Crítica | Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick [Blade Runner]

Transformado no hoje por vezes amado e outras vezes odiado cult sci-fi Blade Runner, Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? é um fascinante romance distópico de Philip K. Dick, um dos mais importantes autores americanos do gênero. Razoavelmente curto e sem enrolações, elementos característicos da bibliografia de PKD, a história do caçador de androides Rick Deckard lida com questões filosóficas que levam o leitor a discutir o que nos faz humanos, além do papel da religião nessa equação, sem jamais resvalar para o caminho das respostas fáceis e didáticas.

Nesse futuro (originalmente 1992, mas, em edições seguintes, 2021), depois da Terceira Guerra Mundial, conhecida como Guerra Mundial Terminus, a Terra não é muito mais do que um planeta semi-desabitado, com  a maioria da população sobrevivente tendo emigrado para colônias no espaço, especialmente em Marte. Aqueles que ficaram por aqui o fizeram por uma miríade de decisões pessoais ou em função de seu emprego, como é o caso de Deckard, que trabalha com a polícia de São Francisco na caçada de androides utilizados nas colônias como escravos e que porventura fujam e venham para cá, onde eles são proibidos e têm que ser “aposentados”, eufemismo para eliminados.

Passada em um período de 24 horas, a narrativa começa com Deckard acordando pela manhã com uma ligação do chefe de polícia que o coloca em uma missão quase impossível de aposentar seis androides do modelo Nexus-6, o mais moderno e difícil de ser distinguido dos humanos, depois que um do grupo fere gravemente o caçador de androides mais experiente da delegacia durante o teste empático Voight-Kampff, desenhado justamente com o objetivo de separar humanos de androides. Paralelamente, somos apresentados a J.R. Isidore, um homem simples, de Q.I. baixo (chamados de “especiais”), e que, portanto, pela lei, não tem a opção de emigrar para as colônias. Ele vive em um apartamento de um prédio completamente abandonado e fica surpreso e muito feliz quando descobre que ele tem uma vizinha a arredia e desconfiada Priss Stratton.

Essa é, porém, apenas a superfície da obra de PKD. Em um impressionante trabalho de concisão – que não é, porém, sem problemas – o autor ainda consegue enxertar diversos elementos essenciais para o desenvolvimento da narrativa e para o mergulho filosófico que é a pedra de toque do romance. O primeiro deles é a utilização, por praticamente todos os humanos, de um aparelho que altera, ao bel-prazer de cada um, seu humor, como uma droga, só que lícita. Iran, a esposa de Deckard, por exemplo, mal acorda e decide passar por seis horas de depressão profunda, em um comportamento niilista que permeia não só a personagem, como toda a atmosfera da obra, com a Terra contaminada por poeira radioativa da guerra. O segundo elemento é o símbolo de status desse mundo aniquilado, representado pela aquisição de animais vivos, já que a gigantesca maioria foi extinta. Deckard tem uma ovelha elétrica, que substituiu uma ovelha viva que herdara do pai de Iran, mas ele quer, mais do que qualquer outra coisa – uma obsessão mesmo – voltar a ter um animal vivo e a oportunidade que tem de aposentar os seis androides é perfeita para garantir-lhe dinheiro suficiente para isso. O terceiro e último elemento é a introdução do Mercerismo, uma religião de base tecnológica, em que a entidade máxima é o profeta-mártir Wilbur Mercer com quem os devotos podem se comunicar por intermédio de um aparelho que os fazem compartilhar seus sentimentos.

O que tematicamente reúne cada um dos elementos acima e a linha narrativa principal é a empatia, a capacidade em tese humana de conectar-se com alguém ou alguma coisa. Ou, se quisermos ser mais abrangentes, o principal tema explorado e conectado pelas várias criações de PKD em Androides Sonham? é uma discussão sobre o que é realidade, ou, se preferirmos ser um pouco mais específicos, o que é ser humano. Em sua caçada inclemente, Rick começa a duvidar de sua própria humanidade e do que é real ou não. Ele se gaba de nunca ter matado nenhum humano e de saber diferenciar androides de humanos, além de sua frieza em despachar as “coisas” que ele não considera muito diferentes de uma torradeira ou geladeira. No entanto, ao conhecer Rachael, da família Rosen, dona da maior empresa fabricantes de androides e aplicar nela o teste Voight-Kampff, Rick começa a relativizar seu raciocínio e as linhas bem definidas que ele tinha sobre o “real” e o “falso” começam a confundir-se. Além disso, ao relacionar-se com outro caçador de recompensas, Phil Resch, que ele reputa ser um androide, o protagonista passa a duvidar até mesmo do que é certo e do que é errado, a questionar a moralidade do que faz e a entender que, talvez, bem lá no fundo, a vida seja mais do que apenas seres efetivamente vivos, na definição normal, podem usufruir.

