Crítica | Anatomia (2000)

Antes de ser conhecida por sua participação na franquia Bourne, com Matt Damon, a atriz Franka Potente esteve em dois filmes bastante versáteis em sua carreira: o delírio “cinema+videoclipe” de Corra Lola, Corra e o terror Anatomia, produção alemã que não chega a ser exatamente um slasher, mas que possui elementos do subgênero, principalmente na composição de sua atmosfera sombria, com uma pessoa a investigar assassinatos misteriosos, sem saber que pode ser uma das próximas vítimas.

Dirigido por Stefan Kurzowitsky e com roteiro de Peter Englemann, Anatomia fez bastante sucesso que a Columbia Pictures comprou os direitos e lançou nos Estados Unidos uma versão dublada em inglês. A explicação para a aceitação é a qualidade visual do filme, além da pouca relação do gênero com o cinema alemão, exportadores de produções de outros estilos e temáticas. E ainda há o boom dos filmes de assassinatos em série, com desequilibrados a matar pessoas por motivos variados. Na época, a chama que Wes Craven e Kevin Williamson acenderam com Pânico ainda flamejava, mesmo com a proximidade da exaustão.

Na trama, a estudante de Medicina Paula Henning (Franka Potente) consegue realizar um sonho de fazer parte do curso de verão da prestigiada Universidade de Heidelberg. Vaga conquistada com muita dedicação, a jovem precisa fazer o possível para manter-se bem vista, pois o seu avô foi um médico reconhecido na instituição, conhecido por ter pesquisado e desenvolvido uma importante droga, intitulada Promidal.

Os desafios são vastos. O curso ministrado pelo professor Grombeck (Traugott Bichre) adota o sistema de eliminação onde as notas mais baixas descartam os candidatos. Tensa por conta da cobrança e pelo fato do seu pai não estar muito satisfeito com as suas decisões na área, haja vista o interesse por causas mais sociais e menos elitistas, Paula ainda vai precisar lidar com uma situação muito mais extrema.

Certo dia, numa das aulas de anatomia, ela descobre que um dos cadáveres que o professor trabalhará naquele dia é de um rapaz que ela prestou socorro numa situação anterior. Intimidada com a situação, ela sente-se humilhada ao ser obrigada a dissecar o corpo. A coisa fica pior quando ela percebe certos cortes estranhos pelo cadáver. A justificativa do professor é a manutenção indevida do zelador, mas ao passo que ela decide seguir as suas intuições e investigar mais a fundo a soma desta situação com outros mistérios que começam a emoldurar a sua estadia na faculdade, situações bizarras se revelam e o perigo torna-se iminente.

Sangue, suspense e, obviamente, novos e velhos cadáveres estarão em cena para compor o clima da narrativa. Quando lançado, um crítico levantou a seguinte suposição: será que o roteirista inspirou-se em Tesis, de Alejandro Amenábar?  No cauteloso e aterrorizante filme do cineasta espanhol, uma estudante de cinema escreve uma tese sobre violência e encontra-se numa redoma de mistérios ao se encontrar diante de um vídeo caseiro que pode ser a real tortura de uma colega de faculdade. Como não há nenhuma declaração oficial dos produtores, tampouco extras para que possamos estudar um pouco mais sobre o filme, a indagação fica no campo da literatura comparada. Mesmo que não conheça o filme de Amenábar, o que acredito ser difícil, o roteiro de Englemann possui paralelos intrigantes.

Lançado em 2000, Anatomia é um suspense interessante que mescla diversos elementos do suspense e do slasher em seus 99 minutos. Acima da média para produções deste quilate, podemos aponta-lo como a colaboração germânica para os filmes com “trilha de corpos”. Uma sequência foi lançada em 2003, pouco conhecida no Brasil, indisponível para compra ou conferência em plataformas de streaming. Fica a curiosidade de saber como a história de desenvolve, mas é bem possível que o filme siga a cartilha das continuações desnecessárias, afinal, a protagonista deste primeiro filme consegue atar as pontas da história com dignidade, sem necessitar de uma recontagem de cadáveres.

Anatomia (Anatomie) — Alemanha, 2000
Direção: Stefan Kurzowitsky
Roteiro: Peter Englemann
Elenco: Franka Potente, Benno Fürmann, Anna Loos, Sebastian Bloomberg, Holger Speckhahn, Traugott Buhre, Gennadi Vengerov, Arndt Schwering-Sohnrey
Duração: 99 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.