Crítica | American Vandal – 1ª Temporada

Quando a Netflix anunciou American Vandal entre suas próximas produções, liberando juntamente um trailer, provocou as reações mais diversas no público. Grande parte acreditou que não passava de uma piada do serviço de streaming, bem típica de um primeiro de abril. Só que não se tratava do dia da mentira. American Vandal, por mais ridícula que possa parecer a primeira vista, é uma série que realmente recebeu sinal verde.

Produzida por uma equipe pouquíssima conhecida – desde os criadores e produtores, até o elenco – se trata de uma grande sátira a documentários de investigações de crimes reais, os famosos true crimes documentaries. Na trama, estamos diante de um documentário produzido pelo jovem cinéfilo Peter Maldonado (Tyler Alvarez) investigando o curioso caso de vandalismo ocorrido no estacionamento de uma escola em Oceanside, Califórnia: 27 carros pichados com desenhos fálicos. Peter vai fundo em busca da verdade, tentando descobrir se o principal suspeito do crime, Dylan Maxwell – um aluno problemático e obcecado por desenhar pintos – realmente seria o culpado.

Como pode ver, o enredo por si só já se mostra uma grande piada, uma clara sátira aos típicos documentários investigativos. No entanto, não pense que estamos diante de um programa interessado em satirizar da forma mais baixa possível, apenas juntando uma imensa quantidade de piadas de besteirol, como vemos em centenas de produções por aí. American Vandal surpreendentemente se leva a sério desde o início e pode deixar o telespectador confuso sobre seu real propósito. Uma obra autêntica que faz uso de diversas linguagens cinematográficas, indo desde o drama investigativo até ao humor negro com extrema precisão, sabendo instigar curiosidade tão bem quanto rir.

Afinal, resumir American Vandal a uma simples sátira é arranhar apenas a superfície da série. Temos aqui uma crítica excelente aos vários problemas da educação americana, um drama investigativo de deixar o telespectador completamente preso na poltrona e, principalmente, um tapa na cara de uma sociedade obcecada por rotular indivíduos. A série atinge seu objetivo com perfeição uma vez que, repleta de tantas camadas não óbvias, se mostra irrotulável – não se trata de somente uma comédia, ou somente um drama, mas de um amálgama de vários gêneros. Ou seja, aplica a si mesma a mensagem de que nem tudo é o que aparenta, de como rótulos podem ser problemas sérios da sociedade moderna.

É surpreendente se deparar com atuações tão boas vindo de um elenco de rostos totalmente desconhecidos. Jimmy Tatro (Dylan Maxwell), o grande protagonista da obra, possui um timing de comédia impressionante, fazendo um verdadeiro imbecil sem apelar para interpretações demasiadamente caricaturais. Dylan é um personagem extremamente crível, um retrato praticamente perfeito do estereotipado bully americano, sem se prender a grandes exageros. Demais destaques ficam com a dupla de “investigadores” interpretada por Tyler Alvarez e Griffin Gluck, muito bem entrosados em uma química juvenil de “policial bom, policial mal”, também satirizando muito bem as particularidades de documentaristas. E a lista de atuações/personagens que roubam a cena é grande: como não citar o odiável e hilário Alex Trimboli (Calum Worthy), a polêmica Christa Carlyle (G. Hannelius), ou o professor desbocado Mr. Kraz (Ryan O’Flanagan)?

A obra também merece aplausos por sua riqueza em detalhes. A direção e trilha sonora da série, do início ao fim, alimenta o suspense da trama e replica a mesma montagem instigante e bem estruturada de documentários como Making a Murderer e o famoso podcast Serial, que é inclusive citado por Peter na série. Acima de tudo, vale atentar para o cuidado do roteiro que, embora possa às vezes parecer dar voltas demais, constrói uma narrativa extremamente circular que, no fim das contas, não deixa barrigas ou pontas soltas. O arsenal de fotos, vídeos e entrevistas catalogados durante os 8 episódios é tão vasto que permite facilmente um mergulho na história como se fosse realmente baseado em eventos reais. Dado momento, você apenas se deixará imergir por completo no mistério e se perguntará incessantemente a inquietante (e risível) pergunta: “Quem pichou os pintos?”.

American Vandal tem potencial para se tornar o mais novo sucesso da Netflix, mas apenas se o público ultrapassar a estranheza inicial de sua trama e seu formato pouco popular entre massas (documentário). O que séries como 13 Reasons Why tentam proclamar ao longo de 13 longos episódios, Peter Maldonado resume de forma emocionante nos dez minutos finais da temporada. No fim, a sensação que fica é que estávamos diante de um grande truque de mágica. Enquanto fomos atraídos por um enredo aparentemente bobo, feito apenas para garantir risadas fáceis, mergulhamos em um mistério irresistível e somos arremessados a uma série de questionamentos sobre identidade e pré-julgamento.

American Vandal – 1ª Temporada — EUA, 2017
Showrunners: Dan Perrault, Tony Yacenda
Direção: Tony Yacenda
Roteiro: Dan Perrault, Tony Yacenda, Seth Cohen, Amy Pocha, Mike Rosolio
Elenco: Tyler Alvarez, Griffin Gluck, Jimmy Tatro, Camille Hyde, Eduardo Franco, Camille Ramsey, Calum Worthy, Lou Wilson, Jessica Juarez, Joe Farrell, G. Hannelius, Karly Rothenberg, Ryan O’Flanagan, Sean Carrigan, W. Thomas Henry, Myles Brewer, Saxon Sharbino, Lukas Gage
Duração: 30 minutos por episódio (8 episódios no total)

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.