Crítica | Amor Pleno

estrelas 3,5

Seria correto apontar Amor Pleno como uma espécie de continuação espiritual, quase um novo filme feito com recortes de A Árvore da Vida? Claro. O incorreto seria não perceber que não apenas Amor Pleno, mas TODOS os filmes de Terrence Malick se conectam espiritualmente uns aos outros através das predileções temáticas do diretor, seja pelo estudo da fé em diferentes ambientações, seja pelo retrato imagético da relação entre homem e natureza (e consequentemente, a evocação da espiritualidade e do divino), seja pelas relações entre seus personagens que são analisadas sob o ponto de vista mais básico para um ser humano: o amor.

A grande diferença é que, à partir do divisor de opiniões A Árvore da Vida, Malick encontrou para si um estilo de captura de imagens para falar sobre a vida, desmistificando suas obras enquanto filmes e transformando-as em experiências que visam transcender todo o conceito de narrativa convencional, assumindo ares de sonhos e devaneios que acentuam seus reflexos filosóficos e metafísicos presentes desde seu primeiro projeto,e não à toa, esta nova identidade de Malick segue desafiadora o suficiente para encantar alguns e irritar (vários) outros.

E considerando a identificação de Malick com esse modus operandi de capturar a vida, justifica-se o pouco espaço de tempo entre seus novos filmes, algo antes impensável para alguém que havia permanecido vinte anos em reclusão do cinema. Malick parece ter muito mais a dizer agora sobre seus sentimentos e os sentimentos que afloram de seus personagens, aqui mais conectados do que nunca pelo sentimento do amor e suas várias fases, um cenário de reações humanas o suficiente para que o cineasta novamente alie sua pincelada sobre relações à evocação divina em meio aos elementos básicos da natureza que nos rodeiam.

Curioso ainda é notar que, apesar de estar abraçado a emoções e sensações tão humanas, os personagens de Malick parecem sumir diante de toda a base do filme, quase como se não existissem e se firmassem como meras muletas para  as incontáveis imagens  simbólicas do diretor na busca por sua própria poesia. Assim, os rostos de astros como Ben Affleck, Olga Kurylenko, Rachel McAdams e Javier Bardem pouco parecem importar para a transmissão emocional do filme, já que o fluxo do filme deverá ser principalmente sentido através dos closes da câmera tão exuberantemente iluminados pela fotografia intensa de Emmanuel Lubezki, mais primordial do que nunca para a busca pelo divino proposta pelo diretor.

Claro que, inevitavelmente, Malick acaba caindo na redundância discursiva de suas temáticas, aqui reprisadas de uma forma para preencher lacunas indispensáveis para um cineasta tão existencialista e metafísico, o que dá certa razão aos detratores que lhe acusam de certa estagnação. Há momentos que mais parecem tentativas fúteis de repetirem o resultado deslumbrante de A Árvore da Vida, o que nos faz estranhar cenas como as de Olga Kurylenko rodopiando em supermercado. Mas ao fim de tudo, estes meros tropeços visuais e discursivos se tornam menores quanto os entendemos como resultado de um cineasta de visão sedenta pelo que sua obra pode representar, algo atestado pela força imersiva da repaginação de Malick sobre as várias fases do amor e a dor que inevitavelmente acompanha tais relações, assim como a eterna indagação sobre a interferência divina no meio disto tudo, aqui personificada pelo padre angustiado de Bardem, sem dúvidas, o melhor personagem da fita.

E apesar das já comentadas redundâncias (motivo suficiente para os detratores da obra), Amor Pleno mantém seu encanto sensorial tão recorrente para alguém como Malick, seja pelo recorte cotidiano de suas temáticas, seja pelas belas imagens que nos remetem a espiritualidade e a existência (ou não) de um Deus. Amor Pleno é filme de corpo e alma.

Amor Pleno (To the Wonder) — EUA, 2012
Direção: Terrence Malick
Roteiro: Terrence Malick
Elenco: Ben Affleck, Olga Kurylenko, Javier Bardem, Rachel McAdams, Tatiana Chiline, Romina Mondello, Tony O’Gans, Charles Baker
Duração: 112 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.