Crítica | “American Life” – Madonna

American Life é um álbum polêmico de Madonna. Os escândalos e os debates calorosos acerca de temas considerados inflamáveis não era nada de novo na carreira de uma cantora que desafiou a Igreja Católica no final dos anos 1980 e simulou uma masturbação no palco durante um número específico da sua turnê. O problema desta vez é que a artista havia adentrado na complicada discussão da era Bush nos Estados Unidos, um período de nacionalismo exacerbado, invasões territoriais assumidas cinicamente e a recuperação traumática dos estadunidenses em no pós-11/9. Ao adentrar por este terreno, Madonna sabia exatamente o que estava fazendo, isto é, discutia temas do seu interesse por meio da música, tendo como corrente promissora as discussões midiáticas sobre o assunto que fariam o álbum ser pauta.

Lançado em abril de 2003, American Life possui 49 minutos e 39 segundos (a edição padrão), com produção assinada por Mike Stent, Mirwais Ahmadzai e pela própria cantora. Sem a serenidade e a reflexão meditativa de Ray of Light, Madonna se bifurcou pelo terreno das críticas ao materialismo e ao caminho suado perpetrado pelo american way of life, trajetória praticamente inalcançável para a maioria das pessoas que acabam em depressão e descontentamento, numa sociedade que parece nunca conseguir se “encontrar” consigo mesma, refletir adequadamente a sua condição. A Guerra no Iraque e o fatídico 11 de setembro foram os subtextos para canções que liricamente falavam sobre fama, fortuna, sucesso, faixas que flertaram com a música acústica, com as batidas do dance-pop em simbiose com o rock e o folk.

Nas entrevistas, quando perguntada sobre a questão do materialismo, tema da sua carreira pelo apego da crítica e da mídia ao single Material Girl, de 1985, a cantora revelou que “tinha muitas coisas na vida” e que em algum momento viu que “muitas coisas que eu valorizei não tinha importância”. Para Madonna, “como você pode dizer que o dinheiro não traz felicidade se você não tem muito dinheiro?” ou “como você pode dizer que a fama e a fortuna não são uma garantia de felicidade?”. “Eu tive essas coisas e não tinha nada”, afirmou, “mas tinha o caos ao meu redor”. Ela ainda acrescentou: “eu tenho um diário onde anoto minhas ideias concebidas após a leitura de livros e jornais”. Foi dessa fonte que os temas pesados e indesejados de American Life brotaram. Um dos primeiros é a canção que intitulada o álbum.

Composta por Madonna e Mirwais Ahmadzai, a faixa questiona a futilidade do comportamento estadunidense em muitas representações sociais, com foco na crítica ao árduo processo de invasão do Iraque que foi tema constante em 2003. American Life não foi bem recebida por ser uma canção barulhenta e caótica, interessante pelas discussões, mas relativamente questionável pelas possibilidades de apreciação estética. Conduzida por meio de sintetizadores, repetições de riffs de guitarra acústica e presença forte do drum and bass (som forte e grave do baixo, influenciado pela música jamaicana e mesclado com toques de rock e funk), a faixa traz a presença constante dos vocais morphing, congelamento da voz entre os ritmos, além de vocais gaguejantes como parte da estrutura estilística da canção.

Hollywood é a canção seguinte, parte do conjunto “críticas sociais” do álbum. Assinada por Madonna e Mirwais Ahmadzai, a faixa faz uma crítica ao terreno das ilusões, isto é, os bastidores da vida cotidiana das pessoas que tentam sem sucesso uma carreira em solo hollywoodiano. Com reminiscência dos elementos das discotecas que fizeram a alegria do público no passado, a faixa é conduzida por sintetizadores e tambores, guitarra acústica com sequência de quatro acordes e liricamente se comporta como uma aversão ao ideal olímpico das estrelas de Hollywood em Vogue. De acordo com Madonna, em entrevista, Hollywood é uma canção metafórica, pois o local é um reduto de sonhos e de superficialidade.

No ponto de vista da artista, Hollywood é o local onde é possível esquecer-se de quem você realmente é, sendo assim, abrindo espaço para se perder, ao ganhar uma visão turva do futuro, apresentar falhas na memória, e, concomitantemente, perder-se de maneira geral e deixar de lado coisas mais importantes para a vida. A letra deixa claro que Hollywood é o local para onde todos querem vir, curtir, sentir a atmosfera, mas os elementos atrativos podem tornar-se perigosos e impedir o discernimento de quem está mergulhado no poço de mágoas e falso glamour. Mother and Father, terceira faixa, é crítica, mas calma, com Madonna a falar sobre as lembranças da sua mãe e do relacionamento conturbado em determinado momento da vida com o seu pai.

Easy Rider versa sobre o ciclo da vida; I’m So Stupid traz vocais suaves e congelados, com Madonna a refletir sobre a sua fase como uma “idiota” que estava envolvida demais com a cultura da celebridade; Love Profusion fala sobre amor e relacionamentos por meio de uma interessante condução musical repleta de bumbos e cordas; Nobody Knows Me fala sobre fama e sucesso, reencarnação e espiritualidade, mas metaforicamente pode ser pensada como uma análise da longa trajetória de Madonna no bojo da indústria cultural, uma mulher de identidades múltiplas; Nothing Fails traz a voz de Madonna em baixa frequência, juntamente com vocais de apoio que nos remetem ao coral de uma igreja, tendo presença firme de violoncelos; Intervention versa sobre a busca por um relacionamento que pretende ser duradouro; X-Static Process contempla os estágios vida moderna; e Die Another Day é a música tema do filme homônimo, uma das piores incursões de James Bond no cinema. Música ruim, filme idem.

Na capa, as fotos de Craig McDean reconstroem a famosa foto intitulada Guerrilheiro Heroico, com Che Guevara, num álbum que já afirma seu tom logo pelo superficial, isto é, uma produção que já pode ser “julgada” pela capa. Stuart Price ficou com piano e os sintetizadores, Michel Colombier com a regência da orquestra e o arranjo de cordas das canções mais intimistas e Monte Pittman com a constante presença das guitarras. Dentre as diversas campanhas de divulgação e eventos de lançamento, a participação no VMA 2003 foi a cereja do bolo da fase. Madonna cantou com Britney Spears e Christina Aguilera. O medley de Like a Virgin e Hollywood fez referência ao seu desempenho sensual e inesperado em 1985 na MTV, com Madonna vestida de noiva saindo de um bolo de casamento, além de reforçar as novas alianças da artista, ciente dos novos rumos da cultura pop numa era repleta de concorrentes e públicos que precisava abranger.

O resultado da iniciativa não foi certeiro, pois o álbum e seus singles amargaram algumas derrotas diante de uma parcela do público ofendida pela postura considerada antinacionalista, e com isso, digna de reprovação de pessoas que admiram e vivem com intense o sentimento de ser parte de uma das maiores comunidades imaginadas do mundo. Madonna deixou de tocar em algumas rádios, foi alvo de perseguição por alguns grupos, mas se olharmos para a trajetória da artista, isso já havia ocorrido antes, por meio de outros grupos insatisfeitos com as supostas denúncias realizadas pela cantora entre suas canções e videoclipes. Com carreira solidificada na cultura pop, Madonna se cercou de outros artistas envolvidos na mesma linha crítica política da época, dentre eles, o exagerado e intenso cineasta Michael Moore, para que assim, não ficasse sozinha na linha de frente da “batalha”.

Independente dos problemas de recepção, American Life não foi o fim da carreira de Madonna, ao contrário, deu nova roupagem e experiência para a sua carreira. A turnê que acompanhou o lançamento do álbum é uma das melhores realizadas pela cantora ao longo de suas três décadas de carreira. A Re-Invention Tour é um espetáculo cheio de luz e magia, com Madonna em plena forma a apresentar ao público os seus novos hits, bem como sucessos do passado que estão sempre presentes. A crítica política continuou presente na agenda de Madonna, mas no trabalho seguinte, veio embalada por samples dos anos 1970 e 1980, num dos melhores e mais empolgantes álbuns da cantora, tema da nossa próxima crítica.

Aumenta: Love Profusion.
Diminui: Die Another Day.

American Life
Artista: Madonna
País: Estados Unidos.
Elenco: 21 de abril de 2003.
Gravadora: Warner Bros, Maverick.
Estilo: Pop, música eletrônica e folk, rock.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.