Crítica | Amor Sem Escalas

estrelas 4,5Com seus dois primeiros filmes, Obrigado Por Fumar e Juno, Jason Reitman comprovou não apenas possuir um dom abordar seus temas com um sarcasmo preciso e um senso crítico afiado, mas que também sabe como trabalhar e discutir as relações humanas tão presentes em nosso dia-a-dia. Em Amor Sem Escalas, seu terceiro filme, isto está mais claro do que nunca, já que desta vez nosso protagonista, Ryan Bingham (George Clooney), um sujeito em constante viagem pelo mundo, tem como função despedir pessoas de seus cargos em empresas logo após a crise financeira que assolou os Estados Unidos. Com tal função, Ryan precisa saber como lidar com as pessoas que demite, precisa saber como falar e proceder diante de cada reação. Ryan é um sujeito extremamente equilibrado e meticuloso em suas palavras e ações e, por isso mesmo, deixa a impressão de ser alguém aparentemente frio.

E Ryan faz jus a este pensamento: sem um local de moradia fixa, Ryan gosta de viver em constante movimento, é solitário por escolha e evita qualquer tipo de relação mais séria, o que o leva, inclusive, a criar um afastamento de sua própria família. Seu maior objetivo é atingir dez milhões de milhas no programa de milhagens de sua companhia aérea favorita, mas em meio a tudo isto, Ryan acaba conhecendo Alex Goran (Vera Farmiga), por quem começa a nutrir sentimentos mais fortes, ao mesmo tempo em que precisa lidar com a obrigação de trabalhar lado a lado Natalie Keener (Anna Kendrick), uma moça jovem e inteligente que propõe uma mudança radical no método de despedir pessoas, o que atrapalharia os planos e o cotidiano de Ryan.

Embora ainda conte com muito do humor sarcástico tão característico nos filmes de Reitman, Amor Sem Escalas segue por um caminho mais moderado, preferindo focar nas relações entre o protagonista e as presenças femininas à sua volta. Curioso que, apesar de trazer a recente crise financeira dos EUA como mote (digníssima a cena em que Ryan e Natalie chegam em um escritório e o mesmo encontra-se completamente vazio), é mais uma espécie de pano de fundo para Reitman criar um interessantíssimo estudo de personagem(ns), colocando em xeque questões como família, confiança e até mesmo casamento. Tal qual Juno, Reitman mexe com questões bastante pessoais e intimistas no cotidiano do ser humano.

Os diálogos concebidos pelo roteiro de Reitman (por sua vez baseado no livro de Walter Kirn) são deveras inteligentes, irônicos e afiados – e se existisse uma categoria que premiasse apenas diálogos, o filme teria sido o grande merecedor de seu ano. Muitos destes diálogos servem para desmitificar o escudo emocional construído por Ryan, e a forma gradativa com que esta defesa vai se desfazendo. Reitman cria uma narrativa de ritmo agradável e coerente, permitindo que os questionamentos que Ryan faz de si mesmo ao longo da projeção adquiram um tom mais natural e verossímil, algo ressaltado pela maneira esperta com que Reitman evita o melodrama e dramaticidades fora de hora. Conforme a narrativa anda, Amor Sem Escalas vai assumindo ares mais trágicos e melancólicos, uma vez que o próprio Ryan vai se tornando um homem emocionalmente mais vulnerável e, por isso mesmo, mais humano aos olhos do público.

Para alcançar este feito, Reitman conta com um trio de atores competentes e versáteis, cada um conferindo personalidade própria a seus personagens. O sempre charmoso Clooney empresta todo seu carisma e humildade para Ryan Bingham, indo com extrema eficácia da frieza inicial para a vulnerabilidade posterior. Clooney confere camadas ao seu personagem, que apesar de toda a sua sabedoria, no fundo é um homem com suas próprias falhas, esperanças e frustrações. Vera Farmiga, que já havia chamado a atenção em filmes como Os Infiltrados e A Orfã, surpreende como a igualmente vaidosa Alex, se despindo (literalmente) de qualquer pudor feminista que uma personagem como esta poderia carregar. Mas o grande destaque vai para Anna Kendrick, que ao deixar de lado suas pequenas participações na Saga Crepúsculo, comprova que é uma atriz de talento, sabendo oscilar com extrema eficácia entre o drama juvenil e o humor vindo de uma típica jovem americana que ainda tem muito o que aprender sobre as decepções da vida. A cena em que Natalie chora no hotel diante de Ryan é impagável. Há ainda diversas pontas de nomes bastante conhecidos, como J.K. Simmons (Homem-Aranha), Zach Galifianakis (Se Beber, Não Case!), Jason Bateman (Hancock), entre outros.

Trazendo ainda uma trilha sonora repleta de canções sessentistas, Amor Sem Escalas é uma bela análise sobre as relações cotidianos do ser humano, seus medos dos relacionamentos em geral e a profunda angústia de se estar sozinho. Reitman disseca estes temas com inteligência e sagacidade, fazendo de Amor Sem Escalas seu filme mais maduro até então.

Amor Sem Escalas (Up in the Air, EUA, 2009)
Roteiro: Jason Reitman e Sheldon Turner
Direção: Jason Reitman
Elenco:George Clooney, Vera Farmiga, Anna Kendrick, Jason Bateman, Melanie Lynskey, J.K. Simmons, Sam Elliott, Danny McBride, Zach Galifianakis
Duração: 109 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.