Crítica | Amor à Distância

Amor à Distância é um filme sobre as possibilidades da manutenção dos relacionamentos com o encurtamento das distâncias, haja vista o avanço tecnológico da sociedade da informação no final da primeira década dos anos 2000, período que contava com uma série de recursos da era predecessora ao whatsapp e demais redes sociais. O amor, neste segmento, agora é colocado à prova quando entramos nas contradições da era virtual, pois ao mesmo tempo em que temos a possibilidade de passar várias horas em conexão com os nossos “afetos”, adentramos também na era de intensificação do processo de liquidez dos relacionamentos. Diferente do questionamento sobre obstáculos em filmes como Abaixo o Amor e Em Luta pelo Amor, surge a pergunta: há obstáculos para amar com tantos recursos facilitadores?

Nanette Burstein dirigiu o roteiro assinado por George LaTulippe, isto é, a história de Garret (Justin Long) e Erin (Drew Barrymore), um casal de jovens que se conhecem numa inusitada discussão durante um jogo, mas que logo adiante, saem para beber e conversar. Ambos acabam apaixonados, mas há algo que pode atrapalhar os “planos do coração”: em seis semanas a garota precisará viajar para São Francisco, pois os seus compromissos com a faculdade não podem ser adiados. O que fazer? Inicialmente eles topam enfrentar os desafios.

Os problemas começam a surgir depois. É preciso enfrentar os fusos horários, os telefonemas constantes para suprir a necessidade do contato físico, as conversas via chat e o envio de SMS, tendo em vista manter a saúde do relacionamento. Adultos, os personagens não pensam em soluções fáceis. Ela sabe que não existe príncipe encantado e ele sabe que ela não é uma das heroínas românticas que topam adentrar no obscuro caminho da anulação feminina. Diante do exposto, segue a resposta para o questionamento anterior: não estamos na Idade Média, tampouco diante das modalidades de comunicação mais precárias dos anos 1960, mas os obstáculos continuam presentes quando o assunto é relacionamento amoroso, mesmo na era da cibercultura e das “maravilhas do mundo tecnológico”.

Com uso dos clichês para favorecer determinados elementos narrativos, Amor à Distância trafega pelo realismo sem optar por desfechos trágicos e lacrimejantes, ao contrário, é maduro e alimenta os anseios expostos pelos protagonistas, apresentados ao longo dos 102 minutos de duração, uma narrativa que talvez pudesse ser um pouco menor e mais ágil, caso a montagem de Peter Teschner conseguisse suprimir alguns elementos pouco essenciais. O design de produção de Kevin Kavanaugh e a direção de fotografia de Eric Steelberg seguem a cartilha básica dos manuais de cinema, sem grandes trunfos, tal como a condução musical de Mychael Danna.

Com diálogos que evitam a polidez dos discursos, o filme oferta ao espectador personagens bem realistas, mergulhados no conturbado mundo cibernético, ambiente que exige cada vez mais das pessoas, num ciclo de individualismo e exaustão que muitas vezes não reflete posturas puramente egoístas, mas retratam personagens em busca da sobrevivência. Os protagonistas já não vivem os flertes da adolescência, tampouco a caminhada tranquila dos vinte anos, ao contrário, são adultos oriundos de uma cultura opressora que exige profissionais bem resolvidos e sucedidos quando alcançam a faixa dos trinta anos. Qualquer gota de sentimentalismo precisa ser ressecada quando o que está em jogo é o sucesso profissional ou a manutenção do status.

Dentre os destaques temáticos e contextuais, Amor à Distância é um que nos mostra como a cibercultura modificou o imaginário sobre o amor na sociedade, numa demonstração sobre a vulnerabilidade de conceitos considerados cristalizados. Há tempos já vivemos diante de um panorama onde as sociabilidades ultrapassaram as fronteiras geográficas, tendo como possibilidade o compartilhamento de nossas experiências e interesses por meio de informações através de contatos contínuos. É uma modalidade de vida “libertária” e “comunitária” com um feixe de tecnologias móveis que nos permite maior mobilidade, independência e dribles no que tange aos aspectos do tempo e espaço, elementos que de maneiras variadas, impactam também nos relacionamentos amorosos e afetivos, haja vista os protagonistas do filme e os casos reais que pululam ao nosso redor cotidianamente.

Amor à Distância — (Going The Distance) Estados Unidos, 2010.
Direção: Nanette Burnstein
Roteiro: Geoff LaTulippe
Elenco: Drew Barrymore, Justin Long, Adam Harrison, Addison LeMay, Anna Gorecky, Benita Robledo, Carole Davis, Cass Buggé, Charlie Day, Charlie Hewson, Christina Applegate, David Bologna, Ethan F. Hamburg, Graham Davie, Happy Anderson, Jason Sudeikis
Duração: 102 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.