Crítica | Amnésia (2000)

estrelas 4,5

Dois anos após o início de sua carreira nos longas-metragens, com Following, Christopher Nolan adentra novamente na psiquê humana através de mais uma narrativa não-linear. Mantendo um tom similar ao que vimos em seu filme anterior, o diretor logo se firma, com Amnésia, como um dos mais promissores de Hollywood deixando sua clara marca, por mais distinta que uma obra seja da outra, bastando observarmos Batman Begins e A Origem para termos tal visão com clareza.

Amnésia, porém, se distancia do que já vimos em outros filmes com narrativas entrecortadas, com sequências em tempos distintos, como Pulp Fiction. Neste seu segundo longa, Nolan nos coloca no lugar de seu protagonista, Leonard (Guy Pearce), um homem que sofre com perda de memória recente (e não amnésia como o título erroneamente afirma) e que busca encontrar o assassino de sua esposa. Para isso, ele deve reconstituir, constantemente, as descobertas de sua investigação e viver uma vida que funciona, ao mesmo tempo, no sentido normal e de trás para a frente. O filme consegue ilustrar essa sensação do personagem com exatidão, ao assumir dois tempos diferentes para a história. O primeiro coloca as sequências do presente para o passado e intercalando cada uma dessas temos cenas, em preto e branco, que se passam, efetivamente, no princípio desta trama.

Parece confuso, mas, de fato, não é. Nolan sabiamente oscila entre esses dois períodos, deixando claro em que momento da narrativa estamos – justifica-se, portanto, a escolha do preto e branco. Do ponto de vista da montagem, essa escolha é ainda mais precisa, pois não causa um estranhamento no espectador, tornando orgânica a união das sequências em tempo reverso. Mas não é simplesmente colocar tudo de trás para a frente que faz Amnésia ser o que ele é. O roteiro é inteiramente pensado nesta estrutura, inserindo diversos twists ao longo da projeção. O clímax, que monta todo o quebra-cabeça, está no fim do filme e no início da história. Portanto, se simplesmente remontarmos o longa em uma estrutura clássica, retiraremos todo o seu impacto, fator que também podemos observar em outros exemplos como o já citado Pulp Fiction (o precursor recente de tais obras) e Kill Bill vol.1.

Ainda mais interessante é a crescente sensação de caos que Nolan consegue nos passar. E o crédito não é só da montagem neste aspecto, como também da fotografia de Wally Pfister, que aqui firmou sua parceria com o diretor e que se manteria até O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Criando essa inconstância tão inerente ao protagonista, vemos a utilização de uma câmera mais estática, mas com enquadramentos inclinados nos momentos precisos de maior confusão do personagem. Aliados a uma trilha atmosférica, que somente se faz presente em poucos momentos, temos a criação ideal de um tom de confusão, por mais que a trama se desenrole de forma clara.

Chegamos, então, no fim, com fluidez, através de um ritmo que lentamente acelera, assumindo sequências mais curtas para entregar o “golpe final”. Neste ponto, quando recebemos a peça final do quebra-cabeça, o filme sofre um leve deslize, resolvendo o mistério por intermédio de diálogos, enquanto que isso poderia ter sido com o uso de iamgens e de situações, como no restante da projeção. Nos é passada a impressão que Nolan subitamente decidiu resolver a grande pergunta motivadora de sua obra. Instantes após, contudo, o longa se conserta trazendo uma reviravolta de deixar qualquer um com um sorriso no rosto, reconhecendo a inteligência do roteiro em questão.

Amnésia, portanto, não é um filme revolucionário, como muitos o classificam. É sim uma obra fluida, de roteiro inteligente e montagem decisiva, que consegue nos prender em uma caótica espiral do início ao fim. Christopher Nolan, definitivamente, deixa sua marca através de uma obra que, facilmente pode ser classificada como uma das melhores de sua bem-sucedida filmografia.

Amnésia (Memento – EUA, 2000)
Direção:
Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan (baseado no conto de Jonathan Nolan)
Elenco: Guy Pearce, Carrie-Anne Moss, Joe Pantoliano, Mark Boone Junior, Jorja Fox, Stephen Tobolowsky, Harriet Sansom Harris, Callum Keith Rennie.
Duração: 113 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.