Crítica | Amor à Segunda Vista

estrelas 3,5

Amor à Segunda Vista é um filme cheio de diálogos frenéticos e abordagem inteligente para uma comédia romântica, gênero condenado por alguns cinéfilos e especialistas por oferecer prazeres imediatistas, acusado de incentivar o público a não adquirir apuração estética, isto é, uma manifestação artística cheia de “respostas padronizadas” que não estimula o intelecto e promove uma espécie de alienação de seus consumidores.

Tais ideias estão presentes em Teoria e valor cultural, artigo que integra a coletânea do intelectual David Connor no livro Valor do prazer, prazer do valor. Trocando em miúdos, as reflexões do autor gravitam em torno da falta de qualidade do gênero, pois com base em suas análises, as comédias românticas fazem parte de um gênero menor esteticamente, além de pouco inteligentes e óbvias, um fato que por sua vez, nunca impediu a boa relação com o mercado.

Com uma brilhante parceria entre Sandra Bullock e Hugh Grant, o filme faz rir, não ofende ninguém e mesmo com os defeitos que sua estrutura narrativa apresenta, consegue ser diferente das tantas comédias açucaradas e clichês que inundaram os cinemas nas décadas de 1990 e 2000.

Sob o roteiro e a direção de Marc Lawrence, profissional que já havia trabalhado com Sandra Bullock em Miss Simpatia, o filme nos mostra a atriz como Lucy Kelson, uma advogada fora do comum especializada em Direito Ambiental e em procurar problemas. Moradora de Nova York. Os seus dias mudam quando ela encontra o ricaço Wade (Hugh Grant), um bobalhão magnata que atua no setor imobiliário.

Os seus destinos se cruzam quando ela decide evitar a destruição de um centro comunitário, não apenas por questões ambientais, mas por conta da relação memorialística com o espaço. Ele, dono do local, decide escutar o que a moça tem a dizer, o que culminará na contratação da advogada para cuidar de sua assistência jurídica. Mesmo ciente da postura do chefe, Lucy vê na oportunidade uma chance de proteger o centro comunitário. O que ela não previa é que o tal cargo lhe tiraria a paz cotidiana, pois Wade é carente e imaturo, tanto nas relações pessoais quanto profissionais. Irritada, ela deixa uma mensagem de demissão, treina a novata June (Alicia Witt), no entanto, percebe-se apaixonada pelo chefe e um clima de ciúme e disputa com a recém-contratada se estabelecerá.

Sem grandes projeções no que diz respeito aos aspectos técnicos, o filme cumpre bem a gramática do cinema com seus enquadramentos fechados, direção de fotografia seca, sem dispersões, algo que funciona bem com o “verde” ausente em quase todas as cenas, uma metáfora providencial para um filme que traz como protagonista uma advogada especializada em meio ambiente.

Com muitos bons momentos, o filme peca pela presença desnecessária de alguns coadjuvantes. Sandra Bullock e Hugh Grant seguram bem o filme e o tornam bastante agradável, sendo assim, os personagens que não estão na linha de frente surgem em muitos trechos como descartáveis ou meros elementos para compor o quadro, o que não soa como algo interessante num roteiro cheio de diálogos inteligentes.

Como dito, a trama consegue se segurar graças ao carisma da dupla protagonista: ela uma mulher tipicamente urbana, imersa na cultura estadunidense; ele, um “playboy” britânico com sotaque bastante acentuado. Com gags e boa dosagem do crowd pleaser (tramas leves, agradáveis e de fácil digestão intelectual), Amor à Segunda Vista exala amor, ironia e bom humor por todos os poros.

A crítica na época o considerou razoável, o que não impediu o estrondoso sucesso financeiro. Lançado em 2002, Amor à Segunda Vista oferta ao espectador 101 minutos de situações divertidas, descompromissadas e longe da escatologia, um recurso utilizado em muitas comédias da época para promover o riso. Produzido por Sandra Bullock, o filme é uma daquelas narrativas que não trazem grandes novidades, entretanto, promove o encontro entre dois atores que sabem lidar muito bem com a comédia e o romance, além da química perfeita em cena, elemento fundamental para este tipo de realização cinematográfica.

Amor à Segunda Vista (Two Weeks Notice) — Estados Unidos, 2002
Direção: Marc Lawrence
Roteiro: Marc Lawrence
Elenco: Sandra Bullock, Alicia Witt, Dana Ivey, David Haig, Dorian Missick, Heather Burns, Hugh Grant, Jonathan Dokuchitz, Katheryn Winnick, Robert Klein.
Duração: 100 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.