Crítica | Anaconda

Há uma cena bastante “interessante no desinteressante” A Caverna, filme de aventura/terror lançado em 2005. Em algum ponto da trama, os envolvidos na pesquisa numa caverna repleta de criaturas aterrorizantes conversam e alguém dispara que o seguinte questionamento: “Somos da cadeia?” Logo mais, um dos chefes da missão responde que sim, “sempre fomos”, no entanto, “esquecemos isso porque estamos nas cidades”.

É mais ou menos com esse questionamento que os personagens de Anaconda vão se aventurar pelas caudalosas e escuras águas da Amazônia para documentar uma tribo indígena, sem fazer ideia que o projeto inicialmente elaborado seria desvirtuado para uma sobrecarga de adrenalina talvez nunca antes enfrentada. Dirigida pelo peruano Luis Llosa, a produção é o que podemos chamar de prazer culposo, pois mesmo sabendo que é ruim pra caramba, nos atrai pelo alto teor de bizarrice e pelas frenéticas cenas de ação, principalmente em seu turbinado desfecho.

Longe dos chavões da ciência como culpada pela criação de monstros abomináveis na natureza, Anaconda segue uma linha contrária: é o homem que invade o espaço dos animais, tornando-se um dos pratos da dieta desta enorme serpente que supostamente vive na Amazônia. Numa estratégia do efeito Tubarão, de Spielberg, a narrativa escrita por Hans Bauer, Jack Epps Jr. e Jim Cash demora a nos apresentar a serpente em sua totalidade, bem como realiza uma abertura seguindo o ponto de vista do predador em seu primeiro ataque em cena.

No filme uma equipe de documentaristas vem para a região amazônica com interesse em registrar, pela primeira vez, uma tribo indígena.  Integram a equipe, os personagens de Jennifer Lopez, Ice Cube e Eric Stoltz. Na viagem conhecem um homem que diz saber o lugar exato onde eles encontrão o que precisam. Para a troca, basta dar-lhe abrigo na expedição. É a partir daí que os personagens perceberão que o maior problema não é a cobra gigantesca, mas o malandro, “interpretado” por John Voight em provavelmente sua pior atuação para o cinema, um homem que pretende colocar as suas vidas em perigo para conseguir caçar a tal cobra lendária.

Ao longo de seus 90 minutos, a aventura filmada entre o Brasil e o Peru é guiada pela trilha de Randy Edelman e pela direção de fotografia de Bill Butler, ambas razoáveis. O filme traz uma versão da famosa cobra lendária que dá um show em produções menores, ao estilo canal Syfy.  Com uso de animatrônicos e algumas pitadas de CGI, a cobra do filme não é o grande problema da produção, como apontaram alguns críticos na época do lançamento. Tudo bem que ela é exagerada. Como sabemos, a versão real do animal é conhecida por sucuri e possui veneno que não mata, mas entorpece as suas vítimas, impedindo-as de escapar do ataque certeiro. Somente esse detalhe já é responsável por nos deixar aterrorizados.

O problema todo é o desempenho de uma parte do elenco, com destaque para o vilão abominável do veterano John Voight, além do português sucateado de alguns diálogos, o sotaque horroroso de outros, bem como as falhas de edição, afinal, é impossível não ficar abismado com a cena em que o personagem pula de uma cachoeira para fugir da serpente e é tragado pelo animal furiosamente: neste trecho, a água da cachoeira segue o fluxo contrário, de baixo para cima. Se há uma cachoeira mágica na América do Sul, ainda não fomos informados formalmente, sendo assim, por favor, geógrafos, reescrevam as suas apostilas. Se não for este o caso, o filme pecou num detalhe muito bobo, que se repete em outros setores constantemente.

Com Anaconda, o império dos filmes de animais estava de volta. Salvas as devidas proporções, o filme tornou-se para o subgênero eco-horror o que Pânico, de Wes Craven foi para o slasher: uma carga de oxigênio que culminou em diversas produções igualmente absurdas, mas extremamente divertidas, tais como Do Fundo do Mar, Pânico no Lago, etc. A produção ganhou outras continuações. Apesar de seus roteiros ainda mais sofríveis, destaca-se apenas Anaconda 2 – Caçada a Orquídea Sangrenta, muito ruim, mas com a possibilidade de ser assistido. Produzidos para a televisão, as partes três e quatro são rabiscos dramatúrgicos que não empolgam, tampouco divertem, em suma, descartáveis.

Anaconda (Anaconda) — Brasil, EUA, Peru/1997.
Direção: Luis Llosa
Roteiro: Hans Bauer, Jim Cash, Jack Epps Jr.
Elenco: Jennifer Lopez, Ice Cube, Owen Wilson, John Voight, Eric Stoltz,  Danny Trejo, Charles Paraventi, Frank Welker, Vincent Castellanos, Kari Wuhrer
Duração: 89 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.