Crítica | American Horror Story: Freak Show

estrelas 0,5

Ainda em sua temporada de estreia, American Horror Story despontou em 2011 como um resgate a temas clássicos do terror. O projeto antológico idealizado por Ryan Murphy e Brad Falchuck logo caiu no gosto dos amantes e do gênero. Alguns fatores podem ter sido delimitantes para o massivo sucesso da série. Destaco aqui a carência de boas produções de horror na televisão estadunidense, a seleção primorosa de elenco e, sobretudo, a qualidade da obra de Murphy.

Fazendo um uso abundante dos mais rotineiros clichês do terror a primeira temporada, conhecida como Muder House, apresentou uma trama mais enxuta e consistente. Os clichês foram, pouco a pouco, ganhando sentido à medida que a temporada nos conduzia a excelentes referências a antigos longas de terror. Além disso, o roteiro ágil de cada episódio da temporada dava espaço para que personagens se desenvolvessem de maneira mais homogênea, ao passo que as relações entre eles se estreitassem. Ryan Murphy e Brad Falchuck concluem o primeiro ano da produção com os merecidos louros de uma temporada bastante boa. É chegado o momento de saltar um pouco mais alto e partir em direção à megalomania.

Nesse exato sentido, estreava no ano seguinte a segunda temporada da antologia: American Horror Story: Asylum. O ponto de partida seria ambientar uma boa trama de terror em meio às atrocidades praticadas num hospital psiquiátrico da década de 1960. Até aqui tudo está bem, tudo ok, tudo bonito e sensacional! As dúvidas em relação ao bom desenvolvimento da temporada começam com o anúncio do que nos aguardava em Asylum. Vamos relembrar o cardápio que nos foi oferecido ao longo de 13 episódios: loucura, possessão demoníaca, tortura, experimentos humanos em medicina, E.T.s, serial killer. O que esperar disso tudo? Uma iminente catástrofe. Com exceção do episódios fillers, a temporada foi, para mim, uma surpresa. Jessica Lange ganhou mais espaço para fazer uso de seu nato talento, Sarah Paulson esteve excelente como Lana Winters, acompanhada de um maduro Evan Peters e um genial Zachary Quinto. A trama central foi tão boa, mas tão boa, que os desnecessários paralelos com extraterrestres foram rapidamente relevados.

Lembro muito bem quando chegou o anúncio da temporada que viria a seguir. American Horror Story: Coven abordaria o misticismo e a cultura da bruxaria dos Estados Unidos. Na mesma hora pensei: “caramba! O tema é vasto e incrível! Será a melhor temporada!”. Se o primeiro anúncio alimentou minha ansiedade, o segundo elevou minhas expectativas ao infinito: Kathy Bates se juntaria no elenco principal. Kathy Bates = Excelente. Kathy Bates + Terror = Não há melhor combinação possível. Bates de fato não me decepcionou em nada e, sem sobra de dúvida, carregou a temporada nas costas. O que sobrou em Coven foi tudo de pior que poderia haver. Atuações desgastadas, uma narrativa completamente perdida e uma tamanha desconsideração com algumas atuações em detrimento de outras. Concentrar todos os holofotes em Lange, só colaborou para que atrizes excelentes como Kathy Bates e Angela Basset ganhassem destaque, apesar do descaso de Murphy.

Devido às baixas expectativas por conta de Coven, comecei a assistir a Freak Show de maneira despretenciosa. Não esperava muito, mas também não achava que algo poderia ser pior que Coven. Eis que, ao fim da temporada, descubro que sim, algo pode ser muito pior que Coven.

A história se desenvolve no início da década de 1950, nas mediações de Jupiter, uma cidade interiorana do estado da Flórida. Em uma área afastada da cidade, funciona um circo de horrores, administrado por Elsa Mars (Jessica Lange), uma alemã erradicada nos Estados Unidos após a guerra. O show reúne uma variedade de números, como o da mulher barbada (Kathy Bates), do garoto com mãos de lagosta (Evan Peters) e das gêmeas siamesas (Sarah Paulson). A tranquilidade da trupe é atrapalhada pelo palhaço maníaco Twisty, por Dandy, um psicopata mimado por sua mãe, e com a chegada de Stanley e Maggie, dois vigaristas que rodam o circo para matar as cada uma das pessoas de trupe e vender seus corpos a um museu de aberrações.

Os problemas da temporada começam com seu plot. Produzir, em pleno século XXI, uma história de terror sustentada em um show de horrores pode levar a um resultado ineficaz dentro da linguagem do horror, como também pode cumprir com os elementos do terror e desrespeitar todos os limites éticos possíveis.

Dentro desta arapuca, o que Ryan Murphy decide fazer? Sobrepor suas vontades pessoais à trama, ignorar as noções básicas de continuidade e, como sempre, subestimar a capacidade crítica de seu público. Se em Coven, o público foi obrigado a engolir a ressurreição sem limites, em Freak Show, 85% do elenco morre sem quê, nem por quê. A trama que já era fraca, passou a ser substituida por conflitos dramáticos que conseguiram fazer com que atores de excelência aparecessem cada vez mais canastrões.

Novamente, com a faca e o queijo na mão (lê-se Kathy Bates), Murphy opta por desgastar Jessica Lange em mais uma personagem que retrata uma mulher amargurada, decadente, mas que nunca deixa de ser sex symbol (qualquer semelhança com Constance, Irmã Jude e Fiona Good é mera coincidência). A justiça ao menos foi feita com Angela Bassett e Denis O’Hare que ganharam destaque na temporada.

Acredito que Murphy esteve um pouco perdido ao longo da temporada. Talvez o showrunner tenha confundido American Horror Story com Glee, já que os números musicais permearam boa parte dos episódios. Murphy só não esteve mais perdido do que o terror. O pobre do terror desapareceu da série neste ano. Há tudo de Freak Show na 4ª temporada, mas nada de American Horror Story.

American Horror Story: Freak Show (idem, EUA, 2014-2015)
Showrunners: Ryan Murphy e Brad Falchuk.
Roteiro: Ryan Murphy, Brad Falchuk, Tim Minear, James Wong, Jennifer Salt, Crystal Liu.
Direção: Ryan Murphy, Alfonso Gomez-Rejon, Michael Uppendahl, Howard Deutch, Jessica Sharzer, John J. Gray, Anthony Hemingway, Bradley Buecker, Loni Peristele, Michael Goi.
Elenco: Jessica Lange, Kathy Bates, Angela Bassett, Sarah Paulson, Evan Peters, Michael Chiklis, Frances Conroy, Denis O’Hare, Emma Roberts, Finn Wittrock.
Duração: 43 min/episódio.

FILIPE MONTEIRO . . . O exército vermelho no War, os indianos em Age of Empires, Lannister de Rochedo Casterly. Entrou em órbita terrestre antes que a Estrela da Morte fosse destruída, passou pela Alameda dos Anjos, pernoitou em Azkaban, ajudou a combater o crime em Gotham e andam dizendo por aí que construiu Woodburry. Em uma realidade alternativa, é graduando em Jornalismo, estuda Narrativas e Cultura Popular, gosta de cerveja e tempera coentro com comida.