Crítica | Angry Birds: O Filme

estrelas 1,5Obs: contém spoilers.

Não tenho absolutamente nada contra filmes propaganda. Já tivemos um desses que foi exemplar. Uma Aventura Lego pegava elementos de diversos filmes e moldava tudo a favor de sua história. De longe, foi um dos melhores filmes de 2014. Ainda nesse nicho outras obras razoáveis conseguiram justificar sua existência conseguindo contar alguma história como no caso do primeiro Transformers e G.I. Joe. Porém, também havia aqueles que não conseguiam fazer o mínimo sendo considerados verdadeiros lixos cinematográficos: Battleship e Ouija. A adaptação do celebre jogo da Rovio pode ser classificada nessa pior avaliação. O filme é torpe.

Já chegando com muito atraso para provar sua relevância – há tempos que a “sensação” Angry Birds acabou, o filme resulta em um bolo de jogadas pouco inteligentes, humor grotesco, personagens pífios, história raquítica, porém exibindo uma belíssima técnica de animação tridimensional, além do bom uso do efeito estereoscópico.

A “história” acompanha Red que por problemas de raiva é enviado para um clube a fim de aprender a controlar seus nervos. Lá, conhece Bomba, Terêncio e Chuck, outros pássaros “problemáticos”. As sessões terapêuticas são administradas por Matilda. Quando os roteiristas percebem que já não há mais o que explorar nesse núcleo, os antagonistas chegam em cena. Então, sem mais nem menos, os porquinhos verdes surgem na ilha isolada e feliz dos pássaros. Porém, as verdadeiras intenções dos porcos logo surgem quando eles roubam todos os ovos da ilha e fogem para seu próprio reino. Então, os pássaros liderados por Red clamam vingança e decidem resgatar os ovos…

Angry Birds é um daqueles filmes tão pobres narrativamente que a própria sinopse se torna um resumo do filme inteiro. Sim, é exatamente isso o que acontece no longa, pois não há nada a mais para contar nesse universo por falta de competência e imaginação do roteirista Jon Vitti. Pela sinopse/resumo, pode não ser possível perceber que se trata mais uma vez do “arroz com feijão” de sempre: a já consagrada Jornada do Herói de Joseph Campbell, ainda que haja certa variação da receita propriamente dita. O mais engraçado disso tudo é o fato de Vitti nem ao menos conseguir entregar o padrão. Pode parecer impossível, mas esse filme falha até mesmo em algo tão manjado como o monomito.

Por meio de flashbacks muitíssimo grosseiros ao longo da narrativa, descobrimos que o nada afável Red se trata de um órfão – Luke Skywalker, Bruce Wayne, Naruto, Goku, Harry Potter, Peter Parker, que é tratado como um párea em sua sociedade por ser diferente – seja por ser órfão, “sobrancelhudo” ou pelos seus “problemas” de raiva que na verdade são de apatia e niilismo. Porém, seja lá por qual razão, quando Red é confrontado pela chegada dos porcos amistosos em primeiro momento, ele luta com todas as suas forças para salvar a mesmíssima sociedade que o deixava recluso, que o caçoava. Não há a menor motivação para Red salvar seus conterrâneos que não nutrem a menor simpatia por ele. É simplesmente estúpido até mesmo para crianças que ainda estão nas fraldas.

Claro que tudo pode piorar. Com Angry Birds, de fato, piora. Por mais fraco que seja seu protagonista, admito que dá para aguentar o filme por conta dele, porém os coadjuvantes são os verdadeiros responsáveis em lhe deixar tão irado quanto o pássaro vermelho. Vitti trabalha com estereótipos já clichês em demasia, porém fazendo o favor em aumentar o nível de canastrice. Chuck, o pássaro amarelo dublado por Fábio Porchat que chama atenção para si com a voz irritante, é o pior personagem desse rol monótono. Assim como Red, ele não está na sessão terapêutica por problemas relacionados à raiva. Na verdade, nenhum dos pássaros estão lá por este motivo apresentado pelo filme – o que torna o argumento ainda mais frágil.

O problema de Chuck se dá justamente no teor do humor do filme, mas que é enfatizado no personagem por ele ser o alívio cômico. Sendo uma espécie de “ligeirinho” graças à mecânica do jogo, o personagem é hiperativo e verborrágico soltando diversas frases de efeito remetendo à memes ou outro humor estúpido demais para crianças acima de sete anos e, em boa parte, incompreensível para os menores. Outras vezes há até mesmo piadas gráficas que exclamam conotações sexuais que alguns pais podem julgar inapropriadas.

No campo de personagem, Chuck nem serve para ser um coadjuvante competente – isso também inclui Bomba, Terêncio e Matilda, todos personagens de uma nota só mesmo que sejam mais fáceis de suportar. Nunca vemos o alvorecer de uma amizade verdadeiramente digna entre Red e ele – por favor, não se esqueçam de animações fabulosas que trabalham tão bem a amizade entre personagens como Toy Story ou Monstros S.A. Os coadjuvantes não auxiliam em nada na jornada, nem mesmo sabem a razão de seguirem Red em sua mini odisseia, já que não há a menor motivação visto que a maioria dos pássaros colegas do protagonista não sofrem do mesmo preconceito que ele sofre.

Vitti e os diretores Clay Kaitis e Fergal Reilly apostam na comédia esdrúxula e burra. O teor do filme é mesmo a tosquice então não se assuste quando ver a cena mais desprezível que tive o desgosto de conferir neste ano. Já pelas tantas no meu sofrimento em assistir à tamanha besteira, Red, Chuck e Bomba partem em busca da figura messiânica do Mega Águia – uma ave idolatrada por todos que creem em sua imortalidade e eterna vigilância para os protegerem de todo o mal. Obviamente, um paralelo à Jesus Cristo. Quando o trio enfim chega no cume mais alto da montanha mais alta, lugar onde o personagem messiânico reside, se deparam com um lago paradisíaco onde nadam e bebem sua água. Então, para apresentar o tal Mega Águia, os diretores o colocam saindo de uma caverna localizada acima do lago. Segue um enquadramento por trás das pernas do personagem que exibe ele urinando no lago da sabedoria onde há pouco Chuck e Bomba faziam palhaçadas.

Seria algo somente besta se fosse ligeiro, mas a dupla de cineastas não opta por cortar a ação em poucos segundos. Acompanhamos o Mega Águia urinar por quase um minuto de projeção, intercalando com os reaction shots caricatos e irritantes de Bomba e Chuck. O humor não é restrito apenas à escatologia – essa não é a única cena dessa vertente de humor. Muita coisa vem do slapstick comedy, além de muitas gírias como “só que não” aplicadas pela dublagem que pelo jeito consegue deixar o humor desse filme ainda menos engraçado. Pouquíssimas piadas conseguem fugir disso e trabalhar com comédia mais refinada – umas dessas, ainda que clichê, é exibida durante um time lapse.

A semelhança desse arco de busca à uma figura fracassada e acreditava por todos como salvador do universo já foi melhor trabalhada em Megamente. Aliás, há tantas coisas que Vitti copia que seria desperdício de tempo listar tudo. Entretanto, o pior não reside com os pássaros, mas sim com os porcos. Passa-se a apostar mais no humor de paródia aliado ao slapstick repleto de piadas envolvendo muitas dancinhas e nádegas – são minions de pior qualidade.

De começo, ao menos, o plano dos porcos é interessante em se passarem como lobos em pele de ovelhas. Em poucos minutos isso cansa graças a superficialidade dos bichos que também não tem motivação, já que eles descobrem o que é um ovo durante a visita na ilha dos pássaros – algo que até mesmo se torna grosseiro quando eles retornam para seu reino onde o rei comunica à população que seu plano original de sequestrar ovos para comê-los foi bem-sucedido.

Muito do plano do porco rei é rasteiro constituindo no escambo e em shows temáticos ou baladas para distrair os pássaros. Os diretores e o roteirista, pegando esse conceito de ilhas, monarquias e navegações querem forçar um paralelo com os períodos da descoberta do Novo Mundo – conceitualmente interessante, na prática se trata de uma visão torpe.

Quando o filme caminha para seu terceiro ato, o roteiro melhora assim como a direção cinematográfica se torna mais inventiva e interessante. Com os pássaros partindo para a ilha dos porcos, vemos a mecânica do jogo fazer parte efetivamente da narrativa. É algo surpreendentemente divertido e bem pensado, mas graças à repetitividade se torna exaustiva. Interpolando nessa sequência destinada à homenagem ao aplicativo, volta o humor caricato típico diminuindo a qualidade novamente. Muitas referências gratuitas que não funcionam em praticamente nada. Há até mesmo (mais uma) piada clichê envolvendo O Iluminado.

Aliás é impressionante como esse filme é tão ordinário nisso. Suas piadas são clichês, suas reviravoltas são clichês, seus personagens são clichês. Tudo previsível a qualquer um que tenha o mínimo de uma boa variedade de filmes na memória. A mensagem do fim do filme também não poderia ser pior, pois transmite algo que pode ser interpretado como genocídio de inocentes – ainda que seja no sentido figurado e amenizado pela atmosfera sempre distraída e “cômica” dos porquinhos. Com esse clímax narrativamente deturpado, Red nunca sofre sua transformação na jornada. O espectador apenas ganha uma boa cena de ação.

Além do humor, os diretores conseguem errar na quantidade abusiva de canções que invadem e somem das cenas sem a menor sutileza. São tantas que tornam algumas sequências em verdadeiros videoclipes. Por mais que as músicas sejam boas, se trata de mais um recurso rasteiro para preencher tempo nos espaços que claramente são deficitários em história. Também há o uso caricato da sonoplastia que podem tirar sua atenção do filme.

Justiça seja feita, por pior que seja o conteúdo de Angry Birds, em termos plásticos ele é um sucesso. É uma das mais belíssimas animações feitas em computação gráfica até agora. Os enquadramentos evocam bastante do cenário paradisíaco da ilha, além de sempre enfatizarem bem a muito utilizada linguagem corporal dos personagens. Já os pássaros são riquíssimos em detalhes, expressam vida com a diversidade de reações faciais, pelo brilho dos enormes olhos, além do cuidado com a penugem de cada um que reagem apropriadamente à física e efeitos de colisão. O design de cada um também é bem adaptado, permanecendo a forma oblonga tão característica dos bichinhos que eram tão mais carismáticos quando calados.

Angry Birds: O Filme é um infortúnio cinematográfico. Com tantas animações infantis extraordinárias que constituem um repertório exemplar para novas gerações de crianças é praticamente impossível recomendar essa obra. Nada em sua concepção consegue ser minimante original, tirando o clímax que traz o único bom momento da projeção. Seu humor é grosseiro demais e não sabe qual faixa etária que atingir por conta dessa esquizofrenia entre tantas referências pop que novatos não vão captar e com as piadas tão fracas e clichês que provavelmente não farão nenhuma criancinha rir. Nem mesmo há uma bela história para sustentar sua existência. A mensagem não edifica, os personagens não cativam por serem histéricos demais e tomarem decisões por vezes injustificadas ou irracionais. Há somente o universo muito colorido, vibrante repleto de belíssimas imagens e a técnica impecável dos animadores em trazerem os passarinhos à vida nos cinemas pela primeira vez nos cinemas.

É de se lamentar terem feito tamanha besteira com personagens que poderiam originar verdadeiras fontes de trabalho criativo. Infelizmente, a franquia Transformers está aí para provar que filmes não vivem somente do visual apurado, mas sim de substância.

Angry Birds: O Filme (The Angry Birds Movie, EUA, 2016)
Direção:
Clay Kaytis, Fergal Reilly
Roteiro: Jon Vitti
Elenco com as vozes no original: Peter Dinklage, Jason Sudeikis, Kate McKinnon, Sean Penn, Bill Hader, Maya Rudolph, Danny McBride, Josh Gad, Tony Hale
Duração: 97 minutos.

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.