espaço num cenário de bizarrices e manifestações demoníacas, o que fez com que a opinião do público se tornasse praticamente unânime sobre esta temporada.

Coven, a terceira temporada, chegou debaixo de expectativas curiosas, que misturavam ansiedade e desconfiança. Mesmo antes de sua estreia, Ryan Murphy anunciou que esta seria a temporada mais “leve”, ao mesmo tempo em que o próprio tema não parecia fascinar tanto o público: bruxas. Mas sendo um desafiador de convencionalidades, Murphy contrariou as expectativas e, ao invés de situar sua trama na época de Salém, trouxe suas feiticeiras para os dias atuais, com personagens femininas deslocadas de seu tempo e vivendo as mudanças e modernidades do século XXI.

Coven é, de fato, uma temporada sobre a ambição feminina. Fiona (Jessica Lange, sempre magnética em cena) é a líder de um resistente clã de jovens bruxas, integradas por Zoe (Taissa Farmiga), Madison (Emma Roberts), Nan (Jamie Brewer) e Queenie (Gabourey Sidibe). Fiona luta contra a chegada iminente da velhice, uma vez que conforme sua vida chega perto do fim, chega a necessidade passar o título de Suprema do clã para outra bruxa. Incoformada com isto e movida pela vaidade, Fiona chega até o limite para conseguir manter seu título de Suprema, ao mesmo tempo em que precisa lidar com sua inimiga Marie Laveau (Angela Basset) e a aparição inesperada de Madame LaLaurie (Kathy Bates), uma impiedosa mulher que matou e torturou dezenas de negros na época da escravidão americana.

Coven foi a temporada com a maior “liberdade artística” do seriado, por assim dizer. Os que reclamaram da presença inconcebível de alienígenas em Asylum certamente se surpreendeu com a salada de frutas feita por Ryan Murphy aqui, que inseriu, zumbis, minotauros e outros elementos inesperados. O que mais incomodou os espectadores, entretanto, foi o uso constante da necromancia, ou seja, inúmeros personagens morria para serem ressuscitados não muito tempo depois, uma opção narrativa que, para muitos, representou uma espécie de covardia por parte de Ryan Murphy, incapaz de levar sua dramaturgia a novos limites.

Muito disto também pode ser visto na narrativa um tanto descentralizada de Coven, que talvez devido ao enorme número de personagens, por vezes soava apressada demais em levar os plots adiante de maneira mais satisfatória aos olhos do espectador, o que também impedia de Murphy de se centralizar em todos os personagens, o que acabou gerando certa antipatia por certas figuras na tela que pouco (ou nada) possuíam o que fazer, como fora o caso de Kyle (Evan Peters), de longe o rosto mais dispensável da temporada.

O curioso é que, apesar destes empecilhos, o principal foco de Ryan Murphy ainda eram suas personagens femininas, figuras insatisfeitas com suas vidas, deslocadas, personalidades em frangalhos que tentam, de alguma forma, encontrar a si mesmas. Não, o tratamento de Ryan Murphy passa bem longe de ser tão emocional assim, mas não há como negar que Coven é justamente sobre o poder feminino e a ambição do chamado “sexo frágil”, que aqui, passa bem longe de qualquer fragilidade.

E sendo um grande defensor do fascínio exercido pela figura feminina, Murphy deu vida a personagens de personalidade forte, ambiciosas, vingativas, mulheres que desafiam o chamado “papel da mulher na sociedade”. Murphy cria personalidades que soam não apenas como figuras desafiadas e desafiadoras, mas que também funcionam como uma crítica/sátira mordaz e ferina sobre o olhar reducionista que nossa sociedade exerce sobre o sexo feminino.

E não esqueçam que estamos falando de American Horror Story. Inúmeras e deliciosas referências mitológicas são inseridas ao longo da temporada, tal qual a própria Madame LaLaurie e Laveau (mulheres que se tornaram ícones na historia de New Orleans, onde a trama se passa) e a inserção do famoso Axeman, o famoso assassino do machado que aterrorizou New Orleans nos anos 20. O virtuosismo técnico do seriado também permaneceu fortemente presente, embora não tenha chegado perto do histerismo visual de Asylum. Cenários e fotografia permaneciam mergulhados numa leve escuridão carregada de melancolia, e os enquadramentos e truques de câmera permaneceram virtuosos e carregados de um fascínio que enchiam os olhos do espectador.

Coven não conseguiu construir uma boa reputação aos olhos do público, especialmente por ser constantemente comparada a Asylum. Houve tropeços, isso é fato, mas dentro do tema proposto, Coven foi a temporada mais equilibrada e coesa de American Horror Story, nos entregando um texto mais rico e coerente, embora também simplista em diversos pontos. Neste sentido, fica difícil não elogiar a coragem e ousadia de Ryan Murphy, que ao abrir mão do “ultrapassar os próprios limites”, fez desta uma temporada mais sincera e coerente consigo mesma.

E que venha Freakshow!

American Horror Story: Coven (idem, EUA, 2013/2014)
Showrunner: Ryan Murphy e Brad Falchuk
Roteiro: Ryan Murphy, Brad Falchuk, Tim Minear, James Wong, Jennifer Salt, Jessica Sharzer, Douglas Petrie
Direção: Alfonso Gomez-Rejon, Michael Rymer, Michael Uppendahl, Jeremy Podeswa, Bradley Buecker, Howard Deutch
Elenco: Jessica Lange, Sarah Paulson, Taissa Farmiga, Emma Roberts, Evan Peters, Lily Rabe, Frances Conroy, Kathy Bates, Denis O’Hare, Jamie Brewer, Angela Basset, Gabourey Sidibe, Danny Huston, Patti Lupone, Stevie Nicks
Duração: 43 min. (cada episódio)

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.