Crítica | Amores Inversos

estrelas 3,5

Amores Inversos, um pequeno filme indie de 2013 que caminhou por festivais é, muito sucintamente, um veículo para mostrar que Kristen Wiig, conhecida como integrante do Saturday Night Live e por estrelar comédias como Missão Madrinha de Casamento e Tudo Por um Furo, consegue transitar para fora do gênero em que nasceu, demonstrando, assim, uma dimensão dramática que, até então, era desconhecida do grande público.

Não que o grande público agora venha a conhecer esse seu lado sério com Amores Inversos, pois o filme, por sua própria natureza, não alcançará essa faixa demográfica. Na verdade, não alcançará quase ninguém a julgar pela arrecadação que teve até o momento em que escrevo essa crítica, algo como um pouco mais do que 50 mil dólares (casa dos milhares mesmo, não dos milhões).

Mas Amores Inversos não é uma obra que mereça ser julgada pela sua arrecadação. O trabalho de Wiig é um irretocável estudo de personagem e merece aplausos, fazendo-nos esquecer muitas vezes dos problemas do roteiro que comentarei logo a seguir. Wiig vive Johanna Parry, uma mulher mal-cuidada, tímida, solitária e quieta que passou boa parte de sua vida enclausurada em uma casa cuidando de uma senhora até sua morte. Quando nós a vemos, essa senhora está em seus últimos momentos de vida e, quando ela se vai, Johanna finalmente tem a chance de mudar de ares, trabalhando como empregada na casa do Sr. McCauley, que mora com sua neta Sabitha (Hailee Steinfeld, que despontou no remake de Bravura Indômita) em uma ilha na Louisiana.

O pai de Sabitha, Ken (Guy Pearce), um viciado em drogas que vive em um ciclo eterno sem saída de seu inferno, que o levou a acidentalmente matar sua esposa, filha do Sr. McCauley, conhece Johanna em uma visita e, algumas semanas depois, encarta uma mensagem para ela em correspondência para a filha. Sabitha, juntamente com sua maldosa e invejosa amiga Edith (Sami Gayle), passam a se corresponder com Johanna como se fossem Ken, induzindo a inocente mulher a achar que existe amor ali.

Se esperarmos algo realmente verossímil do que acontece em seguida, Amores Inversos não resistirá ao escrutínio. A lógica não bate e é difícil acreditar de verdade na mudança que vemos em Johanna, de alguém que simplesmente não existe e não é mais do o papel de parede na casa onde vive (reparem a interessante jogada do figurino de empregada dela “camuflando-se” com a parede da casa da idosa logo no comecinho da fita, já dando o tom para nós entendermos o que ela é e o que ela mesmo acha que é) para uma mulher decidida, que sabe o que quer e aonde quer chegar.

Mas, se olharmos Amores Inversos como um conto de fadas, algo como Cinderella (talvez a comparação mais evidente), então essa pequena e despretensiosa obra baseada em conto da canadense Alice Munro, que levou o Prêmio Nobel de Literatura em 2013, comece a funcionar, permitindo-nos que façamos a transição mais fácil entre a gata borralheira e a mulher que vemos mais para o final, não exatamente uma princesa, mas algo que, no contexto, se assemelha a isso.

E é jogando com as expectativas dos personagens e, portanto, com as nossas, sempre com um tom sério, é que a direção de Liza Johnson acerta em seu intento de nos “puxar o tapete” de nossas convenções de filmes dramáticos. Não, Amores Inversos está longe de ser um divisor de águas ou algo que mesmo de longe se assemelhe a isso, mas a obra sabe nos fisgar, mesmo com seu ritmo lento, de maneira que tenhamos uma percepção pessimista de seu desenrolar. São pequenas pistas visuais – tons pasteis aqui, filtros suaves ali, leves trocas de figurinos mais para a frente – que nos revelam que aquilo que estamos vendo é aquilo mesmo, por mais que esperemos o contrário. E, quando um filme faz isso, ele consegue alcançar seu objetivo.

No entanto, mesmo que esqueçamos por um momento o roteiro fabulesco e os atalhos que ele toma justamente por se permitir essas liberdades, fato é que a atuação de Wiig realmente surpreende. Não é à toa que Johnson, tanto em seu roteiro como em seu sua direção, foque em Johanna. É ela que nos carrega para frente e é a evolução desse personagem que nos interessa e, de certa forma, contamina a dos demais. Mesmo diante do peso pesado Nick Nolte, com quem quase não contracena, Wiig tira de letra, construindo boa química com Guy Pearce, também em papel diferente do que nos acostumamos a ver dele. Com olhares sutis, movimentos de cabelo e postura subserviente que aos poucos vai se desfazendo de suas amarras, Wiig nos arrasta com ela e nos faz torcer pelo personagem.

Pouca gente verá Amores Inversos, que talvez tenha melhor sorte no mercado de vídeo, mas aqueles que assistirem Wiig fazer muito de muito pouco, provavelmente ficarão surpresos. Nada como um pequeno filme que vem assim, como não quer nada, para nos surpreender, não é mesmo?

Amores Inversos (Hateship Loveship, EUA – 2013)
Direção: Liza Johnson
Roteiro: Liza Johnson (baseado em conto de Alice Munro)
Elenco: Kristen Wiig, Guy Pearce, Hailee Steinfeld, Jennifer Jason Leigh, Sami Gayle, Christine Lahti, Nick Nolte
Duração: 104 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.