Crítica | Amor à Primeira Briga

estrelas 3

Há uma interessante brincadeira aqui, um jogo com os estereótipos do masculino e do feminino – este é talvez o grande diferencial de Amor à Primeira Briga. No entanto, o filme segue à risca aquele clichê máximo do romance, em que os pares a princípio se desprezam… para depois se amarem intensamente. Ou seja: ainda que exista uma roupagem diferenciada no que se refere ao “modelo do casal”, a mesmice que assola a estrutura de roteiros de inúmeros filmes de romance pode ser facilmente identificada em vários momentos deste.

O caráter esquemático está ali, bem claro: os pares se estranham (eles não são nem um pouco compatíveis!); depois um deles é repelido pelo outro em todas as suas investidas (o outro é tão distante, frio, até mesmo rude!); depois surge a possibilidade do diálogo (em meio a incompatibilidades mil, há sempre uma brecha para o diálogo transformador)… até que eles começam a criar intimidade e o “inesperado” acontece: é o Amor, que mexe com a cabeça deles e os deixa assim.

No caso de Amor à Primeira Briga, um integrante do par, a Madeleine é uma pessoa extremamente desagradável e, digamos, masculina. Já Arnaud é um pobre inocente que sente a necessidade de se aproximar daquela figura sem ao menos ter ideia de como fazê-lo. Suas investidas iniciais são catastróficas, e a garota não contribui muito para que o constrangimento de cada investida fracassada seja minimizado – na verdade ela não faz a mínima questão de contribuir com absolutamente nada: ela é uma “combatente” (referência ao título original), com olhos apenas para a sua própria sobrevivência.

A fotografia em tons claros lembra um verão idílico e ajuda a criar a atmosfera de “filme francês indie” – o céu que vemos ao claro parece até céu de desenho animado. É um filme bonito de se ver, embora não apresente nada de novo no âmbito da estética; nem de novo, nem de instigante ou desafiador, há de se dizer. Mas tudo bem: é simpático, às vezes quase infantil.

Conforme o filme segue desbravando a mata junto de seus apaixonados combatentes, a fotografia assume tons mais sombrios, resultando em quadros tão bonitos quanto os apresentados anteriormente, mas agora dotados de um significado novo e vital para a narrativa. A selva vai colocar a relação daqueles dois à prova, e não só isso: em termos mais amplos, é a sobrevivência dos dois – considerando-se então a individualidade de cada um – que está em questão.

Ao mesmo tempo em que peca por se apegar a artifícios banais de roteiro, Amor à Primeira Briga merece créditos por escalar protagonistas que fogem ao estereótipo de Beleza normalmente exigido pela Mídia – e assimilado pelo Grande Público. O casal que nós é apresentado aqui poderia esbarrar com qualquer um de nós na rua. Eles são “palpáveis”, eles são reais.

É um filme que bate insistentemente nessa tecla de “bagunçar os estereótipos” e acaba ficando limitado a isso. Ou seja, não há muito para onde ir a não ser reafirmar sem pudor esta “novidade” que ele traz. É nisso que Amor à Primeira Briga se apoia, o que não seria um problema de verdade caso houvesse qualquer outro tipo de apoio que sustentasse as demais “pernas” do filme. Sendo assim, não é à toa que para muitos a experiência ao final da sessão pode revelar-se rasa. Para mim, foi algo próximo disso.

Mas existem também os momentos inspirados, de brilho: ver Arnaud, ao ser rejeitado por Madeleine, entrando na praia de noite depois de uma noite agitada numa boate é de partir o coração. E perceber como Madeleine faz com que Arnaud reconsidere sua vida e sua profissão é outra dor. Testemunhar Arnaud no exército maquiando Madeleine e ao mesmo tempo explicando para ela as técnicas que envolvem tal arte equivale às duas cenas anteriores em graus de impacto e importância. O filme cresce nesses momentos: ganha peso e dramaticidade. Fica mais interessante de ser acompanhado. Os papos nonsense entre rapazes limitados dão lugar a um conflito verdadeiro que só tende a crescer conforme Arnaud se envolve mais e mais não só com a figura de Madeleine, mas também com sua personalidade forte, que é afinal o que o faz reconsiderar coisas de sua própria vida. A garota é um elemento-chave que propulsiona uma vontade de mudança no garoto: a força de sua personagem reside aí.

Quanto ao romance em si, pode se dizer o seguinte: o primeiro beijo vem de uma investida dele em uma cena bonita, despida de romantismos melosos e artificiais. O segundo beijo é investida dela, depois de um diálogo sobre “sobrevivência” – Sobrevivência que, corrijam-me se eu estiver errado, é o tema do filme. O romance então seria uma espécie de tela de fundo colorida para uma ação cinza que se desenvolve bem diante de nós.

“Vida é o inverso do que você faz”, ele fala para ela em determinado momento. E então chegamos à última cena…

… que nos revela tudo o que precisávamos saber: trata-se, afinal, de um mero feel good movie – com aquele especial toque francês, é claro.

Amor à Primeira Briga (Les Combattants) – França, 2014
Direção: Thomas Cailley
Elenco: Adele Haenel, Kévin Azaïs, Antoine Laurent, Brigitte Roüan, William Lebghill, Thibaut Berducat, Nicolas Wanczycki, Frédéric Pellegeay, Steve Tientcheu, Maxime Mège, Clément Allemand, Barbara Ayse, Coumba Seck
Roteiro: Thomas Cailley
Duração: 98 min

KARAM . . . Desde 1992, o ano em que foi apresentado ao mundo por duas admiráveis criaturas que logo se identificaram como "pais", Karam vem se aventurando pelos caminhos da Arte, da maneira que pode. Na música, Aretha Franklin é a sua pastora. Na Literatura, andou se entendendo muito bem com Clarice Lispector e Oscar Wilde. Embora faça faculdade de Cinema, não esconde que seu filme preferido – ao contrário do que muitos poderiam presumir – não é nenhum cult de Bergman ou Fellini, mas sim O Rei Leão; é!, aquele lá mesmo, da Disney. Um dia leu, em Leminski, que "isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além" e, assim, resolveu investir na ideia proposta pelo poeta para, quem sabe um dia, chegar ao além sem precisar passar pelo infinito – que é a pra não ter a infelicidade de esbarrar com o Buzz Lightyear no meio do caminho (fora, concorrência!).