Crítica | Amor Bandido

Quatro-meia-estrelas

Lançado em circuitos de festivais ainda em 2012 (em Cannes, onde concorreu à Palma de Ouro e Arras), Amor Bandido continuou por esse caminho em 2013, despontando em Sundance e RiverRun até ganhar um lançamento limitado e depois mais amplo em circuito americano em abril de 2013. Houve dificuldade na negociação dessa produção, que partiu de um conceito de seu diretor e roteirista Jeff Nichols já em 1990. Todos os seus percalços para colocar o filme na lata e seu lançamento fracionado acabou gerando um interessante status de film cult logo em seu nascedouro.

Mas a pouca divulgação comercial de Amor Bandido não deveria fazer com que os espectadores torçam o nariz para a fita. O resultado é uma obra muito interessante que reúne os batidos – mas importantes – temas do amadurecimento de jovens e da descoberta do amor e do sexo em uma trama que também aborda a desilusão do amor e a separação. Ao tratar do começo e também do fim de relacionamentos – com uma boa dose de filme policial no meio – Nichols é muito bem sucedido ao retirar Amor Bandido da vala comum de obras dessa natureza, elevando-o ao status de pequena obra prima.

E muito da qualidade de Amor Bandido vem da atuação de Matthew McConaughey, ator que, devagar e sempre, vem se mostrando como um dos melhores de sua geração. Imaginado por Nichols como a pessoa ideal para o papel desde que primeiro pensou no roteiro, McConaughey vive Mud (“lama” em inglês e também o título original do filme, termo bastante descritivo de sua situação amorosa), um foragido da policia que se esconde em um barco abandonado que, na última enchente do Mississippi em Arkansas, acabou repousando no topo de uma árvore. Ele é achado por dois meninos, Ellis (Tye Sheridan) e Neckbone (Jacob Lofland) e os três – mas especialmente Ellis e Mud – forjam um estranho laço de amizades.

Mud voltou ao Arkansas para buscar sua amada, Juniper (Reese Witherspoon) e os meninos se compadecem e se identificam por essa cruzada romântica e partem a ajudá-lo trazendo comida e material para o conserto do barco, além de fazer contato com Tom Blankenship (o sempre excelente Sam Shepard), uma espécie de pai para Mud. Ao mesmo tempo em que vemos essa relação se desenvolver, passamos a acompanhar Ellis mais de perto e aprendemos sobre seus próprios problemas e desejos.

Refletindo talvez o amor não correspondido de Mud e sua solidão, Ellis apaixona-se por uma menina mais velha e tem que lidar com a iminente separação dos pais, separação essa que também ameaça seu lar, uma vez que leis recentes determinaram que casas flutuantes fossem retiradas do rio. O paralelismo das relações pode soar coincidente e forçada, mas Nichols consegue, a partir de um roteiro inteligente e bem construído, nos presentear com um filme de rara beleza.

McConaughey, com sotaque carregado e uma expressão constante de cachorro abandonado, faz um de seus melhores papeis dramáticos, um que logo atrai a atenção do espectador da mesma maneira que os meninos são atraídos por Mud. Sua obsessão com Juniper é dolorosa e fica ainda mais gritante quando a própria Juniper, graças aos garotos, reentra na vida de Mud. Reese Witherspoon, que nunca contracena com McConaughey, sempre foi uma atriz limitada, mas, aqui, ela realmente consegue se livrar das amarras de seus papeis anteriores e tem a performance de sua vida.

Amor Bandido, uma das raras traduções de títulos de filme para o português que ficou interessante, é uma pequena obra que serve como perfeita confirmação de trajetória de carreira para Matthew McConaugh, além de uma fábula moderna sobre a vida e como ela simplesmente acontece e você nada pode fazer a não ser se adaptar. Jeff Nichols não tem pressa em mostrar esse desenvolvimento, mas, mesmo ao longo de seus 130 minutos, a fita não cansa e prende a atenção do espectador, levando a um clímax que talvez seja apressado demais e que não combine com o resto do encadeamento da narrativa, mas que não afeta o engrandecedor resultado final.

Amor Bandido (Mud, EUA – 2012)
Direção: Jeff Nichols
Roteiro: Jeff Nichols
Elenco: Matthew McConaughey, Reese Witherspoon, Tye Sheridan, Jacob Lofland, Sam Shepard, Sarah Paulson, Michael Shannon, Joe Don Baker, Paul Sparks
Duração: 130 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.