Crítica | Amy

estrelas 4,5

Documentários biográficos normalmente encontram dificuldades em equilibrar biografado e obra. É curioso, porque em empreitadas assim o ideal é sempre mostrar o indivíduo ao mesmo tempo que se comenta e explora seus feitos, jamais separando as duas coisas, como se fossem feitas por um terceiro e aparecessem no filme quase que como um dado vagamente importante. Neste seu quarto documentário, o diretor Asif Kapadia (Senna, 2010), dribla essa armadilha constante de separação entre artista e obra e nos entrega um panorama humano, musical e emotivo sobre a saudosa Amy Winehouse (1983 – 2011).

O diretor toma como base um vasto material de arquivo, editado juntamente com depoimentos apenas em voz e cenas dos shows da cantora e dos bastidores. Há também alguns takes passáveis de piada e depreciação da figura da artista por um comediante e pelo apresentador Graham Norton que ficam soltos no meio de toda a proposta, mas por serem erros localizados, não possuem assim tanto impacto negativo na qualidade total.

A forma como Asif Kapadia guia a narrativa é bastante ágil e com uma organicidade que espanta o espectador, porque estão figuradas nas duas horas de filme todas as fases da vida de Amy, só que não expostas de forma cronológica e sim dentro de assuntos correlatos, no melhor estilo “progressão-regressão”.

O editor Chris King entra aqui como um cirurgião de tempo. Para um filme com esta premissa e com a quantidade de material disponível, era necessário um montador com um corte preciso e uma sensível noção de transição entre blocos ou pequenas mudanças dentro de cada uma das partes do filme e a experiência de King em documentários anteriores, com propostas de montagem igualmente interessantes, como Saia Pela Loja de Souvenirs (2010), Senna (2010) e All This Mayhem (2014).

Alguns críticos e espectadores reclamaram que o direcionamento do meio para o final da obra é tendencioso e coloca o espectador contra Mitch Winehouse (pai de Amy) e um pouco contra seu empresário [o que não é verdade]. É claro que a visão de Asif Kapadia se deixa mostrar no filme, até porque, seria bastante ingênuo por parte do espectador assistir a um documentário (qualquer documentário, sobre qualquer tema — para aprofundamento do gênero, leia Espelho Partido: Tradição e Transformação do Documentário) e crer piamente que a neutralidade reina sobre qualquer documentação feita sobre qualquer coisa. No entanto, Kapadia não dirige nenhum momento da obra de forma “doutrinadora”, ou criando uma espécie de “desinformação”, manipulando fatos e dados, tanto que além dos depoimentos mais ferrenhos das amigas de Amy, há os depoimentos e ações do próprio pai dela e do próprio empresário que falam por si só.

O filme não se aprofunda exclusivamente na produção dos dois álbuns de estúdio da cantora e compositora, Frank (2003) e  Back to Black (2006), mas eles estão incorporados na trajetória de vida da artista como dois pontos altos. Infelizmente o material de gravação de Frank é menor, mas fica claro que Amy não gostava muito de ser filmada produzindo e entre 2002 e 2003, período em que o disco foi produzido, o sucesso dela estava dentro de um universo menor, sem pressões e sem compromissos que a obrigassem a fazer o que não queria.

A história de Amy é surpreendente. Uma das maiores montanhas-russas que eu já vi acontecer na vida de alguém. Muito sabiamente, o diretor colocou indicações de tempo (dias, meses, semanas) entre um grande evento e outro e o espectador é pego de surpresa pela rapidez com que coisas boas e coisas ruins cercavam a artista; com que rapidez ela conseguia lutar e passar dias e semanas sem beber ou usar drogas e como isso caía por terra a cada novo compromisso que lhe obrigavam (esta é a palavra!) seguir. Realmente, não admira que a fase final de sua vida tenha sido vergonhosa. Uma das últimas sequências, onde vemos que a artista estava progredindo na reabilitação (um mês antes de sua morte) e de repente percebe que não pode fugir de uma turnê e é carregada para um jato particular a fim de comparecer ao evento me cortou o coração.

Amy é um documentário que emociona e nos faz olhar com outros olhos para esta fenomenal artista que perdeu a batalha para as drogas e precocemente nos deixou. Conduzido com forte dinamismo, excelente colocação de trilha sonora (inclusive com demos inéditas), montagem precisa em todos os trechos e finalização que foge do estado emocional lúgubre, o filme se sagra como um dos documentários biográficos mais interessantes de sua geração. Um filme para ver, ouvir e sentir.

Amy (Reino Unido, EUA, 2015)
Direção: Asif Kapadia
Roteiro: Asif Kapadia
Elenco (vozes, fotos, vídeos de arquivo): Amy Winehouse, Yasiin Bey, Tony Bennett, Mark Ronson, Blake Fielder-Civil, Pete Doherty, Mitch Winehouse, Tyler James, Salaam Remi, Nick Shymansky, Sam Beste, Blake Wood, Monte Lipman
Duração: 128 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.