Os caminhos de Rick Deckard e J.R. Isidore, aliás, são exatos opostos. O primeiro, durante todo o processo de caçada aos androides, começa a duvidar de sua empatia, de sua humanidade enquanto que o segundo, que passou a vida toda sozinho e jamais considerou-se empático, ao relacionar-se com a androide Priss e seus dois amigos, Roy e Irmgard Baty, começa a perceber que a socialização é parte importante do que faz da humanidade o que ela é. A visão de certa forma conflitante entre os dois personagens, que se encontram por apenas breves páginas no clímax da obra, é que empresta a compreensão do todo que PKD procura passar, algo complementado por uma espécie de epílogo alongado em que Deckard ganha outro nível de compreensão sobre sua condição, comungando com Mercer em outra esfera de realidade, por assim dizer.

No entanto, mencionei mais acima que a capacidade de concisão do autor sofre alguns problemas e, de fato, eles se fazem sentir especialmente na medida em que Deckard se aproxima do fim de sua missão. Sem trazer spoilers para ninguém, descobrimos, por intermédio de Roy Batty, que um apresentador de televisão que permanece no ar 24 horas por dia e que é assistido por praticamente o mundo todo, tem uma grande revelação a fazer e, assim, quase que completamente do nada, uma nova e interessantíssima discussão sobre o que é religião e o que ela significa passa a fazer parte integral e constante da narrativa. O problema é que, ainda que o Mercerismo já tivesse sido mencionado algumas vezes, inclusive com uma demonstração de como a “fusão” de sentimentos ocorre, a religião ficou no máximo em segundo plano ao longo de toda a obra, ganhando enorme relevância somente no terceiro ato e no epílogo alongado. É quase como uma nova história começasse e o espaço que PKD tem para desenvolvê-la é apertado, obrigando-o a utilizar atalhos que incomodam um pouco ao trazer visões para Deckard que parecem perdidas e descontextualizadas.

A grande verdade, porém, é que o que faltou foi mesmo desenvolvimento, pois, se pararmos para pensar, a evolução do protagonista e sua conclusão final – que é aberta a interpretações – fazem sentido no contexto geral e poderiam ser decorrência lógica de tudo o que ele viveu se PKD não tivesse elegido contar sua história no período de 24 horas e com economia de palavras. E de forma alguma eu cobro explicações expositivas sobre o que acontece, mas sim uma maior cadência que carregasse mais naturalmente o personagem do ponto A ao ponto B sem que fosse necessário ao leitor extrapolar a partir do que lhe é oferecido para aceitar a conexão narrativa quase lisérgica que o final traz.

Antes de encerrar a crítica, porém, é importante mencionar que, dentre os leitores das obras de PKD, existem aqueles que defendem que Blade Runner foi uma péssima adaptação de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? e outros que, ao contrário, consideram o filme uma ótima adaptação. Filio-me fortemente à segunda corrente. Tendo lido o livro somente décadas após o lançamento da obra de Ridley Scott e tendo assistido às várias versões do filme por diversas vezes cada uma, fiquei particularmente impressionado com a forma que o roteiro de Hampton Fancher e David Webb Peoples captura a essência filosófica do romance e o quanto as versões cinematográficas de Rick Deckard, Rachael Rosen (apenas Rachael no filme), J.R. Isidore (J.F. Sebastian no filme), Pris Stratton (apenas Pris no filme) e até mesmo Roy Batty são parecidas com suas contrapartes literárias. Sim, tenho plena consciência de que o filme – em qualquer uma de suas versões – eliminou Iran e Resch da história e expurgou menções ao Mercerismo, aos “orgãos de humor” e até mesmo ao desejo de Deckard de adquirir um animal vivo, mas é justamente por ter feito tantas modificações e mesmo assim mantido o coração da história e todas as suas considerações filosóficas que o que vimos nas telonas merece especial consideração. É uma outra obra? Sem dúvida. Mas assim são as melhores adaptações.

A leitura do razoavelmente breve Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? é uma obrigação para os fãs de ficção-científica em geral e de Blade Runner em particular. Ao fechar o livro, as colocações e indagações de PKD continuarão fervilhando na mente do leitor que poderá apreciar ainda mais o filme e talvez até ampliar seu conceito do que é a Humanidade.

Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (Do Androids Dream of Electric Sheep?, EUA – 1968)
Autor: Philip K. Dick
Editora original: Doubleday
Data original de publicação: 1968
Editora no Brasil (atual): Editora Aleph
Data de publicação no Brasil: 2014 (versão da Aleph)
Tradução: Ronaldo Bressane (versão da Aleph)
Páginas: 272 (versão da Aleph, que contém material extra)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.