Crítica | Animais Fantásticos e Onde Habitam (Com Spoilers)

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estrelas 4

  • Leiam tudo o que temos do mundo de magia e bruxaria de Harry Potter aqui.
  • Não leia o texto antes de assistir o filme, não sou autorizado a usar obliviate em ninguém. A crítica sem spoilers está aqui.

Cinco anos depois do término da saga, nos cinemas, do bruxo mais famoso do mundo, o universo criado por J.K. Rowling ganha mais um acréscimo à sua mitologia através de Animais Fantásticos e Onde Habitam, que, apesar do nome ser o mesmo do livro escrito pela mesma autora em 2001, trata-se de uma história completamente nova, com o roteiro assinado pela própria criadora da franquia. Apesar de ser um fã desse universo de longa data (ainda tenho a primeira edição brasileira, que nem o raio tinha no título e Draco era chamado de Drago), por alguma razão eu não estava ansioso pela nova obra. Acredito que a saga de Potter foi muito bem encerrada através de As Relíquias da Morte. Sem grandes expectativas, apesar do sempre fantástico Redmayne, fui assistir ao novo longa-metragem e, felizmente, como aquele jovem que leu o primeiro livro do menino que sobreviveu, fui surpreendido.

Não que a obra seja ausente de alguns deslizes, mas seus acertos conseguem se sobressair muito aos erros de tal forma que efetivamente sentimos como se estivéssemos diante de algo novo. Embora se passe no mesmo universo, Animais Fantásticos não tem a mesma atmosfera dos livros ou filmes de Harry Potter, ele consegue nos passar algo totalmente novo, familiar, mas com identidade própria, de tal forma que somos fisgados de novo para esse universo de magia e bruxaria. Rowling demonstra seu talento como roteirista ao diferenciar desde a ambientação de sua história, até os personagens em si, criando novas personalidades que não simplesmente copiam aqueles que nos foram apresentados ao longo dos sete livros anteriores. Acima de tudo, estamos falando de uma obra que, apesar de ser um spin-off, consegue se sustentar nas próprias pernas, permitindo que alguém que recentemente saíra da caverna nunca assistira ou lera nada dessa mitologia aproveite plenamente a experiência.

Vamos começar pelo protagonista, Newt Scamander (Eddie Redmayne). Ele não é exatamente o tipo de pessoa que facilmente nos relacionaríamos. Ele é evidentemente introvertido e totalmente excêntrico (mais do que o normal dos bruxos criados por Rowling, tirando os Lovegood, é claro). Ao contrário de Harry, estamos falando de um personagem que sempre fizera parte do mundo da magia, então não funciona como a típica porta de entrada para um universo totalmente diferente. Ainda assim, apesar desses pontos, quase que imediatamente gostamos dele e muito disso vem da interpretação de Redmayne, é claro. O ator imprime um olhar de inocência ao protagonista, não há como enxergar qualquer tipo de maldade em Scamander – ele praticamente vive em um mundo mágico dentro de um universo de magia e a forma como lida com seus queridos animais é apenas uma prova disso. O protagonista só se sente realmente à vontade com esses animais e seu amor por eles chega a doer quando eles são apreendidos pelo Congresso da Magia.

Fica bastante claro que essa quase reclusão se dá por conta de traumas passados envolvendo outras pessoas, especialmente sua ex paixão/namorada/caso, membro da família Lestrange, que não é conhecida por ser exatamente por serem amores de pessoa. Newt cuida dessas criaturas como se fizessem parte de sua família, eles são o conforto do personagem, o que, por si só, é bastante estranho, considerando o trabalho que dão. O fato dele nomear cada um deles mostra isso com bastante clareza e Rowling escolheu o cenário perfeito para ambientar sua história, nos levando para uma época que precedia a preocupação maior com a natureza que vemos nos dias de hoje. Estamos falando do pós-Primeira Guerra, da crise de 1929 e essa disposição dos muggles ou non-majs, como aqui são chamados, reflete no comportamento dos bruxos de Nova York.

Evidente que o conflito que marcara a Europa nesse início de século é representado pela figura de Gellert Grindelwald (Johnny Depp), que adotava o manto de lorde das sombras na época. A abertura do filme já faz uma clara alusão à guerra através das notícias de jornal que voam pela tela, nos posicionando nesse momento histórico – algo que já fora feito antes em A Ordem da Fênix. Através dessa sequência, o diretor David Yates já deixa claro o clima de instabilidade que assola o globo, enquanto faz uma brincadeira metalinguística: o quinto filme de Harry Potter fora o primeiro a ser dirigido por ele e aqui estamos diante do primeiro de uma nova franquia, é criado um vínculo entre ambos através dessa cena familiar.

Apesar de ter cometido seus deslizes no passado, Yates provou ser a escolha certa para dirigir Animais Fantásticos. O diretor amadureceu muito ao longo dos quatro longas anteriores da franquia e já está familiarizado com toda a mitologia criada por Rowling. Além disso, ele fora responsável pelas obras mais sérias do menino que sobreviveu e sabe imprimir esse tom mais adulto aqui. Não que crianças não irão se identificar com o longa, mas se trata de uma obra mais universal em termos de faixa etária, não sendo, nem de longe, tão burocrático quanto Chris Columbus em A Pedra Filosofal ou A Câmara Secreta.

As cenas de ação conseguem nos entregar algo que não nos deixa totalmente confusos e o diretor sabe diferenciá-las ao longo do filme. Cada uma nos traz uma situação diferente, permitindo que a narrativa não soe repetitiva demais. A presença de Jacob Kowalski (Dan Fogler) se faz essencial aqui como em todo o resto do filme. Ele funciona como nossa nova porta de entrada, o trouxa (sempre vou chamar assim) que é recentemente apresentado a toda essa magia. Seu encantamento é o nosso, visto que nós próprios conhecemos novos lados desse universo, desde as criaturas novas, como o carismático ladrãozinho de qualquer coisa que seja valiosa, até o aterrador Obscurus.

J.K. faz um ótimo trabalho ao não repetir o que viera antes. Por uns momentos temi que simplesmente veríamos uma repetição de alguns dos animais que assistimos ao longo dos sete filmes, mas ela sabiamente insere novas peças em seu grande tabuleiro, garantindo um olhar totalmente novo do espectador. Como dito antes, a sensação é diferente de estar diante de um filme de Harry Potter e muito disso é também pela forma como essas criaturas cumprem um papel ativo dentro do roteiro, não apenas de forma pontual como o hipogrifo em O Prisioneiro de Azkaban. A mudança de ares, claro, já dá um tom novo à obra. Sair da Inglaterra e partir para os EUA nos oferece uma visão totalmente diferente desse mundo. Começando pelas leis diferenciadas em relação aos non-majs (aqui tenho de chamar eles disso, não tem jeito), algo que o próprio Scamander chama de atrasado. É bastante curioso, pois é uma postura social/ política que, em alguns níveis, se assemelha com o que Voldemort prega, especialmente no que concerne o envolvimento amoroso entre os dois grupos. Essa questão somente garante uma maior profundidade à criação de Rowling, um ponto dialoga com o outro, ao passo que a palavra sangue-ruim (além de muitos outros fatores, claro), ganham uma repulsa ainda maior do espectador/leitor – vejam, estamos falando de um xingamento que reflete uma posição adotada setenta anos antes dos eventos de A Pedra Filosofal, um conservadorismo retrógrado gigantesco.

Esse ponto é ainda abordado pelo grupo que se espelha em Salem. A caça às bruxas é uma ameaça constante aqui, a exposição do mundo mágico está sendo retomada a todo instante. O roteiro faz uma clara alusão à intolerância religiosa e a toda forma de preconceito, algo constantemente combatido na franquia. J.K. ainda se aprofunda nessa questão, demonstrando os danos mais íntimos que esse tipo de posição pode causar. No caso, Credence (Ezra Miller) é a vítima, alguém que fora forçado a reprimir quem ele é por toda a vida, dialogando com qualquer pessoa que tenha de esconder sua verdadeira identidade devido a não-aceitação dos outros a seu redor, especialmente familiares. É bastante óbvio que ele é o Obscurus, mas isso não prejudica nosso aproveitamento da obra, por mais que a direção de Yates tente ao máximo nos fazer acreditar que a pequena menina que cantarola canções de caça às bruxas possa ser a bruxa escondida.

O interessante é a maneira como o texto desconstrói essa posição arcaica tomada pelos americanos. Porpentina Goldstein (Katherine Waterston) é quem representa essa evolução de pensamento. Desde o início ela já demonstrara certa hesitação ao prender Scamander, mas ela está em constante conflito entre seu dever e o que efetivamente quer fazer. Sua irmã, Queenie (Alison Sudol), externaliza esse conflito interno da personagem – uma é mais contida, enquanto a outra expressa seus sentimentos com clareza, atuando como contrapartes femininas ideais de Newt e Jacob. A beleza disso é que não precisamos ouvir esse fato através de alguma fala e sim enxergamos através da atuação de Waterston, que nos entrega uma mulher que se encontra justamente no encontro entre o passado e o futuro – ela, mais que qualquer um, representa a abertura da mente para posturas mais progressivas, algo que é deixado claro pela sua vontade de salvar Credence e não simplesmente matá-lo, especialmente no combate final dentro do metrô.

Nesse ponto, mais que nunca, a roteirista mostra como estamos falando de um filme mais adulto. Animais Fantásticos não tem um final exatamente feliz. O jovem atormentado, muito bem interpretado por Ezra Miller, que evidencia toda sua dor contida, é assassinado e Grindenwald se revela podendo tomar a aparência de outros (se ele utilizara a poção polissuco não sabemos ao certo). A transformação não chega a ser uma surpresa e já vai ocorrendo conforme assistimos mais de Percival Graves (Colin Farrell), mas o que já cria essa suspeita de imediato é o corte de cabelo – no mesmo filme duas pessoas com cortes idênticos? Muito difícil! Infelizmente, a presença do vilão aqui acaba soando um pouco forçada, como uma tentativa evidente de estender essa nova franquia para mais filmes. Não nos incomoda muito, mas acaba parecendo como algo fora do que o filme se propôs a nos contar.

Naturalmente, o final meio triste/ meio feliz ocorre também com a perda de memória do querido Jacob, definitivamente um dos personagens que mais nos aproximamos ao longo do filme, alguém que, assim como Newt, mas de forma diferenciada, possui uma bondade até ingênua (a cena do banco mostra bem isso). A obra, porém, nos deixa com aquele sorriso no final, com o emocionante desfecho na recém aberta padaria, representando a dose de esperança nesse cenário pós-crise de 1929.

Acima de tudo, as sequências finais deixam bastante claro como Scamander não é o Escolhido ou algo assim, ele é apenas um sujeito, que adora animais, que fora engolido por todo aquele conflito. Definitivamente uma boa mudança de ares para todo o peso que recaía sobre Harry ao longo das sete (oito se falarmos somente dos filmes) obras anteriores. Aqui ele salva o dia simplesmente porque ele se importa e não porque deve. Mesmo em conflito com o Obscurus, sua intenção é salvar o menino, tanto é que pouco utiliza magia de agressão.

 Toda essa construção é muito bem acompanhada pelas melodias de James Newton Howard, dentre outros projetos, responsável pelas trilhas da franquia Jogos Vorazes. O compositor consegue retomar todo o nosso fascínio pela magia através de suas músicas com um tom mais fantástico e herda muito dos grandes nomes, como John Williams e Alexandre Desplat, que o precederam. Além disso, ele imprime um ar dos anos 1930 com exatidão através do uso de um Jazz descontraído, que se encaixa perfeitamente com a disposição de Newt e seu fiel escudeiro, Jacob, que tem como maior objetivo, ao longo do texto, recuperar as criaturas que vivem na maleta do mazoólogo.

Animais Fantásticos e Onde Habitam prova ser, portanto, uma bela adição ao universo de Harry Potter, uma prova definitiva de como J.K. Rowling tem controle desse universo. Com identidade própria, o filme apenas tem a acrescentar a esse mundo mágico, nos trazendo não só criaturas ou novos locais, como personagens diferentes daqueles que já conhecíamos, com quem facilmente conseguimos nos relacionar, desde o recluso Newt Scamander, até seu amigo carismático. Trata-se de uma obra que consegue firmar sua independência, podendo ser assistida por qualquer um, com uma atmosfera própria, que, apesar de seus pontuais deslizes, certamente faz nossas expectativas serem superadas.

Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts and Where to Find Them) — Reino Unido/ EUA, 2016
Direção:
 David Yates
Roteiro: J.K. Rowling
Elenco: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Alison Sudol, Dan Fogler, Colin Farrell, Johnny Depp, Gemma Chan, Ezra Miller, Zoë Kravitz, Ron Perlman, Jon Voight
Duração: 133 min.


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Para já ter um gostinho do filme, que tal conferir essa imagem de alguns animais fantásticos presentes no universo criado por J.K. Rowling?

Fonte: Net Combo

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GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.