Crítica | American Ultra: Armados e Alucinados

estrelas 3

Pare um minuto e imagine: e se Jason Bourne trocasse a postura e físico de Matt Damon pelas feições magricelas e desengonçadas de Jesse Eisenberg? E se Bourne deixasse de ser um espião para se tornar um maconheiro? E se a Julia Stines na verdade fosse a Kristen Stewart? É uma ideia que por si só já desperta uma curiosidade, e é uma pena que o que American Ultra: Armados e Alucinados (eu já consigo ouvir o locutor da Sessão da Tarde…) atinja seja tão aquém de seu potencial.

Na trama, o pacato Mike Howell (Jesse Eisenberg) passa a maior parte do tempo fumando maconha, desenhando quadrinhos no trabalho e jogando tempo fora com sua namorada, Phoebe (Kristen Stewart). Certa noite, ele começa a misteriosamente ser perseguido por agentes do governo, e também descobre um leque sobrenatural de habilidades de luta e resistência.

É, a lembrança de Bourne é instantânea, e o roteiro de Max Landis tenta brincar com essa ideia. Só a visão de Eisenberg arrebentando soldados em cenas de luta absurdamente coreografadas e violentas já salta ao olho, ainda mais quando a arma do protagonista é uma colher; uma clara piada ao fato de Jason Bourne escolher os mais pacatos objetos para trucidar seus oponentes. Aliás, toda a composição visual do longa é fascinante, como estivesse se assumindo como uma história em quadrinhos em movimento, desde a paleta de cores vívida adotada pelo diretor de fotografia XX – incluindo uma memorável briga numa sala iluminada com luz negra – até os enquadramentos dinâmicos (como um plongée que traz o protagonista debruçado sobre o mesa perfeitamente simétrica) e o próprio figurino das personagens: a agente de Connie Britton usa um nada discreto sobretudo verde com óculos escuros e praticamente todos os agentes da CIA usam ternos similares, quase que representando uma organização sem face. Aliás, Topher Grace surge divertido como o antagonista central, dando vida a um sujeito sarcástico e dominador, ainda mais considerando que… Bem, tem a cara do Topher Grace, o que não é muito intimidador.

Tirando esse cuidado estético e o ritmo pontualmente agradável – mérito dos montadores Andrew Marcus e Bill Pankow -, não há muito que torne American Ultra algo realmente excepcional. O grande  problema é a confusão temática, já que nem Landis nem o diretor Nilma Nourizadeh (de Projeto X) sabem o tipo de filme que querem fazer; seria uma comédia? Uma paródia? Um thriller de espionagem? Mesmo claramente soando como uma sátira de Bourne, há momentos do longa em que as coisas ficam perigosamente sérias, criando assim um longa inconsistente em tom.

A reviravolta que envolve a personagem de Kristen Stewart também é difícil de aceitar, ainda mais considerando que a performance da atriz pouco se altera após a nova informação. Já Jesse Eisenberg faz exatamente o mesmo papel que tem se limitado a fazer em seus projetos pós-A Rede Social, o que não deixa de torná-lo uma figura adorável e de fácil identificação. E que bela cabeleira.

Longe de ser uma obra memorável, American Ultra é quase uma revistinha pulp de qualidade duvidosa, mas que funciona como um entretenimento escapista graças à seu estilo e dinamismo.

American Ultra: Armados e Alucinados (American Ultra, EUA – 2015)
Direção:
Nilma Nourizadeh
Roteiro: Max Landis
Elenco: Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Connie Britton, Topher Grace, John Leguizamo, Tony Hale, Walton Goggins, Bill Pulman
Duração: 96 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.