Crítica | Animais Fantásticos e Onde Habitam, de J.K.Rowling

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estrelas 4,5

Animais Fantásticos e Onde Habitam foi publicado em 2001, quando nem a saga original de Harry Potter havia chegado ao fim. Conhecido como um dos livros didáticos de Hogwarts, a obra de Newt Scamander vendida aos trouxas é uma cópia do exemplar do próprio Harry – com direito a rabiscos, diálogo entre Rony e Hermione e comentários irônicos em vários trechos – e possui um prefácio de Alvo Dumbledore, expediente adotado também em Quadribol Através dos Séculos e Os Contos de Beedle, o Bardo. A obra é resultado dos estudos e viagens do magizoologista Scamander, cuja biografia consta no livro (inclusive com prováveis spoilers ao filme, como o nome de sua esposa, por exemplo).

Assim sendo, Animais Fantásticos e Onde Habitam tem um caráter acadêmico, permeado de definições, referências a outras obras, notas de rodapé, glossário – enfim, filia-se a um gênero até então inexplorado no universo Harry Potter, o qual, entretanto, escapa da seriedade imposta a esse tipo de escrita devido à linguagem simples, à brevidade do texto e aos comentários e rabiscos referidos no primeiro parágrafo. O primeiro terço do livro é mais explicativo e introdutório: Scamander desenvolve a noção de “animal”, discorre sobre o funcionamento do Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas e trata da percepção que os trouxas têm a respeito de algumas criaturas mágicas ocultas. Os dois terços restantes constroem um glossário dos animais fantásticos, com cara de enciclopédia mesmo: ordem alfabética, nome em português e em inglês (mais uma vez, Lia Wyler faz um trabalho de tradução interessantíssimo), grau de periculosidade e algumas informações sobre o animal em questão.

Ao contrário do que possa parecer, a primeira parte é tão ou mais interessante que o glossário em si. Chamam a atenção algumas questões as quais provavelmente muitos leitores nunca consideraram – por exemplo, o funcionamento do Departamento específico no Ministério da Magia. Scamander fala sobre como o Ministério providencia habitats seguros, controla vendas e criação dessas criaturas, pratica feitiços desilusórios e de memória e possui uma seção de “desinformação” para lidar com trouxas e calamidades causadas por esses animais no mundo não-mágico. Também em relação ao trabalho do Ministério, o autor explica a necessidade de ocultamento de animais fantásticos – e como isso é essencial para sua preservação.

Igualmente interessante é o panorama dado por Scamander sobre a dificuldade em definir “animal” – em oposição a “ser” – no mundo mágico. Em que categoria se enquadrariam, por exemplo, lobisomens, centauros, duendes, sereianos? Essa discussão, um dos pilares da Magizoologia, é trazida pelo autor de um ponto de vista histórico/evolutivo, mostrando as diversas etapas e dificuldades envolvidas nesse processo. É notável observar que esse tipo de problematização a respeito de diferentes definições ao longo do tempo é comum no gênero acadêmico, parodiado por Rowling nesta obra. Se em Quadribol Através dos Séculos a presença de documentos e transcrições remete ao gênero relato histórico, em Animais Fantásticos e Onde Habitam o texto científico é o modelo utilizado pela autora.

A segunda parte do livro, composta pelo catálogo propriamente dito, também é bastante simpática. Além dos animais já conhecidos pelos leitores da saga, como testrálios e hipogrifos, desenvolvem-se melhor outras criaturas citadas brevemente nas histórias – como murtisco, dilátex e briba; a essas, somam-se bichos famosos na cultura mitológica ocidental (como a esfinge, o trasgo ou a fênix) e outros inéditos. Há desde animais maravilhosos, como o unicórnio, a monstros aterrorizantes como a mortalha-viva. O que deixa a desejar são as ilustrações, pouquíssimas, e que fariam toda a diferença na experiência do leitor – além de, é claro, aumentarem o caráter científico-biológico da obra. Embora seja sempre desejável estimular a imaginação de quem lê, seria muito interessante visualizar um claberto, por exemplo (que, segundo Scamander, “lembra uma cruza de mico com sapo”). Nesse sentido, o filme vem a calhar e cria grandes expectativas naqueles que leram o livro.

Animais Fantásticos e Onde Habitam é um livro instrutivo e divertido, que cumpre muito bem sua proposta. Ampliando a percepção do mundo fantástico de Harry Potter, é uma leitura despretensiosa e permeada de risadas. A magizoologia, inexplorada até então, mostra-se muito fascinante, e a vida de Scamander, atrativa e cheia de aventuras. Com certeza, após a conclusão da leitura, muitos verão com outros olhos Hagrid e sua adoração por animais fantásticos – mesmo os mais perigosos.

Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts and Where to Find Them) – Grã-Bretanha, 2001
Autor: J.K.Rowling
Publicação: Editora Rocco, 2001
63 Páginas

CIDA AZEVEDO . . . Paulistana que sonha em morar no mato, aquariana que sonha com outro planeta, enquanto não realiza o que pode ama viajar pelo mundo afora e pelos livros adentro – e ama falar sobre essas coisas todas também. Como não foi chamada pra trabalhar em Hogwarts, dá aula por aí em escolas bem menos legais, e nas horas vagas trabalha no YouTube (youtube.com/compartilivros). Aprendeu com Drummond que sofrer pode ser divertido. Aprendeu com um boxer chamado Sirius Black que cachorros são legais e pessoas são chatinhas.