Crítica | Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? – Do Pó ao Pó (BOOM! Studios)

Pode-se falar o que quiser da BOOM! Studios, menos que a editora não é ousada. Seu trabalho com a franquia Planeta dos Macacos é exemplar e corajosa, considerando que o coração está nos filmes originais e não nos reboots de 2001 e a partir de 2011, que tornariam as minisséries mais atraentes para o público atual e seu material inédito pode não ter o alcance de trabalhos da Image Comics, por exemplo, mas são sempre diferenciados e, no mínimo, curiosos. E essa ousadia se faz sentir, talvez, na forma como o clássico romance sci-fi Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick, foi adaptado para os quadrinhos, ou seja, com o uso integral – sem concessões – do texto do livro, algo inusitado e inédito, mesmo considerando todo os problemas detectados na crítica de meu colega Guilherme Coral.

E foi a boa receptividade dessa longa adaptação em 24 edições do material original que levou a editora a arriscar mais ainda, lançando uma minissérie em oito edições que funciona como um prelúdio da obra de Philip K. Dick. Trata-se de material 100% inédito passado anos antes dos eventos envolvendo Rick Deckard e sua caçada aos androides Nexus-6. A estrutura, porém, é fundamentalmente a mesma, ainda que, na HQ, o foco na ação seja razoavelmente maior do que é no romance.

Na história, somos apresentados a Charlie Victor, um caçador de androides com a missão de aposentar oito exemplares renegados do modelo C-V, fabricados pela Grozzi Corporation, que estariam em São Francisco. A diferença é que Charlie Victor é, ele mesmo, um androide e consciente de sua condição como tal. Imediatamente percebemos que toda a questão existencial vivida por Deckard é abordada por outro enfoque. Além disso, Victor recruta a ajuda de Malcolm Reed um “especial” que é, na verdade, um poderoso, mas esquizofrênico empata, que não tem emoções e sentimentos próprios, mas que, sem sua medicação, consegue captar os sentimentos de todos os humanos ao seu redor. Reed, portanto, é como um detector vivo de androides, já que os seres artificiais não têm sentimentos.

A parceria hesitante – por parte de Reed, que é proibido de tomar seus remédios e, com isso, é bombardeado por emoções de terceiros – entre os dois começa a gerar frutos na caçada. Enquanto isso, vemos uma bióloga, Samantha Wu, em seu trabalho com os últimos animais vivos para tentar reverter os efeitos do “pó radioativo” que os dizimou depois da Guerra Mundial Terminus e, também, os androides fugitivos liderados por Talus, que deseja, ao contrário, amplificar os efeitos do pó para acelerar o fim da humanidade.

A premissa básica funciona bem e gera uma boa ação cadenciada que é permeada de menções diretas às criações de Philip K. Dick, especialmente o Mercerismo e as caixas de empatia, aos animais mortos (a coruja morta logo na segunda página é um toque perfeito para a forma como o autor começa seu livro) e à colonização espacial. Há uma preocupação grande, no roteiro de Chris Roberson (criador de iZOMBIE), em manter Do Pó ao Pó efetivamente como algo que possa ser perfeitamente encaixado com o que acontece no romance, mesmo que uma história não toque ou mesmo tangencie a outra. Em outras palavras, Roberson consegue nos fazer sentir que estamos efetivamente lendo algo que se passa nesse mesmo universo de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (e não de Blade Runner, o filme), mas em algum momento não determinado anterior.

Até mesmo os aspectos filosóficos são enfatizados no prelúdio, com uma pegada mais para o lado da importância dos sentimentos e emoções para definir o que é o ser humano. Se PKD criava dúvida sobre a natureza de Deckard, aqui não temos nenhuma sobre Charlie Victor, mas, dessa forma, Roberson pode mergulhar na questão da empatia, na necessidade de se sentir conectado a outros, algo que também é explorado do lado dos androides por meio de flashbacks para a época em que Victor e Talus eram soldados em uma guerra não muito claramente definida.

Disse mais acima que Do Pó ao Pó é muito evidentemente um prelúdio de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? e não de Blade Runner, mas essa não é uma afirmação completamente verdadeira. A arte de Robert Adler bebe bastante do visual noir-cyberpunk do filme de Ridley Scott, com um bom uso de sombras, uma recriação de São Francisco que, se é menos estilosa do que a Los Angeles do filme, passa o mesmo tipo de sensação. Além disso, a paleta de cores de Andres Lozano e Javier Suppa tem função importante em estabelecer o clima desesperançoso de algumas sequências, além de funcionar bem para representar as emoções e sentimentos de terceiros que Reed capta com seu poder empático. O que acaba acontecendo, no final das contas, é um bela fusão entre a narrativa fiel à de PKD com pitadas de Ridley Scott em uma amálgama que satisfaz os fãs de ambas as obras, sem irritar nenhum lado.

Do Pó ao Pó, diferente da adaptação ipsis litteris em quadrinhos do romance original, é uma bela adição ao cânone desse fascinante universo que merece ser conferido pelo leitor de PKD e/ou fã do filme. A BOOM! Studios ousou e, dessa vez, acertou em cheio.

Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? – Do Pó ao Pó (Do Androids Dream of Electric Sheep? – Dust to Dust – EUA, 2010)
Contendo: 
Do Androids Dream of Electric Sheep? – Dust to Dust #1 a 8
Roteiro:
 Chris Roberson (inspirado em romance de Philip K. Dick)
Arte: Robert Adler
Cores: Andres Lozano, Javier Suppa
Letras: Jimmy Betancourt
Editora original: BOOM! Studios
Data de lançamento original: maio a dezembro de 2010
Editora no Brasil: não publicado até a data de publicação da crítica
Páginas: 125 (vol. 1 – encadernado americano), 107 (vol. 2 – encadernado americano)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.