Crítica | Amizades Improváveis

estrelas 3

O livro The Revised Fundamentals of Caregiving, de Jonathan Evison, foi publicado em 2012 nos Estados Unidos e consagrou o que já se falava sobre o autor, sua forma honesta, emotiva e muito realista de narrar problemas pessoais que encontram uma espécie de cura inesperada, oferecendo oportunidades de mudança e novas formas de ver o mundo para seus personagens e para seus leitores.

O diretor, produtor e roteirista Rob Burnett — que em seu currículo tem como destaque a série Ed (2000 – 2004) — adquiriu os direitos para uma adaptação cinematográfica que demoraria dois anos para ser iniciada, com as filmagens oficialmente abertas em janeiro de 2015 e os direitos de distribuição comprados pelo Netflix logo após a premiere do longa no Festival Sundance de Cinema. Com Paul Rudd e Craig Roberts nos papeis principais, a obra retrata as experiências de Ben, um cuidador de primeira viagem (Rudd) que precisa acompanhar o dia a dia do jovem Trevor (Roberts), que sofre de distrofia muscular.

A viagem de carro através de uma longa distância com o objetivo de alcançar ou descobrir alguma coisa lembra bastante o longa argentino Camino a La Paz (2015), especialmente porque as condições de ambos os passageiros é de debilitação e a condição dos motoristas é de um cuidador que faz duas viagens em uma, a primeira, através do espaço geográfico enquanto dirige, e a segunda, olhando para si mesmo, descobrindo o mundo através de algo que falta ao outro.

Ocorre que a relação entre cuidador e cuidado aqui em Amizades Improváveis se dá antes da viagem e põe em cena ótimos diálogos, discussões e situações entre Paul Rudd e Craig Roberts que trazem um novo fôlego para tramas com personagens portadores de necessidades especiais e sua relação com aqueles que zelam por eles. O já citado tom de realidade que o livro possui vem para o roteiro com toda a força, humor (às vezes bastante amargo) e lições nada moralistas que nos espantam um pouco pela crueza com que são ensinadas — digo isto apenas pelo tipo de filme e público-alvo de Amizades Improváveis, pois é claro que podemos falar de filmes mais densos com o mesmo tipo de crueza no trato com debilitados, tais como Mar Adentro (2004) ou O Escafandro e a Borboleta (2007) –. Esse tipo de abordagem no início é importante porque o miolo do filme acaba por não se diferenciar muito dos road movies de descoberta com pitadas de romantismo, o que descaracteriza um pouco o tom inicial da fita, porém, não de um modo totalmente negativo.

A entrada de Selena Gomez (Dot) e posteriormente de Megan Ferguson (Peaches) na história, pode ser vista, a princípio, como um ponto positivo, evoluindo para algo mais negativo pela forma incompleta com que o roteiro dá conta de seus blocos dramáticos. A história principal se mantém, mas a um custo alto, especialmente na abordagem cambaleante para uma rápida paixão entre Trevor e Dot. Selena Gomez me impressionou pela dinâmica de construção de sua personagem. Para o tipo de jovem rebelde e despreocupada que interpreta, não poderia ser diferente. Mais para o final, quando de sua saída de cena, ela vai fraquejando, mas isso se deve mais ao roteiro, que cai bastante de qualidade nessa parte do filme, do que à própria atriz.

Rob Burnett faz aqui um “filme de ator” e, considerando esse aspecto, nos entrega um bom trabalho, especialmente no destaque que dá a Rudd e Roberts, uma dupla improvável que funciona de maneira hilária em cena e tem elogiáveis interpretações do começo ao fim. É dessa boa dinâmica que a relação entre os personagens se torna mais verdadeira e os diálogos se tornam mais reais, às vezes cruéis e injustos, às vezes belos e fraternos. Outro ponto positivo é que o texto segue a honestidade do livro e não trata o personagem de Craig Roberts como um coitado, mas como alguém com um enorme muro em torno de si e que, como qualquer outro jovem com baixa estima e muito medo, além de uma condição de saúde nada favorável, pode ser alguém adorável ou babaca, dependendo a circunstância.

Os flashbacks para o passado de Ben são desnecessários, já que o conteúdo daquele momento é explicado, algumas vezes, no decorrer do filme. Mesmo assim, o peso da cena e a intenção do diretor em delinear a culpa do personagem acabam fazendo valer, ao menos em intenção, esse tipo de cena. De resto, Amizades Improváveis é um filme despreocupado, divertido, com ótimas atuações, boa trilha sonora e bela fotografia noturna. Depois do terrível Zerando a Vida, o Netflix nos traz algo que realmente vale a pena assistir. Ainda bem.

Amizades Improváveis (The Fundamentals of Caring) — EUA, 2016
Direção: Rob Burnett
Roteiro: Rob Burnett (baseado no livro de  Jonathan Evison)
Elenco: Paul Rudd, Selena Gomez, Craig Roberts, Bobby Cannavale, Jennifer Ehle, Frederick Weller, Megan Ferguson, Ashley White, Robert Walker Branchaud
Duração: 97 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.