Crítica | Amores Possíveis

Amores Possíveis é um filme sobre planos e suas possibilidades. Algumas concretas e outras remotas, afinal, estamos falando de um sentimento que é combustível narrativo em nossa tradição milenar de contar histórias: o amor. Em 2013, a Universidade Federal da Goiás preparou para o seu vestibular anual uma proposta de redação com o tema “O Amor na Contemporaneidade: condição para a realização pessoal ou aprisionamento de subjetividades?”, tendo em vista discutir uma questão que o cinema já adentrou em diversas ocasiões, isto é, o amor como algo subjetivo e relativo, sem definição única. O filme em questão é uma boa possibilidade para debate sobre o assunto.

Sandra Werneck dirigiu o roteiro de Paulo Halm, uma trama de 98 minutos que oferta ao espectador as três possibilidades de direcionamento de vida para Carlos (Murílio Benício) e Julia (Carolina Ferraz). Ao longo dos encontros e desencontros da narrativa, eles marcam de ir ao cinema numa noite qualquer. Ela, entretanto, acaba por não cumprir o seu compromisso e não aparece. Esse desacerto é o ponto de partida para as três histórias criadas diante das possibilidades no que tange ao destino amoroso de Carlos.

Graças ao talento de Murilo Benício, temos três perfis de Carlos, todos interessantes. O primeiro é Carlos como um advogado casado com Maria (Beth Goulart). Eles formam um casal tradicional, burocrático, todo “certinho”, mas que não anda bem, pois o marido está envolvido profundamente com o trabalho e com uma questão afetiva do passado, algo mal resolvido; o segundo é um homem que se “descobre” homossexual e troca a mulher pelo colega de futebol, Pedro (Emílio de Melo), uma relação complexa que envolve um filho e a tênue linha entre o amor e o ódio, a mágoa e o ressentimento; o terceiro é uma versão Carlos mulherengo, um homem que ainda não achou o seu grande amor e continua morando com a mãe (Irene Ravache) e se comportando como um adolescente surfista.

Com diálogos pontuais do elenco bem dirigido, a produção sai do esquema televisivo que às vezes domina algumas realizações do cinema brasileiro. Walter Carvalho faz um trabalho eficiente de captação de imagens, contemplando por meio da direção de fotografia os elementos que compõe os três segmentos do filme, tendo como aliado, a condução musical que conta com Paulinho Moska, responsável por emprestar a sua voz para Amores Possíveis, canção de João Nabuco e Antonio Villeroy, além da presença de Zizi Possi num “cover” de Chico Buarque. A direção de arte bastante correta busca equilíbrio imagético total, com uma paleta de cores para cada história e uma estratégia, também eficiente, de interligar os contextos.

Dentre os destaques temáticos e contextuais, Amores Possíveis nos permite discutir a questão das escolhas e de como nos culpamos no oceano das possibilidades. Será que a relação encerrada há alguns meses tinha mesmo que acabar? Será que mesmo infeliz, devemos continuar dentro de um relacionamento amoroso? Dizem por aí que na era dos aplicativos, as coisas andam complicadas e com o desapego, as pessoas estão confusas e não querem compromisso. No filme, três de muitas possibilidades são apontadas, numa produção que reflete bem o seu período de lançamento, isto é, o fluxo comercial proporcionado pela “Retomada” do cinema brasileiro, momento da nossa história cultural onde a sétima arte esteve em contato constante com a dramaturgia televisiva, com empréstimos de atores para atrair as plateias novelescas aos cinemas, estratégia que nem sempre foi utilizada com eficiência, mas que em Amores Possíveis funciona bem.

Dentro desse esquema de narração, o filme nos conta que nem sempre o que planejamos pode dar certo. Já no que fiz respeito ao amor, para alguns personagens, a produção é uma versão bem acabada do que Camões afirmou ao dizer que “amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente”, afinal, esse é o sentimento que corrói a esposa que ainda ama e deseja o ex-marido homossexual. Para ambos, bem como para o primeiro Carlos, casado, mas interessado numa aventura que o tire da normalidade, deixo Mário Quintana: “a amizade é um amor que nunca morre”.

Amores Possíveis, então, nos mostra como amar é algo complicado, quase idealizado, “romântico” no sentido vanguardista do conceito. Os conflitos amorosos nos remetem ao elucidativo O Livro do Amor, da psicanalista Regina Navarro Lins, especialista que dentre tantas coisas, diz que “o amor romântico prega coisas mentirosas, como se não existisse desejo por mais ninguém, pois os amados se completam e suprem qualquer necessidade do outro”. Será? É possível amar assim?

Amores Possíveis — Brasil, 2001.
Direção: Sandra Werneck
Roteiro: Paulo Halm
Elenco: Beth Goulart, Carolina Ferraz, Emílio de Mello, Irene Ravache, Murilo Benício, Alberto Szafran, Christine Fernandes, Drica Moraes, Marcela Moura.
Duração: 98 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.