Crítica | Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (Dramatização Radiofônica)

Em sua imperdível série anual radiofônica Dangerous Visions, que traz adaptações de diversas obras literárias famosas de vários gêneros, mas especialmente sci-fi, a BBC Radio 4 trabalhou, em 2014, em uma versão de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, o romance de Philip K. Dick que deu origem ao cultuado Blade Runner, tendo James Purefoy como o caçador de androides Rick Deckard e Jessica Raine como a androide Nexus-6 Rachael Rosen. O resultado é uma instigante fusão que resgata parte dos conceitos e da ação original da obra de PKD e adiciona certas escolhas dramáticas mais afeitas à versão cinematográfica em um resultado que, porém, pode desagradar os mais puristas.

O roteiro de Jonathan Holloway faz esforço para ser fiel ao espírito do romance original, tomando decisões que permitem que a história seja contada de forma concisa, em apenas dois episódios de 60 minutos cada um. A mais importante dessas escolhas – e dela decorrem as demais – é o foco quase exclusivo em Deckard, algo que força a eliminação de sua esposa depressiva Iran da trama e a exclusão, assim como no filme, das linhas narrativas que lidam com o desejo do protagonista em ter um animal verdadeiro para substituir sua ovelha elétrica e qualquer menção ao Mercerismo, a religião criada por PKD que, no livro, acaba ganhando um papel importante somente ao final, de uma forma questionável até. A estrutura da ação, porém, é fundamentalmente mantida, com Deckard sendo encarregado da “aposentadoria” de seis androides Nexus-6 vindos de Marte depois que o caçador mais experiente de seu distrito policial é gravemente ferido durante o teste Voight-Kampff, ministrado para identificar seres artificiais de humanos.

As exclusões que citei acima não coincidentemente foram efetuadas no roteiro de Blade Runner, mas o resultado disso, na dramatização radiofônica, diferentemente do filme, tem a tendência de quebrar um pouco as indagações filosóficas que PKD imprimiu em sua obra, especialmente sobre o que é ser humano. Essas questões estão presentes na dramatização, não se enganem, mas elas perdem o relevo diante da simplificação da trama, que deixa pouco espaço para reflexões, especialmente ao reduzir drasticamente a presença de J.R. Isidore (Stuart McLoughlin) e sua jornada de descoberta que se contrapõe diretamente à de Deckard, com cada um reinterpretando a humanidade de forma complementar. Com isso, muito do valor da obra original acaba se perdendo.

Some-se a isso uma completa alteração do final, a partir do momento em que Rachael faz a grande revelação sobre seus planos para Rick (quem já leu o livro saberá do que estou falando). Os desfechos de Priss, Roy Batty e até mesmo de Rachael são completamente diferentes, com uma versão de Phil Resch (aqui chamado de Rats e vivido por Steven Hartley), o caçador de androides que Rick conhece na “outra delegacia de polícia”, com uma presença menos enfática e, portanto, menos eficiente. Em termos dramáticos, tais mudanças somente se justificam pela necessidade da produtora em trazer fins definitivos aos personagens, evitando o final razoavelmente aberto do romance, algo que pode ser recebido negativamente, porém, pelos fãs do autor.

Apesar de tudo o que foi alterado e da atenuação do lado filosófico da história, a adaptação ainda consegue ser eficiente em transmitir a mensagem macro que PKD procurou passar em sua seminal obra. Além disso, Holloway não cede à tentação de aproximar completamente sua adaptação do filme, muito mais conhecido do público em geral. A história que ouvimos ainda é a mesma de PKD, inclusive com menção exclusiva a androides, nunca replicantes, mesmo considerando os atalhos tomados que, como disse, reduzem a eficiência e amplitude das questões filosóficas e morais que o autor aborda.

Os trabalhos de vozes são excepcionais. Purefoy faz um Rick Deckard mais velho, mais trágico, mais rabugento e que é distintamente do ator, jamais lembrando o vivido por Harrison Ford. Por seu turno, Jessica Raine cria uma Rachael sensual, mas distante e fria, complexa em seus pensamentos e que passa uma impressão de que está sempre maquinando algo ou pensando algo diferente do que fala. Steven Hartley como  Rats tem uma voz poderosa que faz das sequências em que dialoga com Purefoy as melhores de toda a dramatização.

No lado dos efeitos sonoros, a impressão que tenho é que a produção quis trazer à obra uma maior familiaridade com o mundo do filme, distanciando-se um pouco do que PKD deixa entrever em sua obra: um mundo morto, ou moribundo, quase sem pessoas na rua. O que ouvimos de fundo é um constante burburinho típico de cidade grande que, apesar de não combinar com o livro, na dramatização serve de bom pano de fundo para a ação, evitando momentos completamente silenciosos quando eles não são claramente pretendidos.

A dramatização radiofônica de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? pode parecer a forma mais rápida e eficiente de se conhecer o livro de PKD, mas a grande verdade é que ela é muito mais recomendada para quem já leu o romance, diante de todos os atalhos que o roteiro toma e que acabam diminuindo o impacto narrativo. Sem dúvida é uma ótima produção – ainda que bem mais modesta do que as famosas dramatizações de Star Wars – e merece ser conferida por quem quiser conhecer todas as variações dessa grande ficção científica e conseguir compreender e aceitar certas escolhas feitas.

Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (Do Androids Dream of Electric Sheep?, Reino Unido – 2014)
Direção:
Sasha Yevtushenko
Roteiro: Jonathan Holloway (baseado em romance de Philip K. Dick)
Elenco: James Purefoy, Jessica Raine, Nicky Henson, Anton Lesser, Heather Craney, Steven Hartley, Stuart McLoughlin, Clive Hayward, Danny Sapani, Jaimi Barbakoff, Wilf Scolding
Produção: BBC Radio 4 (série Dangerous Visions)
Duração: 120 min. (2 partes)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.