Crítica | Angel-A (2005)

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Após uma década de 90 bastante ativa como diretor, Luc Besson (Nikita, O Profissional e O Quinto Elemento) passou a primeira metade dos anos 2000 apenas como roteirista e/ou produtor, nada de direção. Seis anos depois de Joana d’Arc de Luc Besson, o último trabalho que dirigiu, ele retornou à função em 2005 no drama Angel-A.

O filme se passa em Paris e acompanha André (Jamel Debbouze), que está totalmente endividado e jurado de morte por seus credores. Desolado e vendo que não há mais opções de arranjar a quantia que deve, resolve tirar sua própria vida, pulando de uma ponte. Quando encontra-se prestes a saltar, vê uma mulher próxima a ele que planeja fazer o mesmo. Ao falhar em convencê-la a desistir da ideia, ele pula no rio logo atrás dela e salva sua vida. A partir de então, a decidida e bela Angela (Rie Rasmussen) começa acompanhar e ajudar André em seus problemas financeiros e psicológicos.

O foco principal do filme, inclusive, é sobre amor-próprio e autoestima (ou a falta deles), e a escolha de Besson de filmar todo o filme em preto e branco reflete, nesse caso, essa tristeza vivida pelo protagonista, fazendo com que não dependa única e exclusivamente do ator para transmitir esse sentimento. Vale ressaltar também as cenas em que André bebe, pois em todas elas acaba se embriagando, como uma forma de buscar uma felicidade momentânea e fugir de sua triste realidade.

Angela não faz parte dessa realidade, deve-se dizer, já que quando estão em um restaurante ela revela ser um anjo (daí o nome do filme) e que foi enviada para ajudar André. Sua missão, acima de resolver os problemas financeiros do rapaz, é fazê-lo enxergar além de seu exterior, reconhecendo todas suas qualidades ao olhar para seu interior. E a ótima fotografia de Thierry Arbogast é a principal maneira usada para passar todas essas informações. As várias cenas onde Angela aparece atrás de André (exatamente como um anjo da guarda) ou quando seu corpo se funde ao de uma estátua, fazendo com que pareça possuir asas, são alguns exemplos da importância da fotografia no filme.

A mais encantadora cena, porém, fica a cargo de um diálogo dos dois protagonistas em um banheiro, onde Angela faz com que André reflita profundamente acerca do amor, principalmente com relação a si. No reflexo do espelho, além deles, é possível ver três portas que demonstram as respostas de André perante os questionamentos de Angela. Portas comuns, sem nenhum atrativo em especial, mas que podem guardar em seu interior as mais sublimes qualidades, tal qual André. A linha do azulejo, que passa exatamente por detrás da cabeça de ambos, dá a impressão de uma barreira que separa a mente do rapaz de seu corpo e suas ações, impedindo-o de demonstrar quem ele realmente é.

Com exceção dessa e poucas outras cenas, a música composta pela norueguesa Anja Garbarek não chega a ser marcante e, ainda que possua qualidade, pode passar despercebida por boa parte do público. Formada na sua maioria por composições instrumentais, a trilha sonora é suave, e o problema se encontra justamente aí, já que traz um sentimento de calmaria excessivo em alguns pontos, colaborando para que o ritmo da história seja afetado negativamente.

Apesar de não ser nem de longe uma obra-prima, Angel-A é um bom filme e cumpre seu papel como drama com certa qualidade, principalmente por conta do belíssimo visual. O desfecho não surpreende e é relativamente fácil de prever como terminará, entretanto, a maioria do público se sentirá satisfeita ao assistir a conclusão “genérica” da trama

Angel-A (França, 2005)
Direção:
Luc Besson
Roteiro: Luc Besson
Elenco: Jamel Debbouze, Rie Rasmussen, Gilbert Melki, Serge Riaboukine, Akim Chir, Eric Balliet, Loïc Pora, Venus Boone, Jérôme Guesdon, Michel Bellot, Michel Chesneau, Olivier Claverie, Solange Milhaud
Duração: 90 min.

RODRIGO PEREIRA . . . Certa vez um grande amigo me disse que após entendermos o que estamos assistindo, o cinema se torna uma experiência ainda mais fascinante e fantástica. Não poderia estar mais correto. O tempo passou e a vontade de me aprofundar cada vez mais só aumentou. Hoje, vejo no cinema muito mais do que meramente entretenimento, é um maravilhoso artifício que encanta, emociona, provoca e possui um grande potencial de transformação social. Pode me encontrar em alguma aventura pela Terra Média, lutando ao lado da Aliança Rebelde, tentando me comunicar com Heptapods ou me escondendo de Jack Torrance no labirinto de um fauno em alguma linha temporal criada por Dr. Brown e Marty McFly.