Crítica | American Jesus – Vol. 1: Escolhido

Quadrinhos que utilizam histórias ou personagens religiosos não são exatamente novidade – PreacherLucifer e sem falar, claro, no próprio paralelo de Superman com Jesus Cristo, estão aí para provar isso. Mesmo no caso do grande herói da DC Comics, porém, não é todo o dia que vemos uma figura como Jesus ganhar uma história de origem, nos tempos atuais, como se ele próprio fosse um super-herói. Essa é, mais ou menos, a ideia desse primeiro volume de American Jesus, obra de Mark Millar, que se distancia das histórias sobre criminalidade (e combate a essa) para trazer-nos um conto sobre a chegada do messias nos dias atuais, aproximadamente dois mil anos após a crucificação de Cristo.

A trama nos apresenta Jodie Christianson (percebem as iniciais?), um garoto, de doze anos, como qualquer outro, que, após ter permanecido intacto depois que um caminhão caiu sobre ele, descobre que tem poderes celestiais, podendo curar doenças, transformar água em vinho, dentre outras coisas que a Bíblia diz que Jesus fez. Depois de sua mãe ter revelado que ela e seu pai jamais fizeram sexo, o jovem passa a acreditar que é a reencarnação de Cristo e não demora muito para que toda a cidade o enxergue dessa forma. Há tempos, porém, já existiam planos maiores para ele, algo que ele há de descobrir.

Um dos pontos mais interessantes a ser observado em American Jesus é como Millar insere inúmeras referências aos quadrinhos de heróis, especialmente Superman, ao longo da trama. O simples fato do caminhão ter caído em cima de Jodie já nos remete à clássica imagem de Super levantando um, questão que, claro, dialoga não somente com o aspecto de divindade das duas figuras, como abre espaço para considerarmos a natureza do protagonista dos quadrinhos de Millar. A ideia de Clark estar levantando o carro, na capa de sua primeira aparição, é que ele está salvando outros, enquanto que, em American Jesus, Christianson somente salva a si mesmo (inadvertidamente) e o motorista acaba entrando em coma, traçando o nítido paralelo com a revelação final desse primeiro volume.

Por se tratar de uma história de origem, a trama não se aprofunda muito no que os poderes de Jodie podem significar para o mundo. Millar permanece no raso, por vezes limitando o escopo que sua história poderia atingir, muitas vezes caindo na repetitividade. Ele foca nos impactos desses na cidadezinha onde o garoto vive, mostrando como o encantamento em relação a esses “milagres” pode rapidamente se transformar em um culto. Chega a ser assustador como o menino de doze anos passa a ser visto, de fato, como figura divina, questão levantada pelo próprio texto, em diálogos e balões de pensamento. Millar preocupa-se em mostrar como a mente infantil do garoto encara isso, sempre unindo os acontecimentos principais a aspectos da cultura pop, como Star Wars ou histórias em quadrinhos em geral. Tudo isso permite que enxerguemos o protagonista como uma pessoa normal, alguém mais pé no chão e não uma entidade perfeita com auréola e olhar bondoso.

A arte de Peter Gross certamente capta esse aspecto do roteiro, transmitindo na arte a sensação de ampla normalidade através da caracterização do personagem central. Seu rosto não traz nenhum detalhe específico que o destaque dos outros, ele é apenas um garoto normal. Existe até um certo olhar de malícia, travessura em seu rosto em determinado momento, questão que, claro, dialoga diretamente com o terceiro e último capítulo desse volume, algo realçado pelas cores de Jeanne McGee, que faz uso pontual de tons de azul a fim de transmitir que há algo de errado ali, embora não saibamos exatamente o que.

Dessa forma, American Jesus estabelece esses três capítulos iniciais como uma boa história de origem, que se torna repetitiva em determinados momentos, mas nada que prejudique nosso aproveitamento da obra. Trata-se de uma versão bastante pé no chão sobre a segunda chegada da figura de um Messias, que aparece, dessa vez, sob a forma de um garoto americano de doze anos. Resta torcer para que, no vindouro volume dois, a história ganhe mais profundidade, mostrando como o protagonista irá afetar o mundo.

American Jesus – Vol.1: Escolhido — EUA, 2009
Roteiro:
 Mark Millar
Arte: Peter Gross
Cores: Jeanne McGee
Letras: Cory Petit
Editora original: Image Comics
Data de lançamento original: 25 de março de 2009
Editora no Brasil: não publicado até a data de publicação da crítica
Páginas: 99

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.