Crítica | Ana e os Lobos

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SPOILERS!

O genial escritor argentino Jorge Luis Borges dizia que “a censura é a mãe da metáfora”. As limitações impostas politicamente por regimes autoritários sobre a arte não devem nunca ser defendidas, mas não deixa de ser curioso que esses problemas de liberdade levem os autores a buscar caminhos tortuosos, criptografados ou criativos a fim de transmitir sua mensagem e ao mesmo tempo driblar os infames censores. O espanhol Carlos Saura viveu na pele tais dificuldades, pois esteve décadas sob o peso da terrível ditadura franquista e conseguiu com excelência criar obras com grande argúcia política, disfarçando o teor crítico através de temáticas eivadas de fabulação e lirismo.

Em 1973, dois anos antes da morte de Francisco Franco, Saura lançou Ana e os Lobos. A história é bem tênue: a protagonista Ana (Geraldine Chaplin) é uma mulher estrangeira que vai a uma grande mansão espanhola cuidar de três crianças. Chegando lá, encontra tipos humanos peculiares comportando-se de modo estranho e disfuncional. A casa mais parece um hospício habitado por uma matriarca envelhecida e adoentada (Rafaela Aparicio), pelo místico Fernando (Fernando Fernán Gómez), o tarado Juan (José Vivó) e a interessante figura de José (José Maria Prada), frustrado porque sonhava ser militar mas nunca conseguiu realizar seu desejo, a não ser de forma fictícia, por meio de sua coleção de fardas e armamentos. Os três filhos da Mãe (perdoado o trocadilho) começam a desejar Ana, rodeando-a feito lobos, embasbacados com a beleza da mulher. A reação da protagonista frente às investidas dos homens é carregada de ambiguidade, envolvendo aproximações e afastamentos guiados por uma lógica não imediatamente inteligível para o espectador.

Para além desses personagens, destacam-se ainda as três menininhas, Natalia, Carlota e Vitória, filhas de Juan e Luchi (Charo Soriano). Uma visão geral do grande sobrado configura uma verdadeira “casa de orates”, à qual Ana vai aos poucos tentando se adequar. Ela começa a receber impublicáveis cartas pornográficas de parte de Juan; a ter de lidar com os arroubos transcendentes de Fernando, que decide se enclausurar numa gruta; e a sofrer com as obsessões militaristas de José; além do mais, é obrigada e deixar o lar depois que Luchi tem uma crise de ciúmes e ameaça se matar graças às puladas de cerca de seu marido.

Após fazer as malas, Ana sai do local e deparamo-nos com uma sequência final imprevisível e abrupta. Ana é estuprada, tem seu cabelo cortado e depois é morta a bala. O desfecho parece ser aleatório, mas tal impressão é falsa, já que tudo se “resolve” segundo uma lógica dada anteriormente pelo enredo: cada tipo de violência corresponde exatamente aos fetiches dos três homens da casa, o fetiche do domínio sexual, o da simplicidade do eremita e o do assassínio militar. Ao chegar na casa, a preceptora estrangeira de passado enigmático faz com quem venham à tona os caracteres doentios da família, virando ao avesso, em definitivo, aquilo que já se apresentava problemático, mas de modo latente. Nisso esse filme lembra um pouco Teorema (1968), cujo roteiro de Pasolini vai no sentido, embora em chave diversa, de mostrar a ruína de uma família devido à chegada de alguém extrínseco ao ambiente, de forma que essa pessoa desnude os problemas que minam por dentro as relações entre os parentes.

Dois dos pontos altos da película são as interpretações de Geraldine Chaplin e Rafaela Aparicio. A primeira é filha do saudoso Charles Chaplin e foi casada com Carlos Saura, construindo uma parceria de vários anos e filmes, como por exemplo o maravilhoso Cria Cuervos (1976). Rafaela Aparicio está espetacular no papel da Mãe pitoresca, com traços fellinianos, com seus constantes ataques cardíacos e gritos histéricos. Ela vai se superar no filme de seis anos depois, Mamãe Faz Cem Anos (1979), no qual sua participação é ainda mais central e encantadora. As duas juntas promovem um show à parte e conquistam desde de logo a atenção do público.

Ana e os Lobos carrega características típicas de Carlos Saura, podendo ser um ótimo filme para quem se interesse em se introduzir na obra desse talentoso diretor. Comparecem na trama personagens aparvalhados, situações surreais, quebras de expectativa e ótimos momentos de comicidade. Há nela, para dizer segundo termos freudianos, algo de simultaneamente estranho e familiar, ou melhor, uma familiaridade que carrega em seu bojo a estranheza, o inquietante, o indefinível. Saura trabalha como ninguém o poder dos primeiros planos, das panorâmicas e dos travelings, carregando de magia cada um desses procedimentos; também são interessantes os pontos de suspensão do filme, momentos em que tudo para, nos quais a câmera enfoca uma miudeza, algo à primeira vista aleatório ou fora do contexto estabelecido, atingindo um efeito de inefável quebra de automatismo da direção. Se a trama carrega incoerências e pontos obscuros, não se deve ver aqui problemas de estruturação, mas uma frouxidão que permite o livre borboletar do espírito e a criação de um universo encantador. São esses traços que lhe garantiram a participação no Festival de Cannes e a indicação à Palma de Ouro, inegável reconhecimento internacional do primor do cineasta.

O teor alegórico da obra fica evidente quando se percebe que a Mãe (nunca nomeada, o que ressalta sua natureza arquetípica) e a Casa representam a Espanha alquebrada, enquanto José é um claro vértice do franquismo, associando-se a ele como leitmotiv uma marcha militar que dá ritmo ao filme. O homem viciado em fardas concentra o poder sobre os moradores, intrometendo-se em seus assuntos particulares; a senhora sempre resmunga e reclama dos tempos de guerra, afirmando que no passado a vida era melhor. Temos a casa como microcosmo, metáfora e metonímia significativas, modo inteligente que Saura encontrou de tratar dos assuntos politicamente prementes. Vários filmes já retrataram a ditadura fascista espanhola ou a guerra civil que a precedeu. São poucos, contudo, os que conseguem desenrolar assuntos tão delicados com tanto brilhantismo, com tanto humor, com tanta crítica. Através de seu estilo próprio, afeito ao fantástico e ao absurdo, Carlos Saura consegue erigir uma obra ímpar, além de contornar os diversos lobos condecorados e armados que, pela força do coturno e da bala, tentaram asfixiar a riqueza cultural espanhola.

Ana e os Lobos (Ana y los lobos)- Espanha, 1973.
Direção: Carlos Saura
Roteiro: Carlos Saura, Rafael Azcona
Elenco: Geraldine Chaplin, Fernando Fernán Gómez, José Maria Prada, José Vivó, Rafaela Aparicio, Charo Soriano, Nuria Lage, Maria José Puerta, Sara Gil
Duração: 100 minutos.

GUILHERME ALMEIDA . . . Estudante de Letras e apaixonado por literatura e cinema, acho Crime e Castigo o auge da inteligência humana, não consigo assistir Tarkovski sem acender uma vela e me emocionar, e toda vez que vejo Taxi Driver me olho no espelho e lanço um “You talking to me?”. Se por uma desgraça cósmica preciso passar um dia sem contato com a Arte, sofro de profunda abstinência e preciso ser amarrado numa camisa de força. Nesses momentos, não se aproximem